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Psicoterapeuta faz alerta: 'criança não para de chorar porque está bem, mas porque aprendeu que ninguém vai ajudá-la'

Terapeuta explica motivo pelo qual bebês tendem a parar de chorar se são ignorados e não tem nada a ver com 'educação'

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 10 de março de 2026 às 07:00

Sendo assim, o choro não se trata de um capricho ou uma estratégia de manipulação. É o principal mecanismo de sobrevivência do bebê
O choro não se trata de um capricho ou uma estratégia de manipulação, é o principal mecanismo de sobrevivência do bebê Crédito: Foto: Banco de imagem

Parar de chorar não é necessariamente um indicativo de que aquele é um bebê calmo. Pode simplesmente significar que o bebê aprendeu que ninguém viria lhe ajudar.

Rafa Guerrero, psicólogo e psicoterapeuta especializado em apego,trauma e desenvolvimento emocional infantil, explicou os efeitos da negligência na primeira infância em entrevista para o jornal La Vanguardia.

Cuidado com as crianças no verão por Freepik

Ele esclarece que muitas vezes os comportamentos dos filhos não são visíveis, mas deixam uma marca duradoura.

“Educar sem dar atenção ao mundo emocional tem consequências”, afirma Guerrero com base em sua experiência clínica e educacional.

Nem sempre essas consequências são imediatas, segundo o psicólogo, mas elas deixam registros permanentes na formação da pessoa.

Focar quase que exclusivamente no comportamento, nas expectativas quanto ao desempenho e no controle fez com que as emoções fossem escanteadas a um segundo plano.

No entanto, as emoções são a primeira parte da base sobre a qual todo o resto vai ser construído.

Como explicar esse desequilíbrio

Durante a entrevista, o especialista utilizou uma metáfora para facilitar a compreensão de termos clínicos mais complexos. Ele afirmou que o cérebro funciona como uma casa.

"Nos concentramos no sótão e nos esquecemos da fundação", resume Guerrero. O sótão funcionaria como o neocórtex, a parte mais racional e aquela que é usada para aprender, memorizar, raciocinar ou seguir regras.

Já a fundação aqui corresponde ao significado do mundo emocional: apego, segurança, vínculo e regulação emocional. Os alicerces que vão construir a base sólida da personalidade.

O problema destacado por Guerrero é quando se tenta inverter o processo de “construção” e educar diretamente de cima para baixo, sem garantir que a fundação esteja firme.

"Quando abordamos apenas o comportamento, estamos trabalhando apenas na ponta do iceberg", explica.

O que essas condutas significam

Por trás de atitudes que demonstram um comportamento incômodo ou preocupante, é possível que exista medo, insegurança, tristeza, raiva ou experiências não resolvidas.

Em seu cotidiano profissional, Guerrero lida diariamente com crianças com comportamentos indesejados. A questão é que ninguém perguntou a elas o que há de errado.

"O comportamento não é o problema, é o sintoma", insiste o terapeuta. E tratar apenas o sintoma, sem abordar a causa inicial, só prolonga o problema e o torna crônico.

Visão reducionista

Para Guerrero, quando se foca apenas no que é visível, se tem uma das maiores falhas na abordagem da sociedade à educação.

O especialista destaca que "sentimo-nos mais confortáveis corrigindo o que é visível do que abordando o que é invisível". Mas o invisível não vai desaparecer ao ser ignorado; sua tendência é acumular.

Ele explica que um iceberg, por exemplo, não se sustenta apenas na ponta. Tudo o que está embaixo tem tanta importância quanto.

E o mesmo acontece com as crianças. Sem qualquer tipo de segurança emocional ou afetiva, as exigências cognitivas ou comportamentais acabam sendo excessivas.

O trauma passa uma mensagem

Embora por muito tempo se acreditasse que os bebês não se lembravam de seus primeiros anos de vida, agora é compreendido que se lembram, ainda que inconscientemente. "Os bebês sentem, registram e se adaptam", destaca Guerrero. As primeiras experiências deixam uma marca que se expressa na forma como a criança aprende a se sentir, ou não, segura no mundo.

Sendo assim, o choro não se trata de um capricho ou uma estratégia de manipulação. É o principal mecanismo de sobrevivência do bebê.

"Um bebê não chora para te irritar; ele chora porque precisa de algo", afirma o psicólogo. Seja afeto, segurança ou regulação emocional.

Quando esse choro é atendido, o cérebro entende que o mundo é um lugar seguro.

Já quando não recebem esse conforto, a lição é outra. Guerrero explica que "uma criança não para de chorar porque está bem; ela para de chorar porque aprendeu que ninguém virá".

Não se trata de calma, mas resignação. Um aprendizado silencioso que pode moldar a forma como essa criança se relaciona consigo mesma e com os outros durante toda a vida.

Efeitos prolongados da negligência

Guerrero critica veementemente práticas parentais de educação que incentivam deixar os bebês chorarem para que "aprendam".

Métodos como esse, popularizados por anos, baseiam-se, segundo o psicoterapeuta, em uma compreensão equivocada do desenvolvimento infantil. "Autonomia tem sido confundida com desconexão", destaca ele.

Um bebê ao parar de chorar depois de várias noites sendo ignorado não aprendeu a se auto regular, ele aprendeu que não adianta pedir.

A mensagem que o cérebro assimila é que quando algo acontece, o bebê está sozinho. Essa crença acompanha o restante da vida de pessoas que cresceram em ambientes traumáticos, onde não eram vistas ou escutadas.

"O trauma nem sempre é lembrado; às vezes, manifesta-se como ansiedade, entorpecimento emocional ou um sentimento persistente de inadequação.", destaca Guerrero.