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Lula, Wagner Moura e a cultura

Wagner usa muito bem sua visibilidade, sabendo da importância em lutar pelos seus, independentemente da dimensão do que ele vem fazendo

  • Foto do(a) author(a) Gil Vicente Tavares
  • Gil Vicente Tavares

Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 05:00

Wagner Moura acaba de ganhar mais um prêmio por sua atuação em O Agente Secreto. Tanto ele quanto o filme vêm trazendo troféus para o Brasil, seguindo um caminho tão significativo quanto o de Ainda Estou Aqui.

Dois filmes que se passam durante o período mais terrível do século XX, no Brasil; a Ditadura Militar. E os artistas, envolvidos em ambos os filmes, seguiram denunciando as mazelas do país em seus discursos. Não se descolaram das temáticas de suas obras com pronunciamentos fofos. Mostraram que estão atentos e fortes.

Wagner deu passos mais significativos ainda em relação à sua terra natal. Estreou uma peça de teatro em Salvador, projeto que atualmente ele poderia ter estreado em qualquer capital do país e, arrisco a dizer, até mesmo em algumas capitais de outros países. Mas fez questão de ser em Salvador. E fazer teatro, a arte que o formou e o projetou.

Para além de tudo, seguiu dando suas declarações firmes. Em Salvador, falou especificamente sobre a situação do nosso teatro, à míngua, sem políticas efetivas e orçamento continuado e regular para o setor. Na entrevista mais explícita sobre o tema, ele citou os grandes atores Lucio Tranchesi e Marcelo Praddo. Pois é, Wagner, Marcelo está em Salvador, insistindo em fazer teatro, capitaneando um projeto chamado O Teatro Vai Invadir sua Praia, se cotizando com outros artistas, de maneira independente. Enquanto isso, o cachê de apenas uma dupla sertaneja para o Festival da Virada, promovido pela prefeitura, faria uma revolução na programação teatral de Salvador no verão. Uma apresentação de uma banda em 60 minutos por uma programação de diversos artistas em 60 dias.

Wagner usa muito bem sua visibilidade, sabendo da importância em lutar pelos seus, independentemente da dimensão do que ele vem fazendo. Será sempre significativo, mesmo sendo a fala de uma entrevista, frente ao silêncio de tantos outros. E mais significativo do que nossa luta diária, lamentavelmente. Quando falamos, somos alijados, estigmatizados, até mesmo perseguidos. Quando ele fala, os donos da bola botam o rabo entre as pernas e dialogam de maneira plácida.

De tudo que venho discutindo inutilmente, quando não prejudicialmente a mim mesmo, a questão de uma maior municipalização da arte e cultura tem se repetido em meus escritos aqui em minha coluna. E tudo acabou se encontrando no curto diálogo do presidente Lula com Wagner, que circulou pelas redes.

Lula, espontaneamente, fala que “a gente tem que criar núcleos de cultura em cada município”, e fala em fiscalizar a execução dos recursos, colocando “a cultura como uma coisa perene nesse país”. E segue: “ela ensina as pessoas, torna as pessoas mais cultas, mais politizadas, ela gera milhões de empregos”.

Wagner, indiretamente, faz Lula dizer algo que pode não ter repercutido tanto nas redes e na imprensa, mas que para mim é questão crucial (quando não associada a dirigismos e controle repressor do Estado, claro).

Há um abismo gigantesco entre a opinião do presidente do Brasil, numa conversa informal, e as políticas culturais de municípios do Brasil. Ou, para ser mais honesto, a esmagadora ausência de políticas culturais das prefeituras do país.

Não acho que seja proselitismo de Lula. Mas o que ele falou vai de encontro a todo um sistema corrompido, falido e desestruturado de maneira proposital, contra o qual ele poderia intervir com mais efetividade. Gestores querem fazer festa para sua população que se satisfaz com festa. Seria extremamente impopular, por exemplo, tirar milhões de uma festa de São João para investir na manutenção de uma companhia de dança ou teatro municipal, ou numa orquestra, mesmo que de câmera, do município. Ou retirar toda a grana investida em palcos temporários para festas, e construir um teatro municipal. Os 417 municípios da Bahia que o digam.

A função de um governo não é divertir e entreter simplesmente uma população. É gerir uma sociedade em que saúde, educação, saneamento, segurança, cultura e mobilidade, dentre outros, sejam estruturados de maneira sólida, com qualidade e acessibilidade, de forma democrática e ampla.

Para isso, é preciso um sistema, plano, lei, por exemplo, em que o orçamento seja planejado para contemplar as distintas áreas das artes e da cultura. Para entrar no orçamento da cultura, que interligaria federação, estados e municípios, seria preciso que cada secretaria de cultura estabelecesse previamente um plano estruturante e verba específica para cada área.

“Ah, mas tem cidade que nunca teve teatro, a prefeitura vai investir nisso?”. Nenhuma cidade tinha hospital, posto de saúde, asfalto, água encanada, luz elétrica, saneamento básico. São necessidades que foram sendo implementadas para seu bom funcionamento. O teatro também faz parte disso, acredite. Um bom exemplo disso é ver como seu desenvolvimento caminha ‘pari passu’ com as capitais que consideramos exemplos.

Wagner é fruto de uma primavera teatral ocorrida em Salvador. Ele repete sempre isso. Como ele, há vários que vieram antes e vêm depois, com talento e qualidade suficientes para disputar qualquer prêmio. Mas os que ficaram na província, principalmente, pagaram o alto preço de serem testemunhas e vítimas da falta de políticas estruturantes para o setor.

Seja no discurso de Wagner, seja em ações como O Teatro Vai invadir sua Praia, os artistas seguem lutando por seu ofício. Faltam as instâncias públicas, que deveriam ser o grande motor de desenvolvimento do setor. Mas parecem ser um agente secreto, que distribui seus recursos de maneira deliberadamente desordenada, desestruturada e descontinuada.

E aí não tem conversa de Lula, discurso de Wagner Moura e nem campanha independente que dê jeito em nossa arte e cultura combalidas, que insistem em provar que ainda estão aqui.