Filme A Travessia conta incrível história do equilibrista que caminhou entre as Torres Gêmeas

A aventura dramática A Travessia estreia quinta e recria essa saga real com tecnologia 3D

Publicado em 7 de outubro de 2015 às 08:32

- Atualizado há 10 meses

Estrelado por Joseph Gordon-Levitt (A Origem)  e dirigido por Robert Zemeckis (De Volta Para o Futuro, Forrest Gump), A Travessia conta a história real do equilibrista francês Philippe Petit, que no dia 7 de agosto de 1974 caminhou ilegalmente e sem proteção - e até deitou - sobre um cabo estendido entre os 42,5 metros, e a 417 metros do chão, que separavam o topo das duas torres do então recém-inaugurado World Trade Center, em Nova York.  O americano Joseph Gordon-Levitt, 34 anos: ótima interpretação (Foto: Divulgação)Em 3D, o ótimo A Travessia estreia amanhã em Salvador e quem tem muito medo de altura deve ir vê-lo preparado para sentir o coração disparar. Leia entrevista com Gordon-Levitt, feita pela Sony.

O que foi que o atraiu em A Travessia? Tantas coisas – embora, para ser sincero, antes de tudo, foi Bob Zemeckis. Os filmes são, primordialmente, o domínio de um cineasta, e eu adoro seus filmes. De Volta Para o Futuro foi um dos primeiros filmes que eu me lembro que me vez vibrar de verdade.

E aí sua carreira continuou com Forrest Gump – O Contador de Histórias. Eu acabo de assistir novamente a A Morte lhe Cai Bem, que é extremamente inteligente. E eu também achei Voo brilhante. Ele faz filmes extraordinários. Até que ponto você estava familiarizado com a história de Philippe Petit? Eu tinha assistido ao documentário (Man on Wire/2008 Oscar de melhor documentário). Isso é o que eu conhecia. Eu amei aquele documentário quando foi lançado. Simplesmente a ideia daquele  tipo de espetáculo, fora de qualquer parâmetro normal de apresentação...

Quero dizer, o que ele está fazendo? Ele não é exatamente um acrobata. Não é exatamente um dançarino. Ele é diferente até mesmo de um equilibrista normal, porque se apresenta na corda bamba com uma elegância e uma espécie de poesia que não é o padrão normal de atos circenses.

Quando ele fazia seus números como artista de rua, fazia malabarismos e andava de monociclo, mas também fazia coisas que não tinham absolutamente nada a ver com truques ou acrobacias – simplesmente uma conexão pura com o público e o improviso.Os 25 minutos finais de A Travessia, quando Philippe Petit (Gordon-Levitt) caminha no cabo entre as Torres Gêmeas, são de tirar o fôlego (Foto: Divulgação)Atuar é semelhante a andar na corda bamba? 

Há muitas semelhanças. São evidentemente diferentes, é claro. Mas há muito em ambas as coisas que se aproximam de um jogo mental. Quando você está atuando em um filme, há todo um caos acontecendo.

Há uma câmera bem na sua frente e cinco caras operando os refletores - todas essas coisas - e você tem que focar e não pensar nisso. É o mesmo sobre a corda bamba. Aprendi um pouco como andar na corda bamba e é a mesma coisa. Se você começar a pensar, “Ah eu, estou nas alturas”, ou “eu poderia perder o equilíbrio”, você está acabado.  

Foi importante para você experimentar aquilo? Sim, foi, muito... Philippe e eu passamos oito dias consecutivos juntos, durante todo o dia, em que ele me ensinava a andar sobre a corda bamba e me falava sobre si mesmo, seu estilo de apresentação, sua visão da arte, da vida e da magia.

Então, sim, ao final daqueles oito dias, eu estava andando na corda bamba sozinho com uma vara. Mas no filme é uma mistura de mim com Jade Kindar-Martin, do Cirque du Soleil, que é um equilibrista excelente. 

Suponho que você não tem medo de altura? Eu certamente tenho mais medo de altura do que o Philippe Petit! (risos)  Philippe e eu passamos oito dias juntos, em que ele me ensinava a andar sobre a corda bamba e falava sobre si mesmo Gordon-LevittComo foi conhecer Philippe Petit? Foi uma experiência estranha, conhecer alguém que você iria retratar na tela? É uma experiência realmente nova para mim... Quando eu interpretei um soldado, eu passei algum tempo com soldados. Eu interpretei um cara em O Vigia, alguém que tinha sofrido uma lesão cerebral traumática leve, e então, eu passei algum tempo com pessoas que sofreram lesões semelhantes.

Mas tudo isso é diferente de interpretar uma pessoa real - usando o seu nome, tentando se parecer com ele e contar a sua história. Senti a necessidade de honrar o Philippe. Ao mesmo tempo, contudo, acho que a melhor maneira de um ator homenagear uma figura real é internalizá-la, em vez de imitá-la servilmente - tentar absorver o que eu amo e admiro no Philippe, e interpretar a minha versão disso. Isso é algo sobre o qual Bob Zemeckis e eu conversamos.

Nós fomos relativamente fidedignos. Mas a fidelidade não era o nosso objetivo número um... Para mim, não importavam tanto os pequenos detalhes técnicos, mas sim a mensagem global que o Philippe Petit estava passando, caminhando sobre aquela corda bamba. Que você pode fazer qualquer coisa que você possa imaginar. Que você pode criar o impossível. Isso é o que a magia é. Isso é o que é a arte.  O francês Philippe Petit em plena travessia, em 7 de agosto de 1974 (Foto: Reprodução)Como foi viver um francês?(Risos)... Eu sou francófilo. Estudei francês na escola. Eu amo filmes franceses. E sempre quis ser capaz de falar um pouco de francês em um filme. Essa acabou sendo a oportunidade perfeita para isso. Eu estou interpretando um francês, mas interpreto um francês que é obcecado pelos EUA e um francês que realmente não gosta de falar francês (risos)...

Então, ele só fala francês algumas vezes, quando é preciso. Há alguns diálogos em francês no filme. Estudei muito para tentar aperfeiçoar o sotaque e pronunciar o mais corretamente possível. Os outros atores franceses, Clément [Sibony] e César [Domboy] e Charlotte [Le Bon] foram extremamente úteis.

Qual é a coisa mais ousada que você já fez? Andar em uma corda bamba entre as duas torres do World Trade Center é bonito e fisicamente ousado. Mas há uma metáfora nisso. É preciso realmente coragem para se fazer qualquer coisa. Para acreditar em si mesmo o suficiente para... [simplesmente] se levantar de manhã e se importar.

É tão fácil e, creio eu, covarde dizer, “Eu não me importo”, ou “Eu realmente não sou capaz de fazer nada”, ou “Eu não posso ser a pessoa que eu quero ser”. O filme é uma metáfora disso. E assim, embora, na minha vida, eu não creia que as coisas mais corajosas que eu fiz sejam fisicamente perigosas, gostaria ainda assim, com uma dose saudável de modéstia, de me permitir levar o crédito por ter feito algumas coisas corajosas.  

Você mencionou antes que era fã de Robert Zemeckis - que seus filmes eram uma das principais razões para a sua decisão de fazer A Travessia. Como foi trabalhar com ele? Ele é brilhante. Eu amei trabalhar com ele. Ele se diverte muito; me lembra de um garoto que tem a chance de brincar todos os dias e jogar um jogo no qual ele é realmente bom.

E isso é inspirador e encorajador. Tendo feito tantos filmes e sendo tão renomado como é, ele poderia facilmente ser blasé. Ele poderia descansar sobre os seus louros. Mas não faz isso. Ele chega para trabalhar todos os dias vibrando.

Por que você acha que Philippe Petit decidiu caminhar entre as Torres Gêmeas? Você tem alguma ideia de por que ele realmente fez aquilo? Eu perguntei ao Philippe... “Por quê?” “Por que você fez aquilo?” Eu perguntei: “Você pensou sobre como aquilo poderia afetar as pessoas? Como aquilo poderia afetar o mundo?” Lembre-se que ele fez aquilo em 1974. Havia muita desordem no mundo.

Ele fez a travessia, creio, um dia depois da renúncia de Nixon [*Nixon renunciou no dia 8 de agosto; Philippe Petit completou sua caminhada entre as Torres Gêmeas em 7 de agosto]. Você sabe, nós estávamos no meio de uma guerra muito polêmica.

As pessoas estavam protestando. Havia o movimento dos Direitos Civis... O movimento feminista... Todas essas coisas estavam acontecendo. E eu perguntei a ele: “Quando você fez aquilo, quando caminhou entre as duas torres do World Trade Center, você encarou aquilo como um símbolo? De que tudo é possível? De que isso pode afetar a forma como vemos o mundo?”.

E ele disse: “Não. Nem um pouco. Para mim, um artista como eu, isso não cabe a mim. Não sou alguém inteligente o suficiente para saber como mudar o mundo. O que eu sei é que sou atraído por esta bela ideia que não consigo tirar da minha cabeça. E confio que se eu seguir isso, se eu for fiel a ela e der tudo de mim tentando fazer aquele espetáculo de beleza, que isso terá algum tipo de impacto. Não cabe a mim descobrir qual é esse impacto”.

As Torres Gêmeas eram um símbolo em 1974. E se tornaram um símbolo diferente após os eventos de 11 de setembro. Como os eventos nesse novo filme se relacionam com o mundo em que vivemos agora? Eu acho que é importante lembrarmos que essa tragédia não apaga o que era belo. O desastre - é assim que Philippe o chama - o desastre de 11 de setembro de 2001 é uma tragédia horrível. Mas não é a única coisa que aconteceu lá.

Eu acho que é importante lembrarmos também desse belo momento que também aconteceu lá. Acho que isso é a maior honra - não deixarmos que as torres acabem se tornando um símbolo daquele desastre, mas lembrá-las também por esse momento de beleza.