HISTÓRICO

Entenda a disputa entre membros da Devoção do Senhor do Bonfim e Arquidiocese de Salvador

Problemas começaram em janeiro de 2023, após disputas entre membros da devoção e o padre Edson Menezes

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Publicado em 19 de abril de 2024 às 15:30

Basílica do Senhor do Bonfim
Basílica do Senhor do Bonfim Crédito: Nara Gentil/Correio

A audiência de conciliação entre a Arquidiocese de Salvador e a Devoção do Senhor Bom Jesus do Bonfim tem o objetivo de colocar um ponto final em uma disputa que se arrasta desde o ano passado. As partes ainda não chegaram a um acordo e uma nova sessão foi marcada para o dia 13 de maio, na sede do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA).

Em janeiro de 2023, quando o antigo juiz da Irmandade do Senhor do Bonfim, Jorge Nunes Contreiras, tomou posse, as desavenças entre a diretoria da irmandade e o padre Edson Menezes começaram a surgir. Além de ter tentado interferir na programação da Festa do Bonfim, Contreiras exigiu que o padre Edson Menezes fosse registrado como empregado da Irmandade e que tivesse a carteira de trabalho assinada pela função que ocupava na organização com remuneração de quatro salários mínimos.

Esse foi o começo de uma série de desavenças que mobilizaram, inclusive, membros da irmandade se manifestarem em apoio ao reitor da basílica. O antigo juiz da irmandade também defendeu a proibição do acesso aos valores das coletas feitas pela igreja durante as missas das sextas-feiras e cofres laterais, além de impedir a promoção do comércio de água benta e outros itens no interior da basílica por parte do padre Edson.

O recolhimento das taxas de serviços como casamentos e batizados era outro recurso financeiro que ficaria sob responsabilidade da irmandade. Outra medida era o fechamento da loja do Projeto Bom Samaritano – iniciativa social criada pelo padre que atende a famílias carentes.

As determinações de Contreiras não foram aceitas pelo reitor da basílica, o que intensificou o conflito envolvendo uma das tradicionais igrejas do estado. Em agosto deste ano, a Arquidiocese de Salvador tentou mediar uma conciliação entre ambas as partes, no entanto, o pároco foi afastado da capelania da Devoção. Contreiras também foi afastado do cargo, por determinação do cardeal Dom Sérgio da Rocha. No período, o padre José Abel Carvalho Pinheiro foi nomeado como interventor na Devoção.

À época, o padre Edson conversou com o CORREIO, por telefone, e disse que o juiz não estava em nível hierárquico acima dele – papel ocupado pelo arcebispo de Salvador, Dom Sérgio Cardeal da Rocha – e que "padre não tem carteira assinada". A Irmandade também foi procurada pela reportagem no mesmo período, por meio da assessoria de comunicação, mas optou por não fazer nenhum pronunciamento.

No dia 25 de setembro, a Mesa Diretora divulgou uma carta aberta, onde acusa o padre Edson Menezes de administrar de maneira irresponsável a Devoção. Segundo a carta, no momento em que a Mesa Diretora pretendia iniciar uma auditoria, foi surpreendida pelo decreto de intervenção da Arquidiocese de São Salvador da Bahia.

“A Arquidiocese assumiu indevidamente o controle da administração da Irmandade, impedindo, mais uma vez, que a Mesa Diretora desse início à devida apuração das escandalosas irregularidades. Não há [como] negar que a Arquidiocese cometeu um grande equívoco, porque se intrometeu na administração de uma organização religiosa privada, [...] optando por acobertar os desregramentos existentes na Irmandade, [...] não adotando qualquer providência em desfavor do padre Edson”, diz trecho.

Também na carta, os representantes negam ter existido perseguição ao sacerdote e questionam se o propósito do Projeto Bom Samaritano, comandado pelo padre antes da intervenção, era ajudar pessoas carentes ou interferir na administração da Devoção.

Ainda, afirmam que foram encontrados diferentes depósitos no valor de R$10 mil em conta corrente em nome da Arquidiocese, totalizando um montante de aproximadamente R$200 mil. Desses depósitos, alguns teriam os respectivos recibos subscritos pelo reitor ilegalmente.

No manifesto da Diretoria da Irmandade do Bonfim, as declarações da Mesa Diretora foram repudiadas. “Todas estas calúnias, injúrias e difamações estão sendo tratadas na contestação que será postada na justiça, invocando exclusivamente a verdade”, garantem.

Apesar da intervenção na Devoção, o padre Edson continuou como reitor da Basílica. Em outubro, após 14 membros da Devoção entrarem com uma ação judicial contra a Arquidiocese de São Salvador, cinco dos sete membros da diretoria da irmandade assinaram um manifesto em apoio ao padre Edson e fizeram uma convocação para um ato de defesa ao reitor da basílica. Os devotos comparecem a uma missa no dia 8 e protestaram contra os conflitos envolvendo o antigo juiz da congregação, Jorge Nunes Contreiras. O movimento recebeu o nome de 'A Irmandade do Bonfim Somos Nós'.

No dia 28 de outubro, Fernando Moreira foi eleito o novo juiz da Devoção do Nosso Senhor do Bonfim com 72% dos votos dos membros da congregação. Ele tomou posse no dia 19 de novembro, durante cerimônia realizada na catedral. Além do juiz, uma nova diretoria da Devoção foi apresentada na cerimônia para o período 2023/2025. Os cargos serão exercidos nos seguintes setores: Mesa Administrativa do Conselho Econômico e Fiscal, Corpo de Dignitários, Comissão de Sindicância, Conselho da Ordem do Mérito, Diretoria do Centro Comunitário do Senhor do Bonfim e Chefe do Cerimonial.