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Maiara Baloni
Publicado em 12 de março de 2026 às 11:10
A aproximação entre Mercosul e União Europeia abre acesso a um dos maiores mercados do mundo. O acordo comercial conecta o Brasil a cerca de 720 milhões de consumidores e a uma economia que responde por aproximadamente um quarto do PIB global. A integração amplia as possibilidades de exportação e reduz a dependência de parceiros comerciais isolados, como a China.
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ACOROD MERCOSUL E UNIÃO EUROPEIA
O cenário atual é de transição, com foco na aplicação provisória das cláusulas comerciais enquanto se finalizam os trâmites jurídicos finais.>
A principal mudança para o cidadão comum ocorre através da redução gradual de impostos de importação. Itens como vinhos, azeites, queijos finos e determinados medicamentos fabricados na Europa devem chegar às prateleiras com custos menores. >
É fundamental entender que essa redução não ocorre de forma súbita. O cronograma prevê um escalonamento que se estende por um período de 12 a 15 anos, permitindo que o mercado e os preços se ajustem de maneira contínua, sem causar impactos abruptos na inflação interna de bens de consumo.>
O agronegócio brasileiro desponta como o setor com ganhos mais expressivos no curto prazo. O país assegurou uma fatia estratégica de 42,5% da cota total de exportação de carne bovina para o bloco europeu com tarifas reduzidas, consolidando-se como fornecedor essencial para o continente. >
Esse acesso ampliado exige, porém, uma adaptação rigorosa dos produtores. Para usufruir dessas condições, o setor precisa cumprir normas severas de rastreabilidade e sustentabilidade, incluindo o compromisso com o desmatamento zero.>
Essas exigências, além de atenderem às normas da Organização Mundial do Comércio, atuam como um selo de qualidade que pode elevar a competitividade e a reputação do produto brasileiro no exterior.>
A indústria brasileira encara o acordo sob uma perspectiva de concorrência e modernização. Segmentos como o de laticínios e o vitivinícola, historicamente mais sensíveis, enfrentarão a entrada de produtos europeus mais competitivos, o que exigirá ganhos de eficiência para manter a fatia de mercado. >
Em contrapartida, a indústria de transformação ganha um alívio importante com a redução de tarifas para a importação de máquinas, equipamentos de alta tecnologia e fertilizantes. O acesso a esses insumos europeus mais baratos é visto pelo setor como um passo necessário para diminuir os custos de produção e acelerar a modernização do parque fabril brasileiro, que há muito busca maior competitividade global.>
A caminhada até a vigência do acordo não foi simples e ainda reserva etapas burocráticas importantes. A aprovação no Conselho da União Europeia, em janeiro de 2026, não foi unânime: o pacto contou com 21 votos a favor, mas enfrentou a resistência de cinco países, França, Hungria, Polônia, Áustria e Irlanda, que votaram contra, preocupados principalmente com a pressão sobre seus produtores rurais. >
A Bélgica optou pela abstenção, mas a maioria qualificada assegurou a aprovação. Atualmente, o texto está sob análise do Tribunal de Justiça da União Europeia, uma etapa solicitada pelo Parlamento Europeu para garantir a conformidade legal, o que acaba por atrasar o vigor total do acordo.>
Do lado do Mercosul, a situação avança com disparidades. Argentina e Uruguai já concluíram suas ratificações. O Brasil finalizou sua parte com a promulgação do PDL 41/2026 em 4 de março de 2026, após aprovação no Senado, enquanto o Paraguai tem sua ratificação prevista para este mês.>
A estratégia dos blocos é iniciar uma aplicação provisória das cláusulas comerciais ainda em 2026, antes mesmo que todo o processo burocrático seja encerrado. Isso significa que, na prática, os benefícios e as mudanças na balança comercial podem começar a rodar de forma antecipada, sem aguardar o fim de toda a burocracia internacional.>
O acordo marca um movimento estratégico de diversificação para o Brasil, conectando o país a um mercado que responde por 25% do PIB global e reduzindo a dependência histórica de parceiros comerciais únicos. >
Embora o cenário aponte para um desafio fiscal imediato, com uma renúncia de arrecadação estimada em R$683 milhões em 2026 devido à queda nas tarifas de importação, o governo projeta uma compensação positiva com o aumento nas trocas comerciais, que deve gerar um saldo líquido de US$302 milhões.>
A eficácia desta integração será medida, ao longo dos próximos anos, pela capacidade das empresas brasileiras em atender aos novos padrões internacionais de sustentabilidade e pela agilidade em modernizar seus processos produtivos. O impacto na vida cotidiana será sentido gradualmente, refletindo-se na composição da cesta de produtos importados e no ritmo de crescimento das cadeias exportadoras do país.>