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Publicado em 30 de janeiro de 2025 às 07:25
Cada curtida, post salvo ou compartilhado, comentário deixado em uma foto ou vídeo se transforma automaticamente em uma pista para os algoritmos das redes sociais coletarem informações sobre gostos, preferências, interesses, posicionamentos e hábitos de consumo, entregando ao usuário mais conteúdos semelhantes. Esse é o fenômeno da bolha informacional, que envolve todos os perfis nas mais variadas plataformas. Quer entender melhor? Pegue seu celular e acesse a aba “Explorar” do seu Instagram. Tudo o que aparece ali é uma sugestão da rede, baseada nas trilhas digitais que você deixou.>
O efeito disso é que, mesmo sem perceber, o usuário passa horas consumindo conteúdos aleatórios que reforçam suas crenças, valores e opiniões — para o bem e para o mal — com a repetição do que é apresentado no feed e até nos anúncios. Esse fenômeno é conhecido como “câmara de eco”.>
Mariana Mandelli,
coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta, plataforma especializada em educação midiáticaO maior cuidado que se deve ter ao navegar em uma bolha informacional é desenvolver um olhar crítico para diferenciar o que é informação, o que é fake news e o que se enquadra em teorias da conspiração. Um indício importante é verificar quem publica o conteúdo: trata-se de uma fonte conhecida e confiável? O material apresenta referências e fontes verificáveis? Os veículos de comunicação tradicionais também estão abordando o mesmo tema?>
Outro ponto fundamental é que, ao identificar um conteúdo duvidoso, o ideal é não continuar na página, não curtir nem compartilhar. Quanto mais engajamento um tema recebe, mais as plataformas entregam conteúdos semelhantes, reforçando a bolha. Agora, mais do que nunca, cada usuário precisa atuar como curador do que consome nas redes sociais, especialmente após a Meta — empresa responsável pelo Instagram, Facebook e WhatsApp — anunciar o fim do seu programa de verificação de fatos.>
No Brasil, a Advocacia-Geral da União (AGU) manifestou preocupação com a possibilidade de essa decisão abrir espaço para ainda mais desinformação, além de estimular discursos de ódio e crimes como racismo e homofobia. O governo brasileiro questionou a Meta, que, em nota, justificou a decisão de Mark Zuckerberg: “Com o empoderamento de nossos usuários, que decidirão quando postagens são potencialmente enganosas e precisam de mais contexto, reduzindo o risco de vieses nas decisões de moderação de conteúdo”.>
No contexto das bolhas informacionais, essa mudança pode resultar em um aumento da radicalização dos discursos, na polarização e na disseminação de desinformação. Se, por um lado, receber conteúdos alinhados aos próprios interesses pode ser conveniente, por outro, essa prática acaba limitando o acesso a diferentes visões e opiniões, confinando os usuários em mundos particulares. Em algumas áreas, como a política, isso pode favorecer a manipulação de grupos. Já em campos como cultura, educação e até esportes, essa visão unilateral empobrece o repertório e o conhecimento.>
“Se eu só recebo conteúdos sobre o meu time de futebol, meu posicionamento político, minha banda favorita ou os produtos que gosto de consumir, qual é o problema? O problema é que não sabemos a procedência e a qualidade desses conteúdos. Além disso, deixamos de ter contato com visões diferentes da nossa. No caso do futebol, por exemplo, se eu acompanho um campeonato, é importante saber também o que acontece com os outros times. E na democracia, precisamos ouvir e dialogar com diferentes bolhas”, pontua Mandelli.>
Obviamente, isso não significa que seja necessário aceitar discursos de ódio, teorias conspiratórias ou desinformação. Mas é essencial reconhecer que radicalizar ideologicamente significa ignorar a diversidade de perspectivas do mundo. E ampliar o olhar só é possível quando se busca escapar da bolha informacional.>