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Agência Correio
Gabriela Barbosa
Publicado em 4 de março de 2026 às 08:00
Alcançar o topo do Monte Roraima exige preparo físico, planejamento e disposição para enfrentar mudanças bruscas de clima. Em troca, o viajante pisa em um dos terrenos mais antigos do planeta, na fronteira entre três países. >
No extremo Norte do Brasil, a montanha se ergue como um gigante de pedra. Localizado entre Brasil, Venezuela e Guiana, o platô abriga rios gelados, rochas esculpidas pelo vento e espécies que não existem em nenhum outro lugar.>
Além da aventura, o destino entrega algo raro: a sensação de caminhar acima das nuvens, em um cenário que mistura ciência, espiritualidade e mistério. E é justamente isso que faz tanta gente sonhar com essa travessia.>
O Monte Roraima é um tepui, palavra que significa “casa dos deuses” na língua do povo Pemon. Ele surgiu no período Pré-Cambriano, há cerca de 1,7 a 2 bilhões de anos, quando a Terra ainda formava seus primeiros continentes.>
Com o passar do tempo, a erosão isolou enormes blocos de arenito e quartzito. Assim, surgiram paredões verticais que chegam a mil metros de altura, enquanto o topo se transformou em um platô de cerca de 31 km².>
Esse isolamento criou uma espécie de ilha biológica. Por isso, ali vivem espécies únicas, como o sapo preto Oreophrynella quelchii, que não salta, além de plantas carnívoras adaptadas ao solo pobre em nutrientes.>
No alto, o visitante encontra o Vale dos Cristais, uma área coberta por quartzo branco que brilha sob o sol. A retirada de pedras é proibida, o que ajuda a preservar o cenário quase intocado.>
Outro ponto famoso são as Jacuzzis, piscinas naturais de águas transparentes e geladas, com fundo de cristais e algas douradas. Já o Marco da Tríplice Fronteira marca o encontro entre Brasil, Venezuela e Guiana.>
O ponto mais alto, chamado Maverick, chega a 2.810 metros e oferece vista de 360° da Gran Sabana. Não por acaso, o lugar inspirou Arthur Conan Doyle a escrever O Mundo Perdido.>
Para os povos Pemon, Ingarikó e Macuxi, o Roraima é a “Casa de Makunaima”, herói criador dos povos caribes. Segundo a tradição, a montanha nasceu do tronco da árvore da vida.>
No Brasil, a área integra o Parque Nacional do Monte Roraima, criado em 1989 e administrado pelo ICMBio com apoio da Funai e da comunidade Ingarikó.>
Do lado venezuelano, o tepui faz parte do Parque Nacional Canaima, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Assim, o território mantém proteção ambiental em ambos os países.>
O clima no topo muda rapidamente. Sol, chuva e neblina podem se alternar em poucas horas, enquanto à noite a temperatura se aproxima de 0°C. Por isso, especialistas recomendam atenção à estação escolhida.>
Entre dezembro e março, chove menos e a visibilidade melhora. Já de junho a setembro, os rios enchem e as trilhas ficam escorregadias. Em qualquer época, no entanto, o Monte Roraima mantém seu ar de mistério.>
Chegar até lá exige viagem por estrada desde Boa Vista até Pacaraima e, depois, trajeto em veículos 4x4 até a comunidade de Paraitepuy. Documento válido e vacina contra febre amarela são obrigatórios.>
No fim da trilha, porém, todo esforço encontra recompensa. O Monte Roraima permanece como um dos lugares mais antigos e isolados da Terra, onde natureza, ciência e lenda caminham lado a lado acima das nuvens.>