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Paula Theotonio
Publicado em 8 de março de 2026 às 08:00
Portugal, Estados Unidos, Chile, Austrália, Serra Gaúcha… A trajetória de Eloiza Teixeira, enóloga da vinícola baiana Terranova, é daquelas inspiradoras; que fazem qualquer mulher de espírito aventureiro sonhar alto. Talentosa e dona de uma personalidade leve e inquieta, não titubeou antes de aceitar, em 2015, o convite do Grupo Miolo para assumir a produção de espumantes no Sertão baiano, onde finalmente fincou raízes. >
Há 11 anos no Vale do São Francisco, dedica-se diariamente à elaboração de rótulos amplamente conhecidos, como o Miolo Testardi Syrah e toda a linha de espumantes Terranova, além de alguns produtos comercializados sob a marca Almadén. Isso mesmo que você leu, diariamente, pois a região produtora vive uma vindima sem fim: quase todos os dias, uvas são colhidas e processadas às margens do Velho Chico, virando sucos, vinhos finos tranquilos, frisantes e espumantes, além de fortificados e destilados. >
Um cenário, vale ressaltar, completamente diferente de regiões de viticultura tradicional, onde o ciclo da videira acompanha as estações do ano. E se a colheita nunca se encerra, o trabalho também é constante. Mas também é especialmente gratificante: entre tanques, videiras, planilhas e cactos, Eloiza celebra aberturas de novos mercados para a Terranova, que recentemente exportou 200 mil garrafas de um espumante. “É o fruto de muita dedicação. Estamos nas feiras internacionais, apostando em qualidade e temos um produto com muito custo-benefício”, aposta a enóloga.>
Conheça um pouco mais sobre visão de mundo e vivência da Eloiza nessas três perguntas a seguir:>
Nesses mais de dez anos de atuação no Vale, qual foi a pergunta que você mais escutou sobre a região? E como você responde?>
Sempre se surpreendem por estarmos fazendo vinho no Sertão. “O Nordeste, tão conhecido por suas praias e lugares paradisíacos, como assim se faz vinho no interior?” Claro que com conhecimento e também graças aos corajosos, que buscaram este conhecimento em regiões desertas e/ou secas, como a Califórnia, Israel, Mendoza. Mas, certamente, graças à irrigação com a água do Velho Chico, este Sertão se torna um oásis com infinitas possibilidades. >
Quando conversamos com quem entende um pouquinho a mais sobre vinhos, a pergunta é se não estamos esgotando demais as parreiras. Enquanto não explico como funciona o ciclo da uva a pessoa não sossega. Temos dois ciclos bem distribuídos e escalonados. Nós temos um planejamento de produção que vai funcionando de acordo com a entrada destas uvas e planejamento comercial. Portanto elas ficam com disponibilidade de água, nutrientes e completam o ciclo fenológico. Quando terminamos a colheita, reduzimos essa disponibilidade de água e automaticamente a planta entende que precisa diminuir as suas atividades e poupar as reservas. Entre a poda e a colheita, contamos em média 120 dias. Pós-colheita até a poda são 60 dias. Total: 180 dias. E se produzimos duas vezes, 360. Fecha um ano produtivo.>
Qual dos vinhos que você elabora que mais carrega elementos da sua personalidade?>
Eu adoro a elaboração de todos, sejam brancos, tintos ou rosés. Realmente a transformação da uva em vinho é muito dinâmica. E aqui, por tudo acontecer simultaneamente: colheita, limpeza dos mostos, fermentação, preparação dos cortes, espumantização, preparação engarrafamento… Ah, isso dá pra amar e odiar no mesmo dia (risos). Se for pela demonstração resiliente de dedicação desmesurada, certamente o Testardi Syrah. >
Os favoritos, por sua vez, mudaram com o tempo. Pensando lá atrás, foi o Terranova Verdejo. Um branco frutado, cítrico, fresco e que desde o primeiro dia foi um best seller. Quase uma força da natureza, marcante e que fica até hoje na memória. Mas os rosés sempre foram a minha predileção. Produzimos como se fosse um branco, mas o resultado é lindo. Resulta sempre em um espumante delicado, de processos difíceis (risos), mas despretensioso e divertido. Ah, é o meu queridinho. >
O que mais te surpreende hoje, olhando para a evolução da vitivinicultura brasileira nos últimos anos?>
As pessoas. Chama a minha atenção quem se envolve, quem engaja, quem assume. Porque isso faz com que cada vez mais a informação chegue, os vinhos e espumantes encantem onde e a quem quer que seja. O que aconteceu nos últimos anos foi isso: o vinho brasileiro ganha espaço entre os brasileiros, os vinhos de novas regiões ganham a curiosidade dos apreciadores e o Vale do São Francisco fica no meu coração, por ser tão diverso. ✷>
CONCURSOS DE SUCOS E VINHOS À VISTA>
Entre os dias 9 e 12 de março, acontecem no Hotel Vila Galé Rio de Janeiro as degustações às cegas da 11ª Grande Prova Vinhos do Brasil (GPVB 2026). Este ano, o júri avaliará mais de 1.200 amostras de vinhos, espumantes e sucos de uva provenientes de cerca de 10 estados brasileiros. Serão eleitos os melhores em 80 categorias, incluindo castas híbridas, castas italianas, vinhos de baixa intervenção e rótulos sem álcool. A cerimônia de entrega dos certificados da GPVB 2026 acontecerá entre os dias 12 e 14 de maio, em Bento Gonçalves (RS), durante a feira Wine South America. A realização é do Grupo BACO Multimídia. >
Já no dia 13 de março, encerram as inscrições para o Concurso do Suco de Uva Brasileiro – Edição 2026, realizado pela Associação Brasileira de Enologia (ABE). As vinícolas poderão inscrever seus produtos em cinco categorias: Suco de Uva Natural, Suco de Uva Integral, Suco de Uva Reconstituído, Suco de Uva Gaseificado e Suco de Uva Orgânico ou Biodinâmico, com três grupos em cada uma: branco, rosé e tinto. O regulamento completo e a área de cadastramento estão disponíveis no site www.enologia.org.br. Esta é a primeira competição do mundo dedicada exclusivamente à avaliação técnica e profissional da bebida, que caiu no gosto do brasileiro. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária indicam aumento de 52% no consumo nacional entre 2016 e 2023, alcançando cerca de 275 milhões de litros por ano.>