Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

Ufba tem redução nos serviços e auxílios ofertados aos alunos

Reflexo dos cortes no orçamento, queda no número de vigilantes é um dos itens que mais preocupa

  • D
  • Da Redação

Publicado em 1 de setembro de 2022 às 05:00

. Crédito: Nara Gentil/CORREIO

Redução no número de bolsas de iniciação científica, equipe de vigilantes e manutenção da infraestrutura dos prédios, suspensão do fornecimento de água e luz em faculdades, falta de investimento em novos equipamentos e sem custos para término de obras. Esse é o retrato de como a Universidade Federal da Bahia (Ufba) está desde retorno às aulas presenciais no dia 15. Entre cortes e bloqueios realizados pelo Governo Federal, em junho, a entidade sofreu redução de R$ 12,8 milhões - equivalente a 12,4% do valor originalmente inscrito na Lei Orçamentária Anual (LOA) para despesas de custeio.

Além das dificuldades gerais, cada faculdade e instituto da Ufba enfrenta desafios particulares. O diretor do Instituto de Biologia (Ibio), Francisco Kelmo, ressalta que não há sistema de climatização nos laboratórios didáticos, onde há equipamentos que precisam ser mantidos em temperaturas relativamente baixas. “Trabalhar com esses equipamentos ligados numa temperatura alta, como que vamos enfrentar no mês de setembro é reduzir, e muito, a vida útil do equipamento, além de que isso causará mal-estar muito grande durante desenvolvimento das aulas práticas, reduzindo a capacidade de aprendizado de nossos estudantes”, avalia.  

Ele também aponta que algumas disciplinas precisam ser feitas com computadores com programas especializados, porém, o instituto não dispõe das aparelhagens devido à falta de verbas. 

Para o chefe do Departamento de História, Rodrigo Perez, o maior desafio do setor é o funcionamento do campus, sobretudo, no curso noturno. A queda no incentivo à pesquisa por meio de bolsas também foi citada. 

“É trágico especialmente para mim que tenho 36 anos e estudei na universidade pública em outro momento, na primeira década dos anos 2000, [era] momento de futuro aberto, tínhamos muito financiamento, investimento na educação. Atualmente já passei pela triste experiência de ter grupo de estudantes de quatro alunos e apenas uma bolsa para o projeto de pesquisa”, recorda. “Uso de ar condicionado já vem sendo racionado. 100% das atividades serão presenciais [o que] vai 'estressar' serviços, como uso de água e internet”, diz.  Estudante de história, Matheus Passos, 21, ingressou em 2019 e recorda que as condições de serviço e infraestrutura já estavam comprometidas. “As salas pararam de ter ar condicionado, faltava água, luz, teve dia que a turma teve aula na praça do campus porque não tinha condições de 30 pessoas em sala de aula, ao sol do meia dia, sem ar condicionado”, recorda. No novo semestre, ele afirma que a situação declinou ainda mais e, das 40 salas que a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas tem, apenas duas possuem ar condicionado em funcionamento. 

A segurança é denominador comum nas preocupações de estudantes, sobretudo, àqueles que têm disciplinas em horário noturno. “[Comparando] o corpo de 2019 para agora, tanto serviços de limpeza, quanto de vigilância, percebemos que tem bem menos funcionários pela manhã e noite mas pela noite. A partir de 19h30 praticamente não se vê funcionário, sendo que a última aula é 22h”, observa.    Ao contrário dos setores que retornam, em sua maioria, integralmente nesta segunda, a Faculdade de Medicina da Ufba retornou ao presencial em 2020, com turmas dos últimos semestres. O diretor da faculdade, Luís Fernando Adan, afirma que, por isso, o setor já está com medidas paliativas, a exemplo do rodízio de escalas, quando uma turma é dividida em dois ou três para assistir às aulas. 

O diretor do Instituto de Química, Dirceu Martins, reconhece a redução nos serviços porém, afirma que o setor tem recursos químicos necessários para ministração das aulas. Assim como a diretora do Instituto de Geociências, Olivia Oliveira, afirma que o cortes influenciam em perdas, mas a Ufba tem garantido as condições para trabalho de qualidade.  Sem prédio fixo, o Instituto de Psicologia (IPS) anunciou novos locais de funcionamento no início de agosto. Bacharel do curso, Stephany Figueiredo, 26, reclama que o campus de São Lázaro é esquecido e a estrutura, precária. Apesar dos problemas estruturais, não há estimativa de restauração dos prédios, aponta.  A infraestrutura, no entanto, é o menor dos problemas da estudante. Stephany dispõe de duas assistências da Ufba, bolsa por grupo de pesquisa e auxílio-moradia devido à renda. "É muito incerta a vida do pesquisador, fica pulando de edital para edital sem ter certeza que vai ser contemplado. É a incerteza de que transporte e comida vão estar garantidos. O valor da bolsa que recebo foi reduzido para R$ 350 e a não há previsão para regularização do valor e tampouco vai aumentar", diz, ressaltando que, embora não tenha sofrido cortes, o auxílio-moradia, a qual também tem direito, está congelado desde 2014. Situação financeira

Pró-Reitor de Ensino de Graduação (Prograd) da Ufba, Penildon Silva Filho explica que cortes e congelamentos orçamentários vêm ocorrendo desde 2017, no entanto, houve intensificação no último ano. Segundo ele, o recurso de custeio está hoje em patamar igual a 2010, mas sem correção inflacionária e com número maior de alunos. Enquanto, há 12 anos, 20 mil estudantes compunham a graduação, atualmente são 48 mil com base no mesmo orçamento. 

Obras no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC), Escola de Música (EMUS), Escola Politécnica e Anexo Físico-Química estão inacabadas por falta de verba. Apesar da tensão para pagar as contas, o pró-reitor afirma que este semestre, que retoma oferta regular de componentes presenciais, usará todos pavilhões e unidades. Para isso, a universidade tem recorrido ao apoio de parlamentares baianos, alocando recursos através de emendas para conseguir pagar contas básicas, como água e luz. 

“Antigamente recurso de emenda era para investimento, prédio novo, e hoje está para custeio, pagamentos do dia a dia. Tem que pagar conta de água, luz, comprar papel, computador, [...]  terminar obras, comprar insumos para pesquisa, pagar bolsa de assistência estudantil. Vai sacrificar o quê? A bolsa do aluno? Fechar RU [Restaurante Universitário]? Deixar de comprar livros para biblioteca?”, lamenta. 

A reportagem questionou se há contas em atraso, qual a soma das dívidas e solicitou comparação entre vagas ofertadas para bolsistas em extensões acadêmicas nos últimos quatro anos, porém, a entidade não respondeu até o fechamento da matéria.   

Só assistência estudantil perdeu cerca de R$ 7 milhões em 2021

Em 2021, recursos do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) para a Ufba em 2021 sofreram um corte de R$ 6,5 milhões. Com isso, a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (Proae) teve que adotar medidas de contenção. Houve redução de R$ 400 para R$ 250 por mês as bolsas acadêmicas oferecidas pelos editais Permanecer, Sankofa e Projetos Especiais, limitação de R$ 200 por mês, para estudantes que já recebam algum benefício superior a R$ 400 mensais e redução de R$ 800 para R$ 400 o auxílio de apoio à inclusão digital. 

A média cadastrada no Proae é de 10 mil estudantes, sendo 7.122 a totalidade que recebe algum tipo de auxílio, a exemplo do Restaurante Universitário (RU), Buzufba - projeto de mobilidade -  residências universitárias, creche, auxílio para moradia, transporte, alimentação, saúde e inclusão digital. O temor dos estudantes é que o desconto venha a se repetir. 

A estudante de produção cultural Nadine Matos, 36, estuda na Ufba desde 2012 - estando antes em outras formações - e viu de perto as mudanças. “Eu sou bolsista mas de grau baixo, uso apenas de alimentação, mas convivo com várias pessoas bolsistas de moradia, alimentação, outras assistência que foram muito mais fatiadas que eu principalmente nessa gestão. A ideia é fechar ou sucatear a universidade”, reclama.  Embora não seja bolsista, Ana Bárbara Barbosa, 20, aluna de secretariado executivo, também se deparou com realidade diferente do que esperava. “Minhas expectativas eram altas pois achava que as universidades federais eram abraçadas pelo Governo [...] mas vemos que não é bem assim. Os cortes da Ufba afetam todos nós, pois o que poderia ser utilizado para contratação, manutenção, construção e novos funcionários, será usado praticamente para manter o que já tem”.

Pró-reitora do Proae, Cássia Maciel, afirma que o impacto gerado pelo corte em 2021 ainda não foi sanado. Ela também esclarece que este ano não houve corte direto à assistência estudantil, porém, lembra que a falta de infraestrutura na universidade atinge diretamente o aluno, inclusive, na evasão estudantil.

“São muitos relatos de sofrimento psíquico por aprofundamento das dificuldades para permanência [na universidade]. Há cenário social de aumento do desemprego, como estamos vendo, questão na alta dos alimentos. São muitos relatos de dúvidas sobre possibilidade de continuar na universidade se não tiver acesso a assistência estudantil”, lamenta. O Prograd informa que ainda não tem dados sobre evasão devido à pandemia e só terá a informação do impacto que houve nos últimos anos após estabelecimento da modalidade presencial. *Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro