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Carmen Vasconcelos
Publicado em 10 de março de 2026 às 20:42
Perguntas sobre maternidade ou vida pessoal ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres em entrevistas de emprego. Esses questionamentos podem revelar muito sobre a cultura da empresa. Muito além da avaliação, o momento da entrevista também expõe valores, práticas e o nível de maturidade da organização em relação à diversidade. >
Segundo o Relatório Mulheres Brasileiras, 64% das mulheres já foram questionadas sobre maternidade e 42% receberam perguntas sobre gravidez ou intenção de engravidar durante processos seletivos.>
“A entrevista é uma via de mão dupla. A candidata está sendo avaliada, mas também observa a empresa. Quando questionam se a mulher pretende ter filhos ou como conciliar maternidade e trabalho, a organização transmite informações importantes sobre como trata suas colaboradoras”, comenta Polyana Macedo, gerente executiva de RPO no ManpowerGroup Brasil, consultoria global de soluções em RH.>
Para ajudar as candidatas a interpretar esses sinais e tomar decisões mais conscientes, a especialista aponta os principais pontos de atenção durante o processo seletivo. Confira:>
Perguntas que indicam alerta >
Nem todas as perguntas problemáticas aparecem diretamente. Algumas surgem em tom de conversa informal, mas carregam intenções que não deveriam fazer parte do processo.>
Questionamentos como “Você tem filhos ou pretende ter?”, “É casada?”, “Pretende se casar nos próximos anos?” ou “Você teria disponibilidade mesmo com filhos pequenos?” sinalizam que maternidade, vida pessoal e planos familiares ainda são vistos como fatores que influenciam o desempenho da candidata.>
“Uma organização que faz essas perguntas provavelmente encara a mulher, em alguma medida, como um risco. Isso pode indicar como ela será tratada depois da contratação, especialmente em situações como gravidez ou retorno de licença”, destaca Polyana.>
Sinais sutis de cultura e postura >
O processo seletivo comunica muito além das perguntas feitas. A postura do entrevistador, a composição da banca e até o tom das respostas ajudam a revelar como a empresa enxerga diversidade e equidade na prática.>
A ausência de mulheres em cargos de liderança, respostas evasivas quando o tema é diversidade ou uma atitude condescendente durante a conversa são sinais de alerta. Da mesma forma, explicações vagas sobre trilha de carreira e crescimento profissional podem indicar que o desenvolvimento feminino não é tratado de maneira estruturada ou estratégica.>
“O cuidado com que o processo é conduzido, as perguntas feitas, e as que são evitadas, além da diversidade entre os entrevistadores, comunicam valores de forma muito clara. Saber identificar esses sinais é uma forma de proteção e também um passo importante para escolhas profissionais mais conscientes”, explica a especialista.>
O que perguntar para avaliar a empresa >
Na entrevista, é possível analisar a maturidade da empresa ao questionar sobre programas de desenvolvimento para mulheres, políticas de licença-maternidade além do mínimo legal e possibilidades de flexibilidade. Empresas que respondem com clareza tendem a oferecer ambientes mais seguros para o crescimento profissional feminino.>
“Fazer perguntas na entrevista é um sinal de maturidade profissional. Perguntar sobre políticas de licença ou sobre a composição da liderança ajuda a entender se aquele é um lugar onde será possível crescer”, reforça Polyana.>
Como se posicionar diante de perguntas inadequadas >
Ao identificar sinais de perguntas inadequadas, a candidata pode se posicionar de forma firme e profissional, sem perder a sutileza. Uma estratégia é redirecionar o foco para suas competências: “Minha vida pessoal não interfere na qualidade das minhas entregas, nem no cumprimento das minhas responsabilidades”. Outra abordagem é questionar a pertinência da pergunta: “Você poderia me explicar como essa informação se relaciona com as exigências da vaga?”>
“Nenhuma mulher precisa aceitar qualquer ambiente de trabalho. Reconhecer organizações que respeitam seus limites é também uma forma de se proteger e também exercer poder, tomando decisões profissionais mais conscientes”, conclui a especialista.>
Com assessoria>