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Mariana Paiva: vá ouvir as mulheres

Colunista é escritora, jornalista, mestra em Cultura e Sociedade pela Ufba, doutora em Literatura pela Unicamp e professora de escrita

  • M
  • Mariana Paiva

Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 11:07

O outro se sentem visto quando é ouvido
O outro se sente visto quando é ouvido Crédito: Freepik

Vá ouvir as mulheres. Mesmo que você seja mulher. Ainda que você ache que já sabe o que vai ser dito. Ouça. E quando eu digo ouvir é também ler, assistir, saber o que pensam as mulheres. A gente ama dizer por aí que Chico Buarque (que eu amo) entende a alma da mulher como ninguém. Que fala como se fosse uma delas - mas veja bem, ele não é, e nem acho que ele queira ser. Isso, inclusive, só quem pode dizer é ele. Eu posso dizer outras coisas, e digo isso agora: vá ouvir as vozes das mulheres. E comece pelas que estão perto de você.

O que sua sogra tão inteligente teria feito de diferente se não tivesse casado ainda adolescente? Como teria sido a vida de minha avó sem a dor infinita de perder uma filha quando saiu pra passear com ela, como foi sobreviver com essa culpa no corpo até seu último suspiro, em coma num hospital? O que a mulher que anda por perto tem a dizer e você ainda não escutou? Que cansaço, que angústia, que alegria se esconde em alguém que está tão perto? Quantos amores ficaram pelo caminho em segredo? Que medo ela tem? O que ela ainda não fez mas quer? Pergunte com vontade de escutar.

E nem é porque é dia da mulher nem nada, porque não precisa de efeméride pra isso que é essencial: empatia só se constrói humanizando a outra pessoa. Lembrando que onde dói aqui, dói lá também. E que às vezes dói mais. Bem o digam todas as mulheres pretas cuidando dos filhos de outras. Quantas Irenes não acolheram e cuidaram de crianças dos patrões enquanto as suas eram chamadas por caminhos sem volta? Quantas áreas de serviço, quantos quartinhos abafados de empregada, quantas vezes indo pra casa muito mais tarde do que o previsto? E essas vozes caladas? Quantas?

Muito mais que útero, mulher tem voz. Vá ouvir. Se forem mais inteligentes, mais corajosas, mais divertidas, melhor. Respire o mesmo ar que elas. Veja com que valentia circulam pelo mundo, como se manifestam, como espalham ventos novos. Escute seus segredos de vida e humildemente aprenda. Escute alguém como Fernanda Montenegro, dizendo que todo dia acorda e dança. Um segredo. Ou como minha avó, ilustre desconhecida que, quando enviuvou, brigou com todo mundo pelo direito dela de amar de novo. E amou. Ou Paulina Chiziane ganhando o prestigiado Prêmio Camões e falando dele de pé na sandália suja do barro do chão. Não a empáfia dos que tantas vezes têm mais certezas sobre a qualidade de seus textos do que quem lê. Em vez disso, a profunda sapiência de quem sabe que a vida é a melhor e única matéria-prima possível de tudo. Mulheres que fazem a pouca comida durar um mês inteiro, reescrevem a luta familiar com batom vermelho, alegria e anedotas, inventam um jeito novo de cantar o canto de dor da cidade com sua voz, saem de casa só com a roupa do corpo e os meninos pela mão. Ou ficam enquanto se organizam para ir embora de uma vez. Cada mulher com seu tempo, com seu jeito de existir e tá tudo muito bem. Com mais sorte ainda, Marias que iluminam tudo porque amplificam vozes fazendo as perguntas certas, e que recebem as respostas sinceras porque sabem escutá-las.

Diante de uma mulher, é sempre sábio apurar os ouvidos e o olhar. Aprender. Entender como ela atravessa cada onda, tira o sal dos olhos e respira no mar calmo, como se prepara para a enchente da maré. Como é ser esse outro lado da história que vive abrindo espaço com o próprio corpo, aquele que anda mais rápido na rua à noite, aquele que já foi machucado por quem dizia amar. Aquele que pensa diante de um guarda-roupa aberto pra não ser julgado, aquele que cresce pra nascer alguém, aquele que o mundo inteiro está olhando e diz como deve ser - e que nunca é pra ser como está, seja como for. Aquele único corpo que é perguntado, numa entrevista de emprego, se tem filhos, se quer ter, se tem com quem deixar. Aquele corpo de quem se tornou mulher e tem medo de virar um número na estatística. Quantas?

Por isso, hoje e sempre, a gente precisa ouvir as mulheres. Que é também deixar pelo caminho as mil bobagens que ouvimos por aí sobre o que nós, mulheres, queremos ou somos. As piadinhas que só têm graça pra quem quer se manter sentado no pudim do privilégio. Tá gostoso, né? Mas a gente também quer um pouquinho, pra variar. E falo por mim. Pela minha única e inalienável voz que me foi concedida. E se eu for esperta, vou calar mais que falar diante de outras mulheres mais sábias e melhores que eu - e que sorte que elas existem, e são tantas! - pra eu levar mais na manha o barco da vida. Fica a dica pra você também.

Mariana Paiva é escritora, jornalista, mestra em Cultura e Sociedade pela UFBA, doutora em Literatura pela Unicamp e professora de escrita