DESPERDÍCIO

Água ‘perdida’ na Bahia encheria 2 mil Diques do Tororó por dia, revela estudo

Rompimentos de tubulações e ligações irregulares ocasionam perda do recurso em todo o país

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  • Maysa Polcri

Publicado em 6 de junho de 2024 às 05:15

Só na Bahia, 42,4% de toda a água tratada é perdida antes de chegar às torneiras
Só na Bahia, 42,4% de toda a água tratada é perdida antes de chegar às torneiras Crédito: Marina Silva/CORREIO

Nem toda a água potável na Bahia chega aos reservatórios da população. Na verdade, boa parte da produção se perde em vazamentos e ligações clandestinas. A quantidade de água tratada desperdiçada em um ano no estado seria suficiente para encher cerca de 2,1 mil Diques do Tororó, localizado na Av. Vasco da Gama, e que tem 110 mil m³ de água. Na Bahia, foram 231,4 milhões de m³ de água desperdiçados apenas em 2022.

A quantidade de água desperdiçada pode, ainda, abastecer uma cidade de 2 milhões de pessoas em um ano. Salvador, a título de comparação, tem 2,417 milhões de moradores. As informações foram reveladas pelo Instituto Trata Brasil, através do Estudo de Perdas de Água, lançado na quarta-feira (5), em parceria com a consultoria GO Associados. A base de dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) foi utilizada.

A perda, equivalente a 2.103 diques, representa 42,4% de toda a água potável que deveria chegar à população no estado. O desperdício é superior à média nacional, que é de 37,8%. Goiás é o estado com o menor percentual de água perdida, com 28%. No outro extremo, o Amapá teve desperdício de 71% da água potável.

“A Bahia tem desperdício um pouco maior do que a média do país, mas não está entre os piores estados, que perdem mais de 60% de toda a água produzida. É preciso que o tema seja prioritário para que os indicadores melhorem e atinjam a meta de 25% do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR)”, analisa Luana Pretto, presidente do Instituto Trata Brasil.

Em um ano, a perda do recurso aumentou 2,7 pontos percentuais. Ela havia sido de 39,7% em 2021. Enquanto isso, no Brasil, o desperdício de água caiu após seis anos seguidos de aumento. O incremento de tecnologias no processo de distribuição e o aumento de pessoas beneficiadas com tarifa social são alguns dos caminhos apontados por especialistas para diminuir a perda.

“O monitoramento da rede pode ser melhorado com macromedidores que medem a vazão das redes ao longo do sistema. As companhias de saneamento ainda têm dificuldades de instalá-los e mantê-los conservados. Mas só é possível avaliar a perda se existem dados de entrada e saída”, afirma Jonatas Sodré, engenheiro sanitarista e integrante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA).

A ampliação da tarifa social, que hoje é de R$ 14,97 na Bahia, deve diminuir as ligações clandestinas, ainda segundo o especialista. No site da Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) é possível solicitar a tarifa. Para isso, é preciso que a residência tenha até 60 m². Hoje, cerca de 5,5% dos consumidores acessam o benefício. 

O estudo analisou a perda de água dos 100 municípios mais populosos do país, sendo quatro deles baianos: Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Camaçari. De acordo com o levantamento, a capital baiana e Camaçari estão entre as cidades com os piores índices de perda no faturamento, ocupando as posições 96º e 92º, respectivamente.

Em Salvador, a Embasa deixa de arrecadar, por vazamentos e ligações ilegais de água, 61% do faturamento. Já em Camaçari, o índice é de 59%. As perdas de água são caracterizadas de duas formas. São comerciais, quando existem ligações ilegais, e físicas nos casos de vazamentos e rompimentos de tubulações. 

No caso das ligações clandestinas, popularmente chamadas de "gato", a água é utilizada, apesar de não ser contabilizada pela empresa. Clecio Cruz, diretor técnico e de planejamento da Embasa, estima que, do total de água perdido, 35% é por ineficiência estrutural. Os outros 65% ocorrem por ligações ilegais. 

"A Embasa vem amadurecendo cada vez mais os investimentos em perdas. Temos mais de R$200 milhões alocados para controle e redução de perdas nos próximos anos. Também estamos aprimorando as condições de controle e identificação de vazamentos", diz.