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Moyses Suzart
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 05:00
O novo é belo, mas nem sempre é inclusivo. É como trocar um estádio de futebol raiz por uma arena. Um Barradão pela Fonte Nova. O conforto e a modernidade são evidentes, como é nítido na nova Rodoviária da Bahia, inaugurada ontem e em funcionamento. Quem chegar a partir de hoje em Salvador pelo voo rasteiro terá uma casa novinha para os ônibus que trazem passageiros para a capital, em Águas Claras. Contudo, a rodoviária antiga não era apenas a entrada e chegada de ônibus de todo o país. Era um instrumento que movimentava a economia local, como lojistas, camelôs, restaurantes populares e afins. Enquanto muitos comemoram o novo, outros temem que fiquem apenas no passado. O que fazer com eles? >
“Isso aqui vai virar a Barroquinha. Um antigo centro econômico abandonado. A partir desta terça, estas famílias daqui estarão perdidas”, resume o peruano Miguel Pacheco, que há 30 anos vende produtos na passarela da rodoviária. “Com este meu ponto, sustentei minha família e construí até minha casa. Agora não sei nem como será amanhã, como vou levar comida para casa”, completa Miguel, temendo o fim do seu sustento, num curto espaço de tempo. Ele não comparou sua situação com a Barroquinha à toa. Segundo ele, o bairro era a referência no comércio até a antiga rodoviária, na Sete Portas, deixar de existir. “Lá o fim foi lento, mas começou assim. Aqui não dou sois ano para acabar e deixar todo mundo sem sustento. Ninguém mais vai passar por aqui”, disse o peruano.>
Ceará tem uma lanchonete na frente da barraca de Miguel e está há mais de 20 anos ali no final da passarela, já na entrada da rodoviária. Vende de tudo, com preços inclusive para viajantes menos afortunados, que não podem pagar muito caro num lanche para levar em sua viagem. Em Ceará, uma peça de salgado com suco custa R$ 7,50. Anderson Carvalho e seu filho, Vitor Carvalho, aproveitaram que seu ônibus para Serrinha sairia em 30 minutos e foram até o camelô encher a barriga e economizar. >
“Imagine quanto eles pagariam lá na rodoviária nova? Alguém pensou que nem todo mundo tem condição de comer numa Mc Donalds? Que pessoas pobres precisam de opção? A rodoviária nova impede até esse contato com o comércio informal. Você sai do ônibus e já tem metrô de um lado e a estação do outro. Não tem circulação como aqui, da pessoa passar, olhar, comprar alguma coisa. Mesmo se tivesse comércio lá, não seria a mesma coisa. É um lugar isolado, é rodoviária só para quem vai viajar. E esta rodoviária daqui era muito mais que isso”, explica Ceará, que não sabe se terá condições de estar aberto ainda. “Vai virar um lugar vazio. Vai ficar só gato pingado. A partir do mês que vem não vai ter condição de manter isso aqui funcionando de maneira nenhuma. Terei que dispensar meus dois funcionários”, completa. >
Dentro da rodoviária velha, os permissionários, que são os comerciantes que utilizam o lugar, se dividem. No restaurante popular ‘Axé Babá, acarajé, abará e blá blá blá”, que fica na entrada da rodoviária, o clima era de despedida e o que menos tinha era conversa. “Deus é quem sabe como será amanhã. a única coisa que sei é que fechamos hoje”, disse uma das funcionárias, que não quis se identificar. Outro, que vende produtos variados e também não quis se identificar, disse que está procurando outro ponto, pois não consegue arcar com os custos da nova rodoviária. >
Nova Rodoviária da Bahia inaugura moderna, mas exclui quem vivia do comércio popular
“O aluguel é um absurdo, de shopping. Teria que desembolsar uns R$ 80 mil, mês. E só para reformar e deixar o ponto pronto para abrir, teria que desembolsar cerca de R$ 150 mil. ontem foi meu último dia na rodoviária, seja aqui ou em Águas Claras. Vou procurar outro lugar”, disse. >
Loja marcante na história da agora saudosa rodoviária, o Dallas, que vende produtos de caça, artigos militares e equipamentos de camping, luta contra o tempo para assegurar sua vaga na nova rodoviária. Para isso, seu proprietário, carinhosamente conhecido como Seu Vilas, está aguardando a venda de dois terrenos de sua propriedade para poder conseguir reformar e pagar o necessário para se transferir. “Estou correndo contra o tempo, mas vamos abrir lá, só ainda não sei quando”, disse. >
Segundo a Sinart, “Aproximadamente 90% já manifestaram interesse em seguir para o novo terminal. Os outros 10% não se adequaram às novas regras e, por isso, não farão parte do comércio no novo equipamento”. Lembra da arena e do estádio raiz? Como todo equipamento moderno, os lojistas precisam se adequar ao novo. E isso explica outro fator interessante na recém-inaugurada rodoviária. >
Inaugurado oficialmente ontem, quem chegar hoje na Nova Rodoviária vai ver a estrutura pronta, mas os serviços ainda em passos lentos. Ao menos entre as lojas, lanchonetes e serviços, os tapumes ainda tomam conta do espaço, incluindo as empresas que vendem passagem, por exemplo. >
Alojados no último andar, somente a Águia Branca, Rota e Cidade Sol estavam com cara de prontas e abriram hoje. Outras importantes, como Novo Horizonte, com linhas para Bom Jesus da Lapa e Guanambi, além da Guanabara, que leva a destinos turísticos como Lençóis, na Chapada Diamantina, estão ainda sem aviso ou previsão de abertura. Em todos que não estão ainda com pontos físicos, é possível comprar passagens via internet, mas é bom ficar atento. Verificamos as respectivas vendas online e ainda estão, com exceção da Águia Branca, informando nos bilhetes que o embarque será na rodoviária velha, o que pode pegar algumas pessoas desprevenidas. As salas vips, incluindo as empresas que já estão em funcionamento para emissão de passagens, também estão fechadas sem previsão de abertura. Então, não adianta comprar passagem com esta vantagem agora. >
Na ala das lojas, só um milagre para alguém estar aberto ao público hoje. Os posicionamentos das lojas estão bons e tem tudo para ser bem organizado. Contudo, não dá nem para saber quem estará lá vendendo seus produtos. Alguns permissionários da rodoviária antiga estão prontos para a mudança, mas não será imediata, pois ainda estão se adequando às exigências e padronizações do espaço. A Sinart disse que está dando todo apoio aos lojistas e que apenas as lojas que estiverem prontas serão abertas, mas não precisou quais. Ao todo, são 260 espaços, mas não são necessariamente o mesmo número de comerciantes, pois alguns compraram mais de um espaço. >
Na área de serviços, tudo funciona normalmente hoje, incluindo o Sac e os postos das polícias Militar, Técnica e Civil. Enquanto a nova tenta preencher os tapumes que ainda tomam conta do espaço, seu Afrânio Silva, com seus 79 anos, se preparava para fazer sua última viagem de ônibus na antiga rodoviária. Ele iria para Gandu e só tinha R$ 20 no bolso. Nem pix usa. Comprou um suco, pediu para colocar numa garrafinha plástica vazia e um pastel, seu único lanche pelas próximas cinco horas. Ainda sobraram alguns trocados de reserva para emergência. Na mais nova Rodoviária da Bahia, o que ele conseguiria comprar? Lembrando que lá, ao menos hoje, só terá Mc Donalds, Subway e Bobs como opção.>