A cara da riqueza: quem são os candidatos com maior patrimônio das eleições na Bahia

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10.10.2020, 07:00:00
Atualizado: 10.10.2020, 10:19:45

A cara da riqueza: quem são os candidatos com maior patrimônio das eleições na Bahia

Pelo menos três dos que disputam cargos eletivos este ano têm patrimônio de mais de R$ 100 milhões: são dois empresários e um advogado

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O apostador que levou, sozinho, o prêmio de R$ 103 milhões sorteado esta semana pela Mega Sena viu o patrimônio crescer e a conta bancária alcançar os nove dígitos. Um sonho para milhões de brasileiros, mas que já é realidade para pelo menos três candidatos que disputam as eleições de 2020 na Bahia. Eles querem ser prefeitos ou vice-prefeitos em cidades do estado e acumularam bens ao longo dos anos em outras atividades, que não a política.

De acordo com dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dois empresários e um advogado lideram a lista dos candidatos com maior patrimônio na Bahia. Teobaldo Costa, natural de Salvador, dono do Atakarejo, encabeça a lista que tem 41.171 candidatos em todo o estado. É a primeira vez que ele se candidata e o objetivo é ser prefeito de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS).

Os bens declarados pelo candidato somam R$ 341,2 milhões. Além do Atakarejo, Teobaldo também tem cotas de capital da Damrak do Brasil – empresa de aluguel de imóveis – e declarou uma aplicação em renda fixa e uma Land Rover.

A reportagem não conseguiu contato com o candidato. Seu site, no entanto, diz que após uma série de desafios ao longo do 65 anos de vida, ele decidiu encarar mais um: o da política. “Por dois anos, Teobaldo percorreu as ruas e localidades do município de Lauro de Freitas, identificando as necessidades e dificuldades vividas pela população”, diz o texto sobre o empresário formado em Economia, que já foi feirante, taxista e até gandula.

Mestrado como projeto de governo

O segundo da lista é Dr. Gomes (PSC) – nome de urna de José Antônio Gomes dos Santos, candidato a vice-prefeito de Alagoinhas, Nordeste da Bahia, sua cidade natal. Ele também não é um nome conhecido da política – está cadastrado no DivulgaCand como advogado, mas também é empresário, sócio majoritário da Faculdade de Tecnologia e Ciência da Bahia (Fatec), da academia Agoge e tem prédios comerciais, carros, duas casas e um apartamento, totalizando R$ 179 milhões em bens.

Esta é a primeira vez que Dr. Gomes se candidata a um cargo público. Ele conta que sempre viveu em Alagoinhas e que sua formação foi entre a cidade natal e Salvador. O programa de governo defendido por ele é sua dissertação de mestrado.

“Eu consigo comprovar que com 10% do orçamento público consegue-se acabar com a miséria. Me refiro à miséria, não à pobreza. É que, em verdade, o que sempre faltou foi vontade política para solucionar os problemas sociais”, disse.

Mesmo com uma carreira consolidada em outra área, o advogado e empresário afirmou que decidiu se candidatar porque percebeu a ausência de homens sérios na política.

Supermercados e avião
Com R$ 170,2 milhões em patrimônio, o último dos candidatos com uma conta de nove dígitos é João Gualberto. O empresário, dono da rede de supermercados Hiperideal, tenta ser, mais uma vez, prefeito de Mata de São João – cidade que já governou por oito anos, de 2004 a 2012. Também foi eleito deputado federal pela Bahia, embora seja natural da cidade de Itabaiana, em Sergipe.

Gualberto pode não ter o maior patrimônio, mas tem a maior lista de bens entre os candidatos mais ricos desta eleição: são 78 itens, incluindo cotas de participação em sociedades, empréstimos, veículos, casas, um apartamento e até uma aeronave, avaliada em R$ 2,9 milhões. Para ele, os empresários podem contribuir na administração pública.

“A gente reclama tanto dos governantes, foi isso que me motivou a entrar na política, lá atrás. Eu achei que podia contribuir e continuo até hoje por causa disso. Os empresários, como é o meu caso, do ramo de supermercados, têm muita dificuldade por conta da burocracia, mas a elite econômica reclama muito e pouco faz”, declarou Gualberto. Ele conta, inclusive, que foi o responsável por levar Teobaldo para a política, outro do setor de supermercados.

A lista dos cinco candidatos com o maior patrimônio nestas eleições inclui ainda o ex-governador Nilo Coelho, que disputa o cargo de prefeito na cidade de Guanambi, no Centro-Sul da Bahia, e tem patrimônio declarado de R$ 59,8 milhões.

O 5º do ranking é, segundo o TSE, Wilker Carneiro (Novo), candidato a vereador em Feira de Santana, no Centro-Norte. No site do partido Novo, pelo qual se candidatou, ele afirma que é empreendedor, já teve forte presença na distribuição de combustíveis e, hoje, e atua na indústria de bebidas para exportação.

Wilker e Nilo Coelho não foram localizados para confirmar se as informações das declarações estavam corretas. 

O ranking, inclusive, pode mudar, porque o TSE fez retificações desde o início da semana.

Da noite para o dia
Para chegar aos cinco candidatos mais ricos desta eleição, a reportagem ‘eliminou’ mais do que o dobro desse número da lista divulgada pelo Tribunal Super Eleitoral. É que os erros de preenchimento da declaração de bens fizeram com que candidatos se tornassem milionários da noite para o dia. Questionados sobre o valor do patrimônio divulgado, a maioria dos candidatos que aparecia no topo reagiu entre o riso, a indignação e o desejo de que aquilo fosse verdade.

Com erros no preenchimento, eles pediram a retificação dos valores ao TSE e, na última terça (6), pelo menos dois já tinham deixado a lista oficial dos mais ricos. Foi o caso de Ítalo Romano, candidato a vereador de Salvador que ocupava o topo do ranking, com quase meio bilhão de reais em patrimônio – R$ 541,8 milhões, mais especificamente. Antes da correção, ele era o dono do maior patrimônio entre todos os 41.171 candidatos do estado.

Ítalo, que é auditor fiscal, entrou com uma petição no dia 21 para corrigir os dados. Segundo ele, a aplicação na qual aparece o valor de R$ 541,6 milhões é, na verdade, de R$ R$ 541,6 mil – 10% do que constava no registro.

“Se eu tivesse R$ 500 milhões, para que eu ia querer ser vereador? Eu queria ter, mas...”, brinca o candidato, que também dá aulas de direito previdenciário pela internet e se apresenta como o vereador que será o fiscal das contas públicas.

Segundo ele, os dados foram preenchidos pela contabilidade do partido ao qual ele é filiado, o Patriotas. “A gente viu esse erro de mais de três zeros. Foi um equívoco no preenchimento. Na minha função de ser auditor fiscal, ainda piora. Imagine, como é que um auditor da Receita Federal tem tanto dinheiro assim? Eu gostaria muito de ter, mas não tenho”, garante Ítalo, que é casado com uma auditora fiscal e divide com ela a aplicação. Na segunda-feira, o valor tinha sido corrigido e o patrimônio de Ítalo atualizado para R$ 1,3 milhão.

Zeros a mais
Candidata a vereadora pela primeira vez em Salvador, a engenheira e professora aposentada Doroteia Sobral também afirmou que os dados em sua ficha não estão corretos. Para o TSE, ela tem R$ 113,4 milhões em bens, mas ela afirma que o valor correto é em torno de R$ 113 mil – ou seja, há três zeros a mais na conta. Na verdade, ela soube pelo CORREIO que ‘tinha’ tanto dinheiro assim.

“Veja, eu sou engenheira e professora, eu me aposentei com doutorado e tenho 40 anos de profissão. Eu tenho um patrimônio, moro na Pituba, vivo num apartamento legal, mas ainda faltam dez anos para terminar de pagar”, disse, aos risos.

Doroteia contou que vai procurar o escritório de advocacia contratado pelo partido Novo para fazer o preenchimento e pedir uma correção junto ao TSE. O maior bem na declaração da professora é uma parte de um apartamento recebido de herança dos pais, no valor de R$ 112,5 milhões. “Coitado, o único bem que meus pais deixaram para quatro filhos. Eu tenho mais três irmãos, deve ser R$ 112 mil. Hoje, ele deve valer uns R$ 300 mil”, explica a candidata, que declarou o valor que consta na escritura.

O advogado Dr. João, candidato a vereador pela terceira vez em Tucano, no Nordeste da Bahia, riu ao ser perguntado sobre o patrimônio de R$ 170,5 milhões. “Eu não tô sabendo disso. Eu tenho uma casa, três tarefas de terra na roça e uma Hilux”, disse o candidato. O carro, segundo ele, está avaliado em R$ 170 mil, mas aparece na declaração de bens valendo R$ 170 milhões. Dr. João disse vai procurar o contador responsável pela declaração e pedir retificação.

Em Maragogipe, um rapaz chamado Ícaro, filho de Gege, que é candidato a vereador na cidade do Recôncavo da Bahia, foi a pessoa mais próxima do candidato localizada. No TSE, até a sexta-feira da semana passada, Gege aparecia como o sétimo candidato com mais bens em toda a Bahia, dono de um patrimônio de R$ 120,1 milhões. Ele declarou ter duas casas – uma avaliada em R$ 100 mil e outra em R$ 120 milhões.

O filho disse não ter uma relação muito próxima com o pai e a reportagem não conseguiu contato direto com Gege. Em Maragogipe, moradores afirmaram que ele é artista – se apresenta na cidade como músico, artesão e dançarino. Na segunda-feira, a declaração estava retificada e lá constava apenas uma casa avaliada em R$ 100 mil. Gege também deixou de ser milionário da noite para o dia, mas o novo valor ainda não tinha sido atualizado para o repositório do TSE até a noite da última quarta (7).

O que os candidatos precisam declarar
Não existe uma regra que diga como a declaração de bens deve ser feita à Justiça Eleitoral ou que valor deve ser considerado – o de marcado ou aquele que consta na escritura do bem.

“O candidato tem que declarar, em tese, o valor do imóvel que ele possui, mas, como não existe uma regra específica, a gente entende que deveria ser o valor de mercado”, explica Jaime Barreiros Neto, que é professor de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA).

A responsabilidade por lançar os dados no sistema de registro de candidaturas é, oficialmente, dos partidos. Cabe ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) somente transferir esses dados preenchidos para o sistema DivulgaCand, que reúne dados sobre candidatos e eleitores de um pleito. O TSE foi procurado, mas não respondeu até o fechamento desta edição.

Segundo Barreiros, irregularidades na declaração podem resultar em impugnação da candidatura e até em punições no âmbito criminal. É o que estabelece o artigo 350 do Código Eleitoral Brasileiro, que estabelece até cinco anos de reclusão para quem omite, em documento público ou particular, declaração que deveria constar nele, ou ainda quem insere informações falsas num documento para fins eleitorais.

Mas, o analista admite que, quando não há denúncias por parte do Ministério Público, de um outro candidato ou de uma coligação, os erros passam despercebidos. “São muitos candidatos, sempre tem a possibilidade de algum erro. Se não houver uma apuração desse erro, do MP, do candidato adversário, de partido ou coligação, esse erro passa despercebido. Mas, se for proposta uma ação de impugnação, há uma possibilidade de indeferimento de registro da candidatura”, afirma.

Patrimônio traz vantagem?
O cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Jorge Almeida chama a atenção para a multiplicidade de perfis – e contas bancárias – de candidatos. “A política sempre teve pessoas ricas e pessoas sem nenhum tipo de patrimônio. Acho que a maioria dos candidatos realmente não são pessoas que têm patrimônio, às vezes tem pessoas que têm um carro, uma casa, às vezes menos do que isso. Tem candidaturas q são lideranças na periferia”, aponta.

Mas, para ele, ter um patrimônio elevado não significa, necessariamente, uma vantagem na disputa.

“Não necessariamente os mais abastados são os eleitos. Os mais abastados podem comprar votos, em tese, podem fazer campanhas mais volumosas. Muitas vezes são pessoas que, por serem ricas, têm mais prestígio, são comerciantes, têm mais prestígio na sociedade. E algumas pessoas consideram que quem enriquece é mais competente”, afirma.

O candidato pode usar, do próprio bolso, até 10% do teto do limite de gastos da campanha.

Outro argumento ainda muito usado em campanhas políticas é o de que candidatos com uma boa condição financeira tendem a não ser corruptos. “Eu não sei se esse argumento cola, mas eles continuam usando, para que a pessoa pense: ‘Vou votar numa pessoa que é rica, porque é rica e não precisa roubar”, explica.

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