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'É possível fazer uma gestão melhor', diz candidato a reitor que denuncia abuso político na Ufba

Atual vice-reitor diz como pretende resolver os problemas de falta de vagas e evasão na universidade

  • Foto do(a) author(a) Maysa Polcri
  • Maysa Polcri

Publicado em 4 de maio de 2026 às 06:00

Penildon Silva Filho foi nomeado vice-reitor em agosto de 2022
Penildon Silva Filho foi nomeado vice-reitor em agosto de 2022 Crédito: Divulgação

Candidato a reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Penildon Silva Filho não é um outsider. Sua experiência na gestão da instituição se consolidou ao longo dos últimos 12 anos, período em que foi pró-reitor de graduação e vice-reitor, cargo que ocupa atualmente. A posição, no entanto, não impede que o professor formado em Comunicação Social faça duras críticas à condução da universidade e denuncie suposto abuso político durante as eleições deste ano. 

Nesta entrevista exclusiva ao CORREIO, Penildon Silva Filho detalha as principais propostas da chapa Mais Ufba (Chapa 1), que possui como candidata a vice-reitora a professora Bárbara Coelho. Entre as medidas apresentadas estão a garantia de descentralização, criação de um Observatório da Vida Estudantil para reduzir a evasão dos alunos, além da implementação de uma nova política cultural e tecnológica. O candidato ainda comenta sobre a troca de farpas com a Administração Central, do reitor Paulo Miguez, e a disputa contra seu ex-aliado, João Carlos Salles. 

Atual vice-reitor da Ufba, Penildon Silva Filho foi nomeado para o cargo em 2022 por Divulgação

Esta entrevista integra uma série especial sobre a sucessão na Universidade Federal da Bahia (2026–2030), marcada pelo inédito voto direto, sem lista tríplice, conforme a Lei nº 15.367/2026. Quatro chapas disputam — Mais Ufba (Penildon Filho e Bárbara Coelho), Somos Ufba (João Carlos Salles e Jamile Borges), Ufba Insurgente (Fernando Conceição e Célia Sacramento) e Nossa Ufba (Salete Maria e Menandro Ramos) — e as entrevistas serão publicadas entre esta segunda (4) e quinta-feira (7), seguindo a ordem das chapas divulgadas pela Ufba. A votação acontecerá entre os dias 20 e 21 de maio, com resultado a ser divulgado no dia 22. 

O senhor já ocupou cargos de gestão no governo estadual, quando foi diretor-geral do Instituto Anísio Teixeira, e no município de Vitória da Conquista, como secretário de Comunicação. Além de ter sido pró-reitor de Graduação e atual vice-reitor da Ufba. O que motivou a candidatura ao cargo mais alto da universidade? 

No segundo semestre do ano passado, tivemos algumas reuniões com diretores de unidades, vice-diretores, professores, técnicos e alunos. Entendemos que era o momento de apresentar uma proposta diferente de modelo de gestão. Também entendemos que é importante mudar não somente a gestão administrativa, financeira, orçamentária, mas também a gestão acadêmica. 

É importante começarmos a ter uma política de inovação, investimentos em política de permanência estudantil. Ou seja, é importante que a universidade, na sua democracia, tenha alternativas, que não haja apenas a proposta de continuidade da atual reitoria. 

A Administração Central da Ufba publicou uma nota contra a sua postura no contexto da pré-candidatura. O texto afirma que o senhor tem se apresentado como externo à gestão, o que implica corresponsabilidade administrativa. Como o senhor recebeu essas críticas?

Eu considero que essa nota, assinada pelo reitor [Paulo Miguez] e pela equipe da Administração Central, se configura como abuso de poder político. O reitor apoia o ex-reitor, João Carlos Salles, e ao fazer uma nota no site da universidade, assinada por ele, criticando a minha candidatura, está favorecendo o candidato dele. Inclusive, o atual reitor gravou um vídeo de apoio ao ex-reitor.

Isso configura claramente um processo de parcialidade, e mais do que isso, a utilização do aparelho de Estado para tentar esmagar uma candidatura e um servidor público, um professor. Acho que foi algo extremamente infeliz para o momento que estamos vivendo na universidade e eu estou tomando as minhas providências. 

Como a sua proposta difere do comando atual da Ufba? 

Acreditamos que é possível termos uma gestão melhor do que nós temos hoje para garantir melhores condições de trabalho para os professores e para os técnicos, e melhores condições de estudo para os alunos. Nosso primeiro foco é na gestão. Temos um segundo foco, que nós entendemos que a universidade deve estar comprometida com um projeto de desenvolvimento nacional, que se preocupe com a superação dos grandes problemas nacionais, como a fome, miséria e desigualdade social. A Ufba não pode ser uma torre de marfim. 

Nosso terceiro foco é a defesa da universidade pública e gratuita, com mais orçamento para a universidade. Precisamos de um orçamento maior, mais estável e também da autonomia universitária. Juntando essas três diretrizes, conseguimos concatenar os diversos temas do nosso plano de gestão. Convidei a professora Bárbara Coelho, que é uma referência hoje na pesquisa sobre inteligência artificial, justamente por compreender o papel estratégico das novas tecnologias. 

A Ufba reconheceu este semestre como atípico, e os alunos denunciam problemas de falta de ofertas de vagas em diferentes cursos. Como resolver esse problema? 

No nosso entendimento, aconteceram alguns erros de gestão acadêmica na implantação do SIGAA [Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas]. Nós observamos que o sistema funciona em outras instituições e também pode funcionar melhor na Ufba, se houver uma governança compartilhada da Administração Central com os colegiados, um processo de customização do SIGAA e se for respeitada a cultura interna da Ufba. O semestre atípico é consequência da implantação do sistema, que ainda não se deu de forma completa. Este é um bom exemplo de como a gestão acadêmica pode ser melhor.

Penildon Silva Filho por Paula Froes

Na prática, como funcionaria a 'governança compartilhada'? 

O modelo de gestão hoje da universidade é centralizado. Até 2014, as unidades acadêmicas tinham parte do orçamento sob seu controle e conseguiam responder e resolver alguns problemas locais de maneira mais rápida. A partir do momento em que houve centralização de todo o orçamento na Administração Central, até mesmo de conservação do espaço físico, os diretores de unidade começaram a identificar que havia uma dificuldade de atendimento dessas demandas.

Nós estamos propondo que haja um modelo de gestão descentralizado para que os diretores possam executar uma pequena parte do orçamento para resolver algumas demandas. Agora, a universidade tem que voltar a ter políticas de longo prazo. Hoje, o aluno se ressente que ele chega em vários lugares da universidade e não tem acesso à internet, as bibliotecas não funcionam à noite ou não funcionam no dia de sábado e domingo. A universidade tem que voltar a ser um espaço de convivência para que se estabeleçam laços de solidariedade social.

Uma das propostas da chapa é a criação de um Observatório da Vida Estudantil. Qual é o objetivo e como ele pode ajudar a combater a evasão dos alunos? 

O objetivo é ver as questões de retenção, de evasão, de mobilidade acadêmica, além do acompanhamento dos egressos, para saber onde é que eles estão hoje no mundo do trabalho. Não é somente a Ufba, mas o conjunto das universidades federais têm um percentual de mais ou menos metade dos alunos que não terminam o curso universitário. Nós temos que nos debruçar sobre essa situação. Não podemos esquecer que há mudanças no mundo do trabalho, na tecnologia e na percepção dos jovens sobre a universidade. A Ufba precisa analisar esse mundo novo que influencia a juventude e ver de que forma nós podemos acolher melhor os jovens.

Perfil do candidato 

Penildon Silva Filho é graduado em Comunicação Social pela Ufba, tendo completado mestrado e doutorado em Educação, ambos também pela universidade. Fundou a Organização não Governamental Oficina de Cidadania, que dirigiu até 2007. Tem experiência de pesquisa na área de Educação, com ênfase em Administração de Sistemas Educacionais. Foi diretor-geral do Instituto Anísio Teixeira e secretário de Comunicação do município de Vitória da Conquista. Também foi pró-reitor de graduação da Ufba durante a gestão de João Carlos Salles.