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Amanda Cristina de Souza
Publicado em 12 de março de 2026 às 11:36
Cuidar da saúde nunca custou tão caro no Brasil. Entre a mensalidade do plano, o balcão da farmácia e a participação financeira em exames, o brasileiro vê uma fatia cada vez maior do seu rendimento desaparecer antes mesmo do fim do mês. >
Em 2026, a saúde se firmou como um dos setores mais dinâmicos da economia do país, mas esse crescimento traz um desafio: o risco de a conta ficar pesada demais para a classe média.>
Pesquisas da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicavam que os gastos com saúde representavam cerca de 8% do consumo familiar total no país.>
Naquele período, a despesa superava itens como educação (entre 5% e 6%) e lazer em muitos domicílios, especialmente entre famílias de maior renda.>
Os números, porém, se referem ao levantamento mais recente disponível da pesquisa e não refletem necessariamente a realidade atual, já que a estrutura de consumo das famílias pode ter mudado nos últimos anos.>
Nos últimos anos, o peso da saúde no orçamento das famílias brasileiras mudou de forma perceptível. Dados da Conta-Satélite de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que a participação de serviços privados, como consultas e planos de saúde, caiu levemente, passando de 64,9% para 63,7% do total em 2021.>
Ao mesmo tempo, os medicamentos passaram a ocupar uma fatia maior das despesas, chegando a 33,7% do gasto das famílias com saúde.>
O levantamento também aponta que o volume total de gastos com saúde cresceu 10,3% em 2021, acima do ritmo de expansão do PIB naquele ano. Ainda assim, os dados não permitem comparar diretamente esse avanço com a inflação acumulada do período, estimada entre 25% e 30%.>
A forma como esse dinheiro é gasto varia bastante conforme a renda.>
Nas famílias de renda mais alta, a maior parte da despesa costuma se concentrar em planos de saúde mais completos, que podem representar até 58% dos gastos com serviços de saúde, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares.>
Já nas famílias de menor renda, como as da classe D, o impacto aparece principalmente em medicamentos de uso contínuo, frequentemente pagos diretamente do bolso, categoria que representava 33,7% das despesas com saúde em 2021, segundo a Conta-Satélite do IBGE.>
Se a sensação é de que cuidar da saúde está cada vez mais caro, não é impressão. Dois fatores ajudam a explicar por que os custos médicos sobem mais rápido que a inflação geral.>
O primeiro é a chamada inflação médica, medida pelo índice conhecido como VCMH (Variação de Custos Médico-Hospitalares). Novas tecnologias, próteses e equipamentos médicos, em sua maioria importados, são cotados em dólar.>
Quando esses custos aumentam, acabam sendo incorporados aos serviços de hospitais e planos de saúde, com reajustes regulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANSS).>
O segundo fator é demográfico. O Brasil está envelhecendo rapidamente. Com mais idosos na população, cresce também a demanda por consultas, exames, cirurgias e internações, pressionando as contas das operadoras e do próprio sistema de saúde.>
O preço dos medicamentos é hoje o principal responsável pelo desembolso direto do consumidor, o chamado out-of-pocket.>
Mesmo com a ampliação do programa Farmácia Popular, remédios de alta tecnologia usados no tratamento de doenças crônicas e raras registraram aumentos expressivos.>
Entre os fatores estão a ruptura nas cadeias logísticas globais e a elevada carga tributária, que no Brasil ainda figura entre as mais altas do mundo sobre medicamentos.>
Mesmo pesando no bolso do consumidor, o setor de saúde também é um dos motores da economia brasileira.>
A chamada economia da saúde reúne uma cadeia extensa de atividades: hospitais, laboratórios, clínicas, indústrias farmacêuticas, planos de saúde e empresas de tecnologia médica.>
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o setor já responde por cerca de 9,5% do Produto Interno Bruto (PIB).>
Além disso, é um dos maiores empregadores do país. Os postos de trabalho vão desde profissionais de limpeza hospitalar e técnicos de enfermagem até pesquisadores, médicos especialistas e engenheiros biomédicos.>
Embora o Brasil tenha o Sistema Único de Saúde (SUS), um dos maiores sistemas universais do mundo, o gasto privado com saúde no país continua superior ao gasto público.>
De acordo com o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em 2015 o setor privado já respondia por quase 60% de todo o gasto em saúde no país.>
Dados mais recentes mostram que o Brasil ampliou os gastos públicos com saúde em 2024. Segundo relatório baseado na classificação internacional COFOG, a despesa nessa área subiu de 4,72% para 5,03% do PIB entre 2023 e 2024, impulsionada principalmente pelo aumento dos gastos hospitalares.>
Mesmo com essa expansão, mais de 55% de tudo o que se gasta com saúde no Brasil ainda sai diretamente do bolso dos cidadãos ou das empresas (via planos de saúde), enquanto o investimento do Estado fica em torno de 45% do total, segundo a Conta-Satélite de Saúde (edição até 2021) do IBGE.>
A telemedicina e o uso de inteligência artificial em diagnósticos prometem tornar o sistema de saúde mais rápido e eficiente nos próximos anos. Em teoria, essas ferramentas podem reduzir filas, evitar exames desnecessários e cortar custos operacionais.>
No curto prazo, porém, a conta ainda pesa. A adoção dessas tecnologias exige investimentos altos em equipamentos, softwares e treinamento, despesas que acabam entrando na planilha de hospitais e operadoras e, muitas vezes, chegam ao consumidor.>
No meio desse avanço tecnológico, fica a dúvida que começa a ganhar espaço no setor. Será que a inovação vai ajudar a segurar o preço da saúde ou será apenas mais um item caro na conta do paciente?>