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Doris Miranda
Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 06:00
A combinação dos atores Paul Mescal e Josh O´Connor em um filme romântico parece até caça-clique, levando em consideração o sucesso que eles têm feito no audiovisual. Mescal fez parte da maravilhosa série Normal People e conquistou corações nos filmes Aftersun, Hamnet e Todos Nós Desconhecidos. O´Connor interpretou o príncipe Charles na série The Crown, um esportista em Rivais e um padre em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out. >
Juntos, eles vivem uma singela história de amor em A História do Som, que não é nehum Brokeback Mountain (Ang Lee/2005), mas propõe outro romance proibido nas montanhas dos Estados Unidos, no início do século 20.>
Veja Paul Mescal e Josh O'Connor em A História do Som
No filme do sul-africano Oliver Hermanus (Viver/2022), que estreia hoje (26), Lionel (Mescal) é um jovem tímido de família rural com aptidões musicais. Ele tem perfeito controle da voz e ainda enxerga sons e músicas de forma palpável, por uma condição chamada de sinestesia.>
Numa viagem, ele conhece Lionel para além das fazendas do Kentucky e, uma noite, ele é atraído pelo vibrante David (O’Connor), que pesquisa música tradicional dos EUA. Opostos se atraem, não existe razão para não se unirem, exceto que o ano é 1917 e há uma homofobia atenta. Isso e a Primeira Guerra Mundial, que logo eclode. David entra para o exército e Lionel volta para a fazenda. >
David sobrevive à guerra e envia uma carta a Lionel, com um convite inusitado. É um projeto acadêmico, onde os dois percorrem o estado de Maine para gravar músicas locais, cantadas pelos habitantes destes lugares, antes que a modernidade os apague para sempre. Ansiando pelo reencontro, os dois passam o tempo se conhecendo melhor e o mundo no entorno.>
Distanciamento>
Tudo vai muito bem, à parte da sociedade, até que acontece a cisão. Sem sabermos exatamente o porquê, David foge do amor, deixando Lionel desamparado. Não só ele, mas nós também. A sutileza usada por Oliver Hermanus na narrativa morre exatamente aí, pois a pedra que marca o ponto final deles é gigantesca. É adeus, bye bye, sem justificativa aparente, sem desfecho plausível. >
A música que funciona como ponte entre esses dois homens se cala subitamente, sem justificativa. Há um esforço visível para que tudo permaneça discreto, sutil, quase etéreo, uma escolha que acaba minando a força da história e desse amor tão genuíno, que é possível perceber através do olhar dos dois atores, ambos excelentes em cena. A música, que deveria servir como linguagem de conexão entre os personagens, surge em momentos pontuais sem corresponder à promessa da sequência de abertura, na qual um jovem Lionel fala sobre os sabores e cheiros que as notas lhe transmitem. Hermanus não consegue fazer com que o som comunique o que os outros sentidos não podem.>
Visualmente, A História do Som impressiona muito com as paisagens áridas - e lindas - do Maine, que constroem uma atmosfera de isolamento e introspecção, espelhando o distanciamento emocional dos protagonistas num primeiro momento. Mas, essa estética de contenção se prolonga além da medida e, desse jeito, a história nunca decola para uma curva ascendente, permanece sempre em linha reta. >
Há, certamente, uma melancolia bonita na tela, mas ela soa quase coreografada, como se cada silêncio fosse meticulosamente imposto para que o público sofra por um sentimento que existe, mas nunca se torna verdadeiramente palpável. Desperdício danado.>