Com fortuna estimada em R$ 50 milhões pela PF, família recebeu auxílio emergencial

O pai, que morreu em confronto, foi acusado de tráfico de drogas; demais membros fariam lavagem de dinheiro

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  • Thais Borges

Publicado em 2 de março de 2024 às 06:00

O pai, Rener; a mãe, Niedja; e a filha Larissa constam como beneficiários do auxílio emergencial
O pai, Rener; a mãe, Niedja; e a filha Larissa constam como beneficiários do auxílio emergencial Crédito: Reprodução

Apesar do alto padrão de vida, ao menos três membros da família Umbuzeiro, alvo da Operação Kariri, receberam auxílio emergencial. O patriarca Rener Manoel Umbuzeiro; sua esposa, Niedja Maria de Lima Souza e sua filha, Larissa Gabriela Lima Umbuzeiro, foram beneficiários do programa do governo federal durante a pandemia da covid-19.

Rener, Niedja e Larissa receberam auxílio emergencial
Rener, Niedja e Larissa receberam auxílio emergencial Crédito: Reprodução/Portal da Transparência

De acordo com a Polícia Federal (PF), a família é apontada como responsável por criar um império de tráfico de drogas no Nordeste, por meio da plantação ilegal de maconha. 

Rener, que foi indiciado como traficante de drogas, morreu no último dia 21 de fevereiro, quando a PF deflagrou a Operação Kariri, em nove cidades, incluindo Feira de Santana, Salvador, Ibimirim (PE), Brasília (DF) e São Paulo (SP). Cinco pessoas foram presas, inclusive a filha, Larissa, que é médica, a esposa dele, Niedja Maria de Lima Souza e o genro Paulo Victor Bezerra Lima.

A irmã de Niedja, Clênia Maria Lima Bernardes, também foi presa, assim como a prima Robelia Rezende de Souza, que está em prisão domiciliar. Inicialmente, foi divulgado que a sobrinha de Niedja e Rener, Gabriela Raizila Lima de Souza, também teria sido presa, mas segundo a polícia, ela está foragida.

A operação contou com apoio do Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco) do Ministério Público do Estado (MP-BA).

Ao patriarca da família, a PF imputou o crime de tráfico. Os demais, segundo o delegado Diego Gordilho, supervisor do grupo de informações sensíveis da Bahia, que coordena as investigações, seriam operadores financeiros - ou seja, fariam lavagem de dinheiro. Apesar do alto padrão de vida, Rener, Niedja e Larissa receberam auxílio emergencial do governo federal.

“Rener não aparecia, não buscava participar de holofotes. Ficava bem resguardado no interior, nas fazendas. Inclusive, teve o casamento da própria filha e ele não foi porque sabia que estava sendo investigado pela Polícia Federal”, diz Gordilho. “O mais diferente é a tentativa de buscar uma via de normalidade dentro do contexto da sociedade, sendo que o ganho financeiro, ao que tudo indica, veio do tráfico de drogas”, acrescenta.

Ele estava sozinho em uma fazenda na região de Morpará, no Vale do São Francisco, quando a equipe da polícia chegou ao local. Ainda de acordo com o delegado, Rener atirou três vezes contra os policiais usando uma arma que não era legalizada. Ele morreu no confronto.

Polígono

As investigações começaram em 2019, quando Rener entrou no radar da PF depois de um flagrante. “Quase uma tonelada de droga foi apreendida e, pela investigação, foi possível afirmar que ele era o responsável pela carga”, acrescenta o delegado.

Mas a trajetória da família começou muito antes: segundo as investigações, eles se transferiram para Feira de Santana no início dos anos 2000, vindos do sertão pernambucano. A mudança pode estar diretamente ligada aos desdobramentos do Polígono da Maconha, um quadrilátero imaginário que representa uma região com mais de 20 cidades de Pernambuco e da Bahia (veja mais abaixo).

O cultivo de maconha teria entrado na vida deles há mais de 30 anos, ainda em Pernambuco. De lá, eles decidiram vir para a Bahia, para onde outros integrantes do clã se transferiram. Ainda assim, a polícia acredita que havia ramificações no estado, especialmente em Ibimirim, terra natal de Rener e Niedja. A cidade no semiárido fica a mais de 300 quilômetros de Recife (PE) e tem pouco mais de 26 mil habitantes, segundo o último Censo.

O motivo para terem escolhido especificamente Feira de Santana não é conhecido. Mas a opção pela maconha, para o delegado Diego Gordilho, não destoa das práticas da região.

“É pela questão da localidade, que é inerente à região. Tanto que existe o Polígono da Maconha, região propícia ao plantio de cannabis, em termos do solo. Na Bahia, é uma região que vai se aproximando do estado de Pernambuco”, explica.

O inquérito apontou que a organização criminosa teria chegado a se expandir também para Alagoas e Paraíba em diferentes momentos, com o objetivo de dificultar as investigações . “A autonomia dessa família na área do tráfico é muito expressiva, tendo inclusive incentivado diversos outros pequenos traficantes em se tornarem (sic) traficantes de maior potencial, a exemplo de alguns que eram apenas transportadores a serviço dos Umbuzeiros e hoje se tornaram traficantes independentes, sem mesmo deixarem de se relacionar com a família”, diz a petição criminal com visualização pública.

Ainda segundo a investigação, eles seriam responsáveis por todo o ciclo da produção de maconha: plantio, colheita, prensagem, armazenagem, transporte e entrega. De Feira de Santana, além de aumentar o patrimônio, conseguiriam comandar os negócios e enviar a droga para capitais e regiões metropolitanas do Nordeste.

Ao todo, houve três situações de tráfico de drogas que a PF atribui a Rener. “A partir de então, foi desvendado que eles construíram uma grande rede para ocultar e dissimular o proveito econômico relacionado ao tráfico de drogas, sem nenhum tipo de renda ou ganho licitamente comprovado. Começaram a adquirir imóveis de alto valor usando os nomes dos filhos, de irmã, parente”, afirma o delegado.

Na operação de 21 de fevereiro, foram bloqueados seis imóveis de alto padrão e cinco fazendas. Todos seriam pertencentes ao grupo. Também foram bloqueadas contas bancárias e cumpridos 20 mandados de busca e apreensão. Somados, a PF estima que os bens podem chegar a R$ 50 milhões. Ainda de acordo com o delegado Diego Gordilho, o grupo já tinha sido alvo de operação das Polícias Civis da Bahia e de Pernambuco, além da Polícia Militar baiana.

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