Graça Machel fala sobre questões de gênero e migração no TCA

Ativista moçambicana encerrou a edição baiana deste ano do Fronteiras Braskem do Pensamento

Publicado em 5 de setembro de 2017 às 22:52

- Atualizado há 10 meses

. Crédito: Betto Jr.

Mesmo quem não conhecia profundamente a história de Graça Machel fez questão de ir ao Teatro Castro Alves na noite de ontem, para assistir à conferência da ativista moçambicana, que encerrou o Fronteiras Braskem 2017 em Salvador.

A psicóloga Milena Marinho, 31 anos, disse que não conhecia bem a história de Machel, mas a passagem da conferencista por Salvador coincide com a viagem que a psicóloga fará em breve a Moçambique. “Quando marquei esta viagem com alguns amigos, saiu a programação do Fronteiras Braskem e vimos que, além dia Graça Machel, Mia Couto, outro moçambicano, estava na programação. Sei que Graça é envolvida em questões de libertação e nos direitos humanos”, revelou .

A jornalista Luana Almeida, 32 anos, diz que também conhecia o báscio da biografia de Graça Machel: “Sei que ela foi mulher de dois ex- presidentes, Nelson Mandela e Samora Machel e que ela também atua em direitos humanos, que é uma área que me interessa muito. Vim para vê-la falar sobre questões de raça, gênero e sobre seu trabalho com as crianças”.

Muito simpática, Machel ganhou o público logo no início, ao cumprimentá-lo bem humorada: "Tem uma luz forte contra minha vista, então me desculpem porque não consigo ver bem suas carinhas lindas", disse, provocando risos na plateia.

Convidada para falar sobre civilização, que é o tema do Fronteiras Braskem deste ano, a ativista começou falando sobre seu continente, a África: “Lá, não temos uma civilização: são várias civilizações que, às vezes, se sobrepõem umas às outras ou coexistem, mas não são integrados naquilo que se chama civilização. Há quem fale em ‘África’ como se fosse um continente homogêneo, mas não somos. Há, ali, mais de duas mil línguas”, disse.

A conferencista  ressaltou a resistência que o povo africano representa, ao preservar a própria cultura, a despeito dos cerca de 500 anos de imperialismo a que o continente foi submetido. “Preservamos nossa identidade na maneira como comemos e na arte também. Naquilo que consumimos e chamam de artesanato, mas são expressões artísticas dos africanos que resistem”.

Depois, Machel falou sobre a história da imigração na Europa: “Há alguns anos, com a queda do socialismo, a Europa teve um grande fluxo migratório do Leste Europeu para a parte ocidental do continente. Mas, como eram migrantes brancos, entendia-se que não havia ameaça à estabilidade da civilização. Logo, não houve resistência”.

Ela comparou o passado com a rejeição que os imigrantes atuais estão sofrendo: “Hoje, eles vêm da Síria ou do Afeganistão. Não falam as línguas tradicionais da Europa e se vestem de modo original. Para os europeus, estes novos imigrantes ameaçam a estabilidade da Europa. E isto acontece porque os europeus estão com medo daquilo que aparentemente nos faz diferentes como seres humanos”.

Machel aproveitou para fazer críticas ao presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump: “Construímos uma barreira de diferenças, de tal maneira que há até um presidente que acha que pode construir muros para impedir as pessoas de se movimentarem”, concluiu, para ser aplaudida.

Sobre a diferença do tratamento que homens e mulheres recebem, a ativista se manifestou: “Ainda temos, neste século, questões fundamentais nas relações humanas a serem resolvidas. Ainda temos dificuldade de aceitar, valorizar ou dignificar a mulher e de aceitar que ela é um ser humano completo, igual ao homem. Qualquer ser humano, de qualquer estrato social, de qualquer gênero ou raça, é igual a qualquer outro. Nós nascemos iguais. Hoje, a família humana tem dois desafios: um é entender que homens e mulheres são iguais. O outro, entender que pretos e brancos também são iguais”.

Graça Machel foi a terceira conferencista do Fronteiras Braskem deste ano, que teve também o escritor moçambicano Mia Couto e a intelectual americana Camille Paglia.