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Juliana Rodrigues
Publicado em 24 de março de 2026 às 09:44
O tempo do “ajuste verbal” no frete acabou. Em uma ofensiva coordenada para acalmar as rodovias, o Governo Federal publicou uma Medida Provisória que reforça o piso mínimo de frete com maior controle digital das operações. A partir de agora, o registro das operações de transporte passa a ser exigido nos sistemas oficiais e, quem tentar burlar o pagamento abaixo do mínimo estará sujeito a bloqueios operacionais e penalidades administrativas. O recado de Brasília é claro: ou cumpre a tabela ou deixa de operar.
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Dados divulgados pelo Ministério dos Transportes e pela ANTT indicam o aumento das ações de fiscalização do setor. O descumprimento das regras pode acarretar penalidades administrativas previstas em norma, como aplicação de multas.
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Empresas reincidentes no pagamento abaixo do piso podem sofrer sanções administrativas, incluindo multas e, em casos mais graves e após processo administrativo, a suspensão do RNTRC (Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas).
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O novo sistema da ANTT amplia o controle sobre as operações e pode impedir o registro ou a validação de informações inconsistentes, incluindo valores abaixo do piso mínimo estabelecido, além de permitir a aplicação de penalidades administrativas.
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O foco da fiscalização incorpora ferramentas digitais e análise de dados, sem abandonar as ações presenciais. Sistemas da ANTT permitem cruzar informações sobre custos operacionais, como o diesel, e características das viagens, ampliando a capacidade de identificar indícios de descumprimento do piso mínimo.
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“Essa tabela funcionará como uma referência mínima para a prestação de serviços de transporte, especialmente para pequenos e médios operadores. Não é aceito que empresas paguem abaixo do piso estabelecido para o frete”, declarou o ministro dos Transportes Renan Filho.
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Para o transportador autônomo, a digitalização da fiscalização representa a consolidação de uma demanda histórica, a aplicação mais efetiva da tabela de fretes. Ao tornar o registro obrigatório e ampliar o controle sobre irregularidades, o governo busca reduzir a prática de preços abaixo do piso legal, ainda que as negociações de mercado continuem ocorrendo acima desse limite.
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A medida funciona como um instrumento de proteção diante da volatilidade internacional. Com o petróleo Brent em patamares elevados e a instabilidade no Estreito de Ormuz pressionando o diesel, o reforço na fiscalização busca assegurar o cumprimento do piso mínimo e reduzir a defasagem entre custos e frete. O objetivo central é preservar a viabilidade financeira do motorista, ao desestimular a contratação de fretes abaixo dos valores de referência.
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Mas nem tudo é consenso no setor. Representantes do setor produtivo e grandes tradings já acenderam o alerta. A avaliação é que o maior controle sobre o frete pode elevar custos logísticos de alimentos e insumos, com potencial de pressão inflacionária, a depender do repasse ao consumidor. Também há risco de judicialização, já que empresas questionam se a medida fere a livre iniciativa, tema que já foi objeto de debate no Supremo Tribunal Federal. Na prática, agentes do mercado avaliam que o governo pode substituir o risco de greve por disputas no campo jurídico.
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