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Maria Raquel Brito
Alan Pinheiro
Publicado em 27 de março de 2026 às 05:00
A escalada no preço do óleo diesel tem gerado um efeito cascata em toda a cadeia produtiva da Bahia, afetando diretamente a rotina dos produtores rurais e a economia do estado. Como a maior parte do abastecimento do comércio e da indústria depende do transporte rodoviário, a alta nas bombas encarece o frete e, consequentemente, os custos de produção em diversos segmentos. >
O agronegócio representa a principal atividade econômica baiana. Em 2025, o PIB do agronegócio totalizou R$ 32,5 bilhões, equivalente a 24,9% da cadeia produtiva no estado. De acordo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), a produção de grãos baiana registrou um crescimento de 10,9% em relação à safra anterior, o que se tornou um dos fatores responsáveis pela expansão do agronegócio no estado.>
Agro sustenta o PIB do Brasil
No entanto, diante da instabilidade provocada pelo acirramento dos conflitos no Oriente Médio, que restringiram a oferta global de petróleo, o setor sofre uma pressão com o aumento nos custos logísticos para o escoamento das safras e a alta na importação de insumos vitais, como os fertilizantes. Quem explica é o coordenador de acompanhamento conjuntural da SEI, Arthur Souza Cruz. >
“O agronegócio, de um modo geral, também depende do abastecimento de fertilizantes e da produção das suas lavouras e está sendo pressionado com aumento do custo na importação do produto final. Somos dependentes de quase 85% de importação [de fertilizantes], principalmente da Rússia, da China, dessas regiões em conflito. Não é nem a falta do produto, mas o aumento do preço no mercado nacional por conta do conflito”, explica.>
A margem de manobra para os produtores mitigarem esses prejuízos é bastante estreita, já que a economia ainda é fortemente baseada em combustíveis fósseis e as cotações atreladas a bolsas internacionais limitam o controle local sobre esses custos. “Com o dólar mais caro, a importação fica mais cara. Alguns produtos exportados dependem de insumos importados e, com o dólar mais alto, encarece a importação, o produto e o preço final”, complementa.>
A alta dos combustíveis atinge não apenas as operações no campo, mas também o bolso do consumidor final, sendo um dos principais vetores para o aumento da inflação e o encarecimento de uma série de outros produtos. Foi com essa justificativa que a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb) enviou um ofício ao Governo do Estado solicitando a redução imediata e temporária da alíquota do ICMS incidente sobre o diesel. >
“A adoção de medidas emergenciais no âmbito estadual é essencial para preservar a sustentabilidade da produção agropecuária e proteger o consumidor final”, destaca o documento assinado pelo presidente da Federação, Humberto Miranda. >
A entidade argumenta que a desoneração é uma medida emergencial essencial para preservar a competitividade do setor produtivo, evitar o desabastecimento e conter a inflação sobre os alimentos que chegam à mesa da população. >
A Faeb também ressalta que o Governo Federal adotou recentemente medida semelhante. Em 12 de março de 2026, foi publicado o Decreto nº 12.875, que zerou as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins sobre o diesel, eliminando a carga tributária federal sobre o produto. Com a medida, os tributos estaduais passaram a representar o principal fator de impacto no preço final do combustível, correspondendo, em média, a 38,4% do valor. >
Em paralelo à pressão dos produtores por soluções tributárias, o Procon-BA intensificou a operação “De Olho no Preço”, fiscalizando até o momento 230 postos de combustíveis na capital, Região Metropolitana e interior, além de notificar dez distribuidoras. De acordo com o Procon, foram realizadas 33 denúncias de preço abusivo.>
As empresas notificadas receberam o prazo de cinco dias para explicar os reajustes aplicados nas tarifas de combustíveis, enquanto a Refinaria de Mataripe também foi acionada para apresentar informações complementares sobre as justificativas de preços encaminhadas anteriormente ao órgão.>
Se por aqui, o principal problema está no custo, em outros locais do país, o abastecimento causa preocupação. Subiu para 166 o número de municípios do Rio Grande do Sul que relatam problemas relacionados à escassez no abastecimento de óleo diesel. A informação consta em um boletim da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), de acordo com uma reportagem da Agência Brasil na última quarta-feira (dia 25). >
A Famurs detalha que recebeu retorno à consulta de 384 dos 497 municípios gaúchos. Os 166 atingidos representam um terço das cidades do Rio Grande do Sul. A capital, Porto Alegre, não consta como afetada. De acordo com a federação gaúcha, os sinais de desabastecimento acendem “um sinal de alerta para o funcionamento dos serviços essenciais nas cidades”.>
Prefeituras estão direcionando o combustível para áreas essenciais, como serviços na área da saúde e transporte de pacientes. Obras e atividades que dependem de maquinário foram suspensas.>