Hagamenon Brito: Ontem à noite sonhei com Bernardo Soares

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Publicado em 16 de fevereiro de 2016 às 12:44

- Atualizado há 10 meses

Há dias para não trabalhar. Há dias para fazer sexo várias vezes. Há dias para amar o próximo. Há dias para jogar conversa  fora com os amigos. Há dias para brincar com o gato Leo DiCaprio. Há dias para ficar encantado com o bebê. Há dias para se indignar com o Brasil. Há dias para vestir a camisa da Seleção da Alemanha. Há dias para ficar na cama. Há dias para beber vendo a noite chegar - e esses são os melhores dias.Há dias para exercitar a paciência. Há dias para xingar o vizinho do andar de cima. Há dias para gritar: triste Bahia! Há dias para passear pelo Rio Vermelho. Há dias para ler Paul Auster. Há dias para ter saudade da tatuagem indígena nas tuas costas. Há dias para tomar banho frio de madrugada. Há dias para pensar na morte. Há dias para beijar o pai. Há dias para ouvir Patti Smith - e esses são os melhores dias.***Baby, ponha  a faixa This Is The Girl pra tocar e sente-se ao meu lado. Gosto de você bem pertinho do meu coração, enquanto penso que, num mundo perfeito, Deus seria tão gostoso como uma barra de chocolate amargo. Lá fora, esta insensata nau e seus passageiros  que se preocupam tanto com monstros e mares desconhecidos. Aqui dentro, a saudade lusitana e nossa casa em cima do mundo.  ***Ontem à noite sonhei com Bernardo Soares e o poeta disse: “O homem superior difere do homem inferior, e dos animais irmãos deste, pela simples qualidade da ironia. A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente. E a ironia atravessa dois estágios: o estágio marcado por Sócrates, quando disse ‘só sei que nada sei’, e o estágio marcado por Sanches, quando disse ‘nem sei se nada sei’”.***O teu olhar na foto já é um olhar diferente. De onde ele veio? Converso contigo, às vezes, crente de que você já entende o que digo - no entanto, você não entende. Ou entende? Tenho receio de que, desde cedo, você perceba que sou prisioneiro do teu carinho de pequena princesa.  Mas no problem, súdito existe para amar e proteger a filha do rei.***Mesmo quando a lágrima cai, quando a dor domina toda a alma e o céu escurece prenunciando o temporal, a vida não para. Mesmo quando o suicida se atira do décimo andar, quando o filho arde em febre e o missionário ilumina a solidão do sertão, a vida não para. Mesmo quando tudo parece perdido, quando pensamos em voltar para o ventre da mãe e o amor pede proteção, a vida não para.***De fora, minha imagem discreta se perde num quarto de hotel neoclássico e Antonioni filma. De dentro, minha imagem violenta se perde num motel de beira de estrada e Sam Peckinpah filma. Entre uma imagem e outra, um casal se ama, uma criança brinca e um cachorro observa a chuva, talvez a vida. E você está lá, numa janela, como num fotograma, como num filme, como na vida. E, sob as imagens, a realidade.***Haicai que algum deus japonês escreveu, qual paraíso distante você visita quando dorme assim como um anjo?