Iemanjá: devotos depositam oferendas e esperanças no mar, mantendo uma tradição que ultrapassa 90 anos

Todo ano são percorridas sete milhas até o mesmo lugar no mar. Os presentes seguem até a Rainha das Águas porque um dia os peixes ficaram escassos e os pescadores passaram sufoco

Publicado em 3 de fevereiro de 2016 às 07:37

- Atualizado há 10 meses

Feita em fibra de vidro oco, a baleia foi escolhida para marcar o lado materno da divindade Iemanjá (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)Flores, alguns espelhos e fitas do Senhor do Bonfim, envoltos em um cheiro de alfazema forte. Às 16h de ontem, o presente de Iemanjá saiu da Colônia de Pescadores, no Rio Vermelho, para marcar um dos momentos mais esperados dos festejos do 2 de fevereiro.

A oferenda foi carregada no andor por algumas pessoas, incluindo o prefeito ACM Neto. O trajeto durou cerca de 10 minutos até o mar, onde foi depositada a imagem feita em fibra de vidro oco de uma baleia, mamífero que representa o lado materno de Iemanjá.

“Iemanjá nos deu licença poética para dar esse presente”, garantiu o presidente da colônia de pescadores Z1, Marcos Souza, o Branco,  para justificar o fato da oferenda não ser 100% biodegradável, como sugeriu a mãe de santo Mãe Stella de Oxóssi.

Mesmo com a presença de sabonetes, espelhos e pentes, entre os presentes, as flores reinaram absolutas junto com as esperanças do público, depositadas nos balaios que seguiram para o mar em cerca de 200 embarcações.As flores reinaram entre as oferendas do festejo que investe no conceito biodegradável (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)Todo ano são percorridas sete milhas até o mesmo lugar no mar, “que chamamos carinhosamente de Buraquinho de Iaiá”, conta Branco. Os presentes seguem até a Rainha das Águas porque um dia os peixes ficaram escassos e os pescadores passaram sufoco.

Esperança“Isso aconteceu em 1924, então os pescadores fizeram uma oferenda a Iemanjá para que voltasse o pescado”, lembra Branco. Livro de ouro, perfume, espelho, batom... “O que uma mulher vaidosa vai querer?”, questionou bem-humorado, reforçando que, a partir de agora, os mimos são outros e mais ecológicos. Mais de 90 anos se passaram e o rito continua firme e forte, atendendo a diferentes promessas.

“Todo ano a gente tenta renovar nossa fé para que ela possa nos ajudar a realizar todas as esperanças”, garantiu a mãe de santo Jacira de Obaluaê, do terreiro Ilê Axé Jybayê, que pela primeira vez participou do evento.

“É muito forte estar aqui. É uma festa de fé e de tradição do povo baiano”, contou o comerciante Mario Oliveira, que ofereceu  rosas para Iemanjá. No caminho do presente para a praia, inclusive, ele  ajudou a carregar a imagem principal até o mar.

Após uma hora e meia na fila, para depositar sua oferenda, o mecânico Altair Carvalho não perdeu o bom  humor. “Todo ano venho, sou de São Jorge e Iemanjá. Esse ano, vou pedir tranquilidade, paz, saúde e verba no bolso”.Enquanto caminhava com suas duas muletas, devido à paralisia nas pernas, o desempregado Edinelson Nunes Silva garantiu que essa “é uma cerimônia religiosa importante”. “Em tudo na vida a gente espera uma bênção, não é?”, justificou o esforço, com um largo sorriso no rosto.

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