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Da Redação
Publicado em 19 de setembro de 2014 às 03:28
- Atualizado há 3 anos
A Festa de Boa Morte de Cachoeira pode ser mais antiga do que se imagina. Em artigo anterior cogitei a possibilidade da origem da Festa da Boa Morte de Cachoeira não ter vínculo maior com a Festa da Boa Morte da Igreja da Barroquinha de Salvador, no sentido desta ter influenciado a do Recôncavo, linha discursiva seguida pelos estudiosos do assunto, baseados numa discutível oralidade e nas referências do historiador J. da Silva Campos, fonte primária desse evento e, seguramente, da oralidade também. Nada contra a oralidade, mas em se tratando de cinco a seis gerações fica aquele sentimento de quem conta um conto aumenta um ponto.Encontrei esta semana um documento sobre a Boa Morte de Cachoeira mais antigo do que os documentos arrolados por Silva Campos, os da Igreja da Barroquinha, que datam de 1851. Trata-se de um ofício do cônego da Igreja de Nossa Senhora do Carmo do referido município, datado de 14 de setembro de 1849, reparem na data, escrito no mês seguinte à Festa da Boa Morte e no calor de um episódio que causara ao pároco alguns constrangimentos. Então, ficamos sabendo que a devoção à Nossa Senhora da Boa Morte já existia em Cachoeira naquele ano; outro documento que citamos em artigo anterior mostrava que a devoção já existia em Santo Amaro em 1841.Essas datas têm grande importância no sentido de nos esclarecer algumas questões. A primeira, essa vontade de vincular o culto à Boa Morte em Cachoeira a um fio condutor que leva à Igreja da Barroquinha em cujas imediações surgiu o primeiro terreiro de candomblé da Bahia em data incerta. Existe essa possibilidade, mas também deve-se considerar a hipótese, considerando a antiguidade da documentação, de que a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte do Recôncavo tenha ocorrido independente de influências das devotas de Salvador. Esta linha de pesquisa não deve ser ignorada.O segundo equivoco é a referência de que a Tia Ciata tenha sido a fundadora da Boa Morte de Cachoeira, como consta num pôster-retrato do memorial da sede da irmandade inaugurado este ano. Podem tirar o pôster ou mudar a legenda. A Tia Ciata nasceu em 1854, ou seja, cinco anos após o registro referido pelo vigário no seu oficio endereçado ao Arcebispo da Bahia. É a oralidade que sustenta até hoje essa vontade de que a Tia Ciata, pela sua importância na vida cultural do país, tenha sido Irmã fundadora. Não foi e não acredito sequer que tenha pertencido a irmandade; aos 22 anos de idade foi residir no Rio de Janeiro e lá mostrou-se devota de outros santos, os seus biógrafos não trazem nenhuma evidência de que se celebra as festas de 15 de agosto.E o que dizia o pároco de Cachoeira no oficio endereçado ao arcebispo? Narra ter recebido solicitação das irmãs da Boa Morte pedindo autorização para solicitar esmolas, passar a bolsa entre a população com o objetivo de arrecadar recursos para a festa, prática ainda hoje mantida, menos por necessidade, mais para honrar a tradição. Então, o cônego explica que pessoas se infiltravam entre as irmãs para desrespeitar a proibição e se justifica por ter provocado um incidente que o expôs junto à população ao reprimir publicamente uma esmoler que usava a imagem de Santo Antônio para arrecadar para si própria. Uma longa história cuja importância está apenas na referência de que, em 1849, a devoção à Boa Morte já existia em Cachoeira. Documentos são evidências muito mais consistentes do que a oralidade, cujo valor está na falta deles, e de ilações que as vezes se enquadram numa determinada narrativa como peças de um quebra-cabeças, apenas porque assim desejado. Quando surgem outras evidências nos deparamos com a possibilidade de que talvez estejamos montando o quebra-cabeça errado.>