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Larissa Almeida
Publicado em 29 de maio de 2024 às 22:44
As fibras extraídas da região Sisaleira da Bahia, que está situada no semiárido, no nordeste do estado, costumam ser utilizadas para a fabricação de cordas, tapetes, embalagens, produções arquitetônicas e variados tipos de artesanato. Esse tipo de uso, no entanto, não inclui o aproveitamento completo do material – que inclui os resíduos. É por isso que, pensando em mudar esse cenário, os produtores da região têm apostado em novas tecnologias que visam impulsionar a economia circular por meio da fibra do sisal. O tema, inclusive, foi um dos destaques do Encontro Mundial de Fibras Naturais, no início da tarde desta quarta-feira (29), em Salvador. >
O evento, que ocorreu na sede da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), promoveu a reunião conjunta dos Grupos Intergovernamentais de Fibras Naturais da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), da Organização Internacional de Fibras Naturais e da Câmara Setorial de Fibras Naturais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (CSFN/MAPA). O encontro foi organizado pelo Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais no Estado da Bahia (Sindifibras/Fieb) e pelas demais entidades privadas ligadas ao setor que cuidam da cadeia de fibras naturais do Brasil (sisal, juta, malva, coco, piaçava, bambu, seda e cânhamo). >
Presidente da INFO, da CSFN e do Sindifibras, Wilson Andrade destacou a importância de sediar o evento e incentivar discussões sobre o aproveitamento sustentável da fibra. “O Brasil é importante player no conjunto das fibras naturais, cuja produção anual é significativa e gera renda e emprego para mais de dois milhões de pessoas em regiões menos desenvolvidas e sem outras alternativas econômicas. Daí o nosso interesse que essas discussões ocorram no país, quando poderemos mostrar ao mundo as nossas vantagens e possibilidades de receber os incentivos, tecnologias e recursos que estão sendo destinados à evolução do novo mundo verde que visa o equilíbrio de geração e absorção de carbono”, disse. >
André Oliveira, superintendente de Novos Negócios & Planejamento e Executivo das Áreas Tecnológicas de Petróleo e Gás, Mineração e Agroindústria do Senai Cimatec, foi responsável por apresentar o painel sobre o semiárido baiano. Ele contou que há um projeto em curso de implantação do Cimatec Sertão, que vai beneficiar, principalmente, a região Sisaleira da Bahia a partir do aproveitamento da potência do sisal. >
“O sisal pode ir muito além do uso que é feito dele atualmente. É possível produzir, a partir da sua fibra natural, biogás e usá-lo em automóveis e na geração de energia elétrica. Os resíduos do sisal também podem ser aplicados para a alimentação animal. Esses são apenas alguns dos exemplos da aplicação de tecnologia utilizando essa fibra. O que nós queremos com isso é nos conectarmos com as possíveis aplicações, empresas, institutos e outras universidades baianas para tornar isso realidade”, afirma. >
No Cimatec, parte do sisal em compósitos foi usado para a criação de cadeiras e capacetes. Estudos iniciais também apontam a serventia dessa fibra natural para fabricação de fármacos. Segundo André Oliveira, com a chegada do Cimatec Sertão, o objetivo é que esses novos usos da planta beneficiem as famílias da região no dia a dia. >
“O que a gente quer é cada vez mais estar próximo das comunidades locais para que esses desenvolvimentos possam ter um efeito imediato no dia a dia deles. Na hora que for possível desenvolver um biogás, isso pode ser utilizado na cozinha em substituição ao GLP [gás liquefeito de petróleo], que não é renovável. Ou os resíduos do sisal podem substituir ou complementar a ração animal, fazendo com que o produtor possa criar mais ovinos e caprinos. São áreas que estamos muito focados com objetivo de muito rapidamente ter resultados e poder aplicar nessas comunidades”, pontua. >
Os benefícios também incluem a geração de emprego e renda. Apesar de ainda não haver estimativa em números, a expectativa é de que, por meio da aplicação da tecnologia no processo de beneficiamento do sisal, o semiárido baiano colha bons resultados na economia. “Buscamos, ao implantar novas tecnologias, particularmente no semiárido, criar cadeias de negócio, novas empresas e, com isso, gerar emprego e renda na região. Assim, retemos pessoas e talentos, e criamos um ciclo virtuoso”, reitera André Oliveira.>
*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro>