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Maysa Polcri
Publicado em 4 de maio de 2026 às 06:00
Candidato a reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Penildon Silva Filho não é um outsider. Sua experiência na gestão da instituição se consolidou ao longo dos últimos 12 anos, período em que foi pró-reitor de graduação e vice-reitor, cargo que ocupa atualmente. A posição, no entanto, não impede que o professor formado em Comunicação Social faça duras críticas à condução da universidade e denuncie suposto abuso político durante as eleições deste ano. >
Nesta entrevista exclusiva ao CORREIO, Penildon Silva Filho detalha as principais propostas da chapa Mais Ufba (Chapa 1), que possui como candidata a vice-reitora a professora Bárbara Coelho. Entre as medidas apresentadas estão a garantia de descentralização, criação de um Observatório da Vida Estudantil para reduzir a evasão dos alunos, além da implementação de uma nova política cultural e tecnológica. O candidato ainda comenta sobre a troca de farpas com a Administração Central, do reitor Paulo Miguez, e a disputa contra seu ex-aliado, João Carlos Salles. >
Quem é Penildon Silva Filho
Esta entrevista integra uma série especial sobre a sucessão na Universidade Federal da Bahia (2026–2030), marcada pelo inédito voto direto, sem lista tríplice, conforme a Lei nº 15.367/2026. Quatro chapas disputam — Mais Ufba (Penildon Filho e Bárbara Coelho), Somos Ufba (João Carlos Salles e Jamile Borges), Ufba Insurgente (Fernando Conceição e Célia Sacramento) e Nossa Ufba (Salete Maria e Menandro Ramos) — e as entrevistas serão publicadas entre esta segunda (4) e quinta-feira (7), seguindo a ordem das chapas divulgadas pela Ufba. A votação acontecerá entre os dias 20 e 21 de maio, com resultado a ser divulgado no dia 22. >
O senhor já ocupou cargos de gestão no governo estadual, quando foi diretor-geral do Instituto Anísio Teixeira, e no município de Vitória da Conquista, como secretário de Comunicação. Além de ter sido pró-reitor de Graduação e atual vice-reitor da Ufba. O que motivou a candidatura ao cargo mais alto da universidade? >
No segundo semestre do ano passado, tivemos algumas reuniões com diretores de unidades, vice-diretores, professores, técnicos e alunos. Entendemos que era o momento de apresentar uma proposta diferente de modelo de gestão. Também entendemos que é importante mudar não somente a gestão administrativa, financeira, orçamentária, mas também a gestão acadêmica. >
É importante começarmos a ter uma política de inovação, investimentos em política de permanência estudantil. Ou seja, é importante que a universidade, na sua democracia, tenha alternativas, que não haja apenas a proposta de continuidade da atual reitoria.
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A Administração Central da Ufba publicou uma nota contra a sua postura no contexto da pré-candidatura. O texto afirma que o senhor tem se apresentado como externo à gestão, o que implica corresponsabilidade administrativa. Como o senhor recebeu essas críticas?>
Eu considero que essa nota, assinada pelo reitor [Paulo Miguez] e pela equipe da Administração Central, se configura como abuso de poder político. O reitor apoia o ex-reitor, João Carlos Salles, e ao fazer uma nota no site da universidade, assinada por ele, criticando a minha candidatura, está favorecendo o candidato dele. Inclusive, o atual reitor gravou um vídeo de apoio ao ex-reitor. >
Isso configura claramente um processo de parcialidade, e mais do que isso, a utilização do aparelho de Estado para tentar esmagar uma candidatura e um servidor público, um professor. Acho que foi algo extremamente infeliz para o momento que estamos vivendo na universidade e eu estou tomando as minhas providências. >
Como a sua proposta difere do comando atual da Ufba? >
Acreditamos que é possível termos uma gestão melhor do que nós temos hoje para garantir melhores condições de trabalho para os professores e para os técnicos, e melhores condições de estudo para os alunos. Nosso primeiro foco é na gestão. Temos um segundo foco, que nós entendemos que a universidade deve estar comprometida com um projeto de desenvolvimento nacional, que se preocupe com a superação dos grandes problemas nacionais, como a fome, miséria e desigualdade social. A Ufba não pode ser uma torre de marfim. >
Nosso terceiro foco é a defesa da universidade pública e gratuita, com mais orçamento para a universidade. Precisamos de um orçamento maior, mais estável e também da autonomia universitária. Juntando essas três diretrizes, conseguimos concatenar os diversos temas do nosso plano de gestão. Convidei a professora Bárbara Coelho, que é uma referência hoje na pesquisa sobre inteligência artificial, justamente por compreender o papel estratégico das novas tecnologias. >
A Ufba reconheceu este semestre como atípico, e os alunos denunciam problemas de falta de ofertas de vagas em diferentes cursos. Como resolver esse problema? >
No nosso entendimento, aconteceram alguns erros de gestão acadêmica na implantação do SIGAA [Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas]. Nós observamos que o sistema funciona em outras instituições e também pode funcionar melhor na Ufba, se houver uma governança compartilhada da Administração Central com os colegiados, um processo de customização do SIGAA e se for respeitada a cultura interna da Ufba. O semestre atípico é consequência da implantação do sistema, que ainda não se deu de forma completa. Este é um bom exemplo de como a gestão acadêmica pode ser melhor. >
Candidatos ao cargo de reitor da Ufba
Na prática, como funcionaria a 'governança compartilhada'? >
O modelo de gestão hoje da universidade é centralizado. Até 2014, as unidades acadêmicas tinham parte do orçamento sob seu controle e conseguiam responder e resolver alguns problemas locais de maneira mais rápida. A partir do momento em que houve centralização de todo o orçamento na Administração Central, até mesmo de conservação do espaço físico, os diretores de unidade começaram a identificar que havia uma dificuldade de atendimento dessas demandas.>
Nós estamos propondo que haja um modelo de gestão descentralizado para que os diretores possam executar uma pequena parte do orçamento para resolver algumas demandas. Agora, a universidade tem que voltar a ter políticas de longo prazo. Hoje, o aluno se ressente que ele chega em vários lugares da universidade e não tem acesso à internet, as bibliotecas não funcionam à noite ou não funcionam no dia de sábado e domingo. A universidade tem que voltar a ser um espaço de convivência para que se estabeleçam laços de solidariedade social.>
Uma das propostas da chapa é a criação de um Observatório da Vida Estudantil. Qual é o objetivo e como ele pode ajudar a combater a evasão dos alunos? >
O objetivo é ver as questões de retenção, de evasão, de mobilidade acadêmica, além do acompanhamento dos egressos, para saber onde é que eles estão hoje no mundo do trabalho. Não é somente a Ufba, mas o conjunto das universidades federais têm um percentual de mais ou menos metade dos alunos que não terminam o curso universitário. Nós temos que nos debruçar sobre essa situação. Não podemos esquecer que há mudanças no mundo do trabalho, na tecnologia e na percepção dos jovens sobre a universidade. A Ufba precisa analisar esse mundo novo que influencia a juventude e ver de que forma nós podemos acolher melhor os jovens.>
Penildon Silva Filho é graduado em Comunicação Social pela Ufba, tendo completado mestrado e doutorado em Educação, ambos também pela universidade. Fundou a Organização não Governamental Oficina de Cidadania, que dirigiu até 2007. Tem experiência de pesquisa na área de Educação, com ênfase em Administração de Sistemas Educacionais. Foi diretor-geral do Instituto Anísio Teixeira e secretário de Comunicação do município de Vitória da Conquista. Também foi pró-reitor de graduação da Ufba durante a gestão de João Carlos Salles. >