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Bruno Wendel
Publicado em 13 de abril de 2026 às 05:00
Pior do que receber a notícia da morte é viver sem notícia alguma. Na Bahia, 633 pessoas foram registradas como desaparecidas apenas entre janeiro e fevereiro deste ano. Os dados mantêm o estado na liderança no Nordeste pela quinta vez consecutiva e revelam um cenário que mistura conflitos familiares, sofrimento psíquico e violência urbana — esta última, a face mais grave. >
Na Região Metropolitana de Salvador (RMS), ao menos seis ocorrências foram contabilizadas no período. Parte desses casos, no entanto, não teve detalhes divulgados publicamente, o que evidencia lacunas de informação e possível subnotificação. >
Desaparecimentos na Bahia
De acordo com o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), a Bahia já ocupava a primeira posição no mesmo recorte em 2022, com 538 casos. Em 2023, foram 587 registros; em 2024, 638; e, no ano passado, 689. A média dos últimos cinco anos chega a 617 desaparecimentos no primeiro bimestre. >
Durante todo esse período, o estado permanece à frente de Pernambuco e Ceará, que apresentam médias de 432 e 374 casos, respectivamente. >
No entanto, quando se analisa o número de pessoas localizadas no mesmo intervalo, a Bahia fica atrás dos dois estados. O valor médio é de 140 registros, enquanto o Ceará lidera com 234 ocorrências e Pernambuco aparece em seguida, com média de 168. >
No cenário nacional, a Bahia ocupa a sétima posição em número de desaparecimentos no primeiro bimestre, atrás de São Paulo (3.280), Minas Gerais (1.540), Rio Grande do Sul (1.384), Rio de Janeiro (1.150), Paraná (983) e Santa Catarina (805). >
“É importante perceber que há fenômenos diferentes reunidos em um mesmo número de desaparecimentos. O governo brasileiro, recentemente, passou a reconhecer de forma autônoma o crime de desaparecimento forçado, cometido por agentes do Estado. Isso precisa ser observado como um dos desafios da segurança pública”, afirma o cofundador e coordenador executivo da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, Dudu Ribeiro, integrante da rede de Observatórios de Segurança. >
Como exemplo, Ribeiro cita o caso de Davi Fiúza. Em 2014, o adolescente de 16 anos foi levado durante uma abordagem da Polícia Militar no bairro de Vila Verde e nunca mais foi visto. “Após dez anos de sofrimento da família na Justiça Militar, o processo foi para a Justiça Comum, reiniciando um ciclo de violência institucional. Sabemos que Davi foi vítima desse modelo de segurança pública, que também produz desaparecimentos forçados”, diz. >
RMS >
Em março deste ano, a adolescente Maria Eduarda da Cruz de Pinho, de 14 anos, foi localizada após uma semana desaparecida em Dias d’Ávila, na RMS. Ela havia saído de casa para encontrar amigos e foi encontrada em uma rodovia, ainda no município, com sinais de violência física e psicológica. >
“Equipes da Delegacia Territorial de Dias d’Ávila, com apoio do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom), seguem investigando as circunstâncias do desaparecimento, bem como a identificação de envolvidos. Desde o registro, foram coletados depoimentos, realizadas diligências de campo e análises de dados digitais”, informou a Polícia Civil. >
Outras vítimas, no entanto, não tiveram o mesmo desfecho. O corpo do mecânico Matheus Balbino Rodrigues dos Santos, de 29 anos, foi encontrado no dia 26 de janeiro, em uma área de mata próxima à ponte de Nova Dias d’Ávila. Dois dias antes, ele havia saído de casa, em Camaçari, para encontrar um suposto cliente interessado na compra de uma peça automotiva. >
Segundo familiares, Matheus foi atraído para uma emboscada. Ele teria sido abordado por três homens armados, que o obrigaram a abandonar a motocicleta e entrar em um carro. >
“Há também os desaparecimentos ligados às disputas entre organizações criminosas, especialmente no tráfico de drogas e armas. É fundamental cobrar do Estado investimentos em investigação e inteligência, além de mais celeridade da Justiça, para evitar a continuidade do sofrimento das famílias”, pontua Dudu Ribeiro. >
Há cerca de uma semana, a família de Gabriel Araújo Dias buscava informações sobre seu paradeiro. Ele teria desaparecido após sair para usar drogas com dois homens não identificados. O corpo foi encontrado no dia 20 de fevereiro, na Estrada da Beribeira, em uma área de mata em Camaçari. >
Apesar do estado avançado de decomposição, a mãe reconheceu o corpo pelas roupas — as mesmas usadas no dia do desaparecimento. A confirmação oficial, no entanto, depende de exames do Departamento de Polícia Técnica (DPT). >
Outro caso emblemático é o do mineiro Daniel Gondim, de 25 anos. Objetos atribuídos à vítima e estojos de munição encontrados ao lado de uma ossada humana são considerados fortes indícios de que os restos mortais possam ser do jovem, desaparecido desde 8 de outubro do ano passado na Ilha de Itaparica. >
A ossada foi localizada no dia 16 de janeiro, em Mar Grande. A suspeita é de que o crime tenha sido cometido por traficantes, mas a identificação oficial ainda depende de laudo pericial. Os demais episódios de desaparecimentos foram mencionados por moradores de Camaçari.>