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Agência Correio
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 13:30
Localizado no norte do Uruguai, um jovem biólogo carrega câmera, binóculos e uma obsessão: encontrar o enigmático urutau, uma ave noturna conhecida pela camuflagem quase perfeita e pelo canto que arrepia quem o escuta na madrugada. >
O estudante de Biologia Mauricio Silvera percorre trilhas empoeiradas nos arredores de Bella Unión, a cerca de 650 quilômetros de Montevidéu, atrás de um dos pássaros mais misteriosos da América do Sul. >
Aves coloridas
Fascinado por aves desde os 5 anos, ele já identificava espécies pelo nome científico ainda na infância. E hoje transforma essa paixão em registro, ciência e conservação.>
“É como o grito de um gol decisivo”, compara. Para ele, receber a localização de uma ave rara, calcular o melhor horário, avaliar clima e terreno e, finalmente, encontrá-la é pura descarga de adrenalina. “É quase como estar procurando pokémons[...]”.>
Conhecido cientificamente como Nyctibius griseus, o urutau é uma ave noturna encontrada na América do Sul e na América Central. >
No Uruguai, recebe o nome de urutau, mas também é chamado de pássaro-estaca, pássaro-fantasma, ave-bruxa ou potoo em outros países.>
A aparência explica parte do fascínio. O urutau tem plumagem marrom-acinzentada, com textura semelhante à casca de árvore. >
Durante o dia, permanece imóvel sobre galhos secos ou estacas, praticamente invisível aos olhos desatentos. À noite, sai para caçar insetos.>
Mas são os olhos amarelos gigantes e o canto melancólico que alimentam lendas. O som, descrito como um lamento humano no meio da noite, deu origem a mitos em comunidades rurais ao longo do continente. >
Conservacionistas, porém, reforçam que se trata de uma ave inofensiva e pedem respeito à espécie, muitas vezes envolta em narrativas negativas do folclore.>
Além da busca pelo urutau, Mauricio também contribui para a ciência cidadã. Desde os 13 anos, ele registra avistamentos na plataforma global eBird, rede que reúne especialistas e observadores de aves do mundo todo.>
Segundo ele, o Uruguai já contabiliza cerca de 520 espécies registradas. Em apenas um dia de observação, é possível identificar entre 120 e 130 espécies, dependendo da região e das condições.>
A área de Bella Unión, no extremo norte do país, reúne ambientes que favorecem essa diversidade. É ali que o jovem decide concentrar esforços para fotografar o urutau em seu habitat natural.>
No meio da vegetação, Mauricio para de repente e cobre a boca. Mesmo com anos de experiência, a emoção é inevitável. No final de um galho seco, perfeitamente alinhado com a paisagem, está o urutau: imóvel, camuflado e cuidando de um ovo.>
A espécie põe apenas um ovo por vez, diretamente sobre o galho onde se apoia, sem ninho estruturado. A estratégia depende justamente da camuflagem extrema para garantir proteção. Em silêncio, ele registra a cena. Missão cumprida.>
Um mês depois, a curiosidade fala mais alto. Mauricio retorna ao mesmo ponto em Bella Unión. O que encontra confirma sua intuição: já não é apenas um, mas dois urutaus agora fazem parte de sua coleção fotográfica.>