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Alan Pinheiro
Publicado em 26 de março de 2026 às 05:00
A Bahia registrou um aumento no número de casos de tentativa de feminicídio nos dois primeiros meses de 2026 em relação ao ano passado. No total, 57 casos foram registrados em janeiro e fevereiro, representando um acréscimo de 42,5%. Em adição ao número de feminicídios, o primeiro bimestre deste ano conta com o maior número de ocorrências dos últimos 10 anos. Os números foram extraídos do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). >
Considerando os primeiros dois meses, o ano passado registrou 40 casos de tentativa de feminicídio, 17 a menos que em 2026. O número de feminicídios também não fica muito para trás, apesar da queda na comparação entre os anos. Foram 18 casos registrados em 2025, contra 16 em janeiro e fevereiro deste ano. >
Violência masculina contra a mulher
Apesar do declínio, a professora e coordenadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim-Ufba), Márcia Tavares, entende que o decréscimo não representa mudança real no cenário de feminicídios na Bahia. “Ainda é muito cedo para afirmarmos. O cenário se mostra ameaçador se observarmos a forma como o feminicídio é alvo de espetacularização, ao mesmo tempo que há uma banalização, na medida em que faz parte do noticiário todos os dias”, explica.>
Para ela, houve uma evolução na interpretação do que é um feminicídio, o que não exclui a necessidade de abrange novas situações que possam entrar nessa tipificação. “O número ainda é, no meu entendimento, subestimado. A reação exacerbada e a forma violenta com que homens cometem o feminicídio expressa ódio, misoginia, mas também uma relação de poder”, complementa.>
A Bahia registrou 73 casos, entre feminicídios e tentativas, em 2026. O número marca o maior registro dessas ocorrências nos últimos 10 anos, considerando apenas o primeiro bimestre. Desde 2024, inclusive, o estado vem em uma crescente, com 47 casos no ano em questão e 58 em 2025. Os dados disponibilizados no Sinesp, pasta vinculada ao Ministério de Justiça e Segurança Pública, só começaram a ser computados a partir de 2017.>
Segundo a investigadora do Neim-Ufba Vanessa Cavalcanti, o crescimento das tensões doméstico-familiares no início do ano podem ser um fator que potencializa o número de casos no período. “Temos um período de férias, festas, de uma convivência mais aproximada, quando são contextos onde os filhos estão dentro de casa e há um atrito. As tensões podem também ser um pouquinho mais elevadas e essa hiper convivência em um período sem aulas, sem outros controles sociais, podem também ser uma observação de agravamento dessas tensões”, disse.>
A professora criminalista e doutora em Direito Penal pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Daniela Portugal, destaca que, em termos de políticas públicas, é preciso se concentrar no feminicídio em si, já que a consumação do fato está relacionada a um diagnóstico de segurança pública. >
“Uma vez iniciada a execução do feminicídio, já é prova viva de que o estado não acolheu nem protegeu suficientemente esta mulher. Falhou no seu dever de prevenção e a eventual não consumação do crime é pura sorte. Não podemos aqui, em uma demanda tão séria, contar com a sorte. Políticas públicas devem ser feitas com dados, estratégias de inteligência e instrumentos cautelares que evitem o pior”, diz Portugal.>
Entre os destaques negativos, a capital baiana lidera o número de ocorrências em 2026, com 11 casos. Já Feira de Santana ocupa o segundo lugar, com seis. Paulo Afonso e Vera Cruz aparecem com três cada, enquanto oito cidades baianas tiveram dois casos registrados e outros 34 municípios registraram apenas um.>
Somente considerando feminicídios neste ano, 93% aconteceram fora da capital baiana. De acordo com a desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), Nágila Brito, é comum que mais de 80% dos feminicídios ocorram no interior. Os números, no entanto, reforçam a subnotificação dos casos. “A resposta está na ausência de equipamentos no interior, a maioria não tem delegacia da mulher, não tem Casa da Mulher Brasileira, não tem ronda Maria da Penha, não tem monitoração, não tem CRAM, CRAS etc”, explica.>
A Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) ressaltou que investiu na ampliação do combate à violência de gênero nos últimos anos com as criações do Departamento de Proteção à Mulher na Polícia Civil, do Batalhão de Proteção à Mulher na Polícia Militar e do Baralho Lilás, ferramenta que exibe os rostos e nomes de criminosos que praticaram crimes contra mulheres. >
“As novas unidades reforçaram as ações preventivas e repressivas desempenhadas pelas unidades da Ronda Maria da Penha e da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) em todo o território baiano”, disse o órgão em nota enviada ao CORREIO.>
No âmbito preventivo, a Superintendência de Prevenção à Violência da SSP lançou a cartilha Meu Namoro é Massa, material distribuído em escolas públicas e privadas durante palestras que enfatizam o respeito e o combate à violência de gênero. Unidades do Departamento de Polícia Técnica também receberam implantações de Salas Lilás para garantir celeridade durante os procedimentos de perícia. Através do telefone 181 dois foragidos já foram alcançados.>
A Polícia Civil foi procurada pela reportagem e respondeu que não analisam dados de outros órgãos. A PC diz ter solicitado os dados relativos aos crimes mencionados para o Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal (Ispe), mas não retornou até o fechamento desta reportagem.>