A imunidade não sumiu: para especialistas, é cedo para dizer quanto dura proteção da vacina

coronavírus
21.08.2021, 05:30:00
Atualizado: 23.08.2021, 10:47:07
(Paula Fróes/CORREIO)

A imunidade não sumiu: para especialistas, é cedo para dizer quanto dura proteção da vacina

Entenda por que a resposta imune das vacinas vêm diminuindo e saiba motivo de ainda não ser possível dizer quando proteção vai expirar

“Até hoje não há uma indicação de que a imunidade sumiu”.

A declaração do microbiologista Flávio Guimarães da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, talvez pudesse dar um fim às discussões sobre, afinal de contas, quanto dura a proteção das vacinas contra a covid-19. Mas, com a pandemia em andamento e menos de um ano após o início da vacinação, as coisas não são tão simples assim. Dia após dia, surgem perguntas e se acumulam dúvidas, sobretudo quando as mensagens nas redes sociais se multiplicam com previsões das mais pessimistas: de que a proteção das vacinas já expirou, de que a imunidade de uma determinada vacina só vale por seis ou oito meses e, pior, de que idosos e profissionais de saúde, os primeiros vacinados, já não têm sequer um anticorpo para enfrentar o coronavírus. 

Pesquisador do Comitê Científico do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio faz alguns apontamentos: o primeiro é que não, ainda não existe nenhum estudo que diga que a imunidade, mesmo a dos primeiros vacinados, tenha expirada; o segundo é que ainda é cedo para ter essas informações com tamanha precisão. Contudo, alerta, está mesmo na hora de começar a entender essas nuances – até porque, e isso é praticamente um ponto pacífico entre pesquisadores, a proteção de fato diminui com o tempo e uma dose de reforço será mesmo necessária. O que não se sabe, ainda, é quando. 

“A gente precisa realmente pensar e começar a entender a longevidade, a duração da resposta imunológica, seja a conferida pela vacinação ou por quem teve a doença. Mas, a gente não tem todas as respostas. Aí, sim, é cedo. As primeiras pessoas vacinadas ainda não completaram um ano de vacinação, esses dados ainda estão sendo gerados”, explica o pesquisador. 

E não é por lentidão nas pesquisas que as informações ainda não estão disponíveis.

“Todas essas vacinas foram desenvolvidas de uma forma emergencial, dentro de um cenário que a gente não tinha vivido ainda. Então, a gente ainda não tem muitos dados objetivos que nos digam por quanto tempo essas vacinas duram. A gente ainda está aprendendo, não só porque as vacinas são novas, mas porque o vírus está sofrendo mutações”, completa a epidemiologista Mariur Gomes Beghetto, professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS). 

São muitos os fatores que influenciam na duração de uma resposta imunológica: a genética dos vacinados e as mutações do vírus estão entre eles. “Se é uma doença que as pessoas têm uma vez na vida, como o sarampo, a poliomielite, a vacina produzida vai durar muito. As doenças para as quais há mutações demais, como a HIV, hepatite C, a gente ainda nem consegue fazer vacina”, pontua a epidemiologista Gerusa Figueiredo, professora do Instituto de Medicina Tropical da USP e integrante do grupo Ação Covid-19.

Até a tecnologia usada entra na jogada. “As vacinas de vírus inativado normalmente têm um tempo [de proteção] mais curto. As vacinas de vírus atenuado têm um tempo mais longo. Agora, nós estamos com duas vacinas novas, que nunca foram usadas no contexto humano, que é a de vetor viral (adenovírus) e o RNA mensageiro. A gente vai ter que aguardar para entender à medida que a imunidade envelhece”, avalia Flávio Fonseca.

Sobe e desce de números
Mas, independente de quanto tempo a proteção de uma vacina dura, também é consenso que elas seguem funcionando. Um bom indício disso é que, após o início da vacinação, houve uma queda significativa nos óbitos e internamentos justamente desse primeiro público vacinado - e com a CoronaVac, a vacina do Butantan largamente atacada nas redes.

De acordo com números do DataSUS, idosos respondiam por mais de 77% das mortes por covid no Brasil em janeiro, quando a vacinação começou. Esse percentual foi caindo até chegar a 45% em junho. No final daquele mês, voltou a subir e, na primeira semana de agosto, os idosos já eram maioria entre os mortos de novo (51%). O percentual entre os internados, que tinha caído de 63% em janeiro para 31% em junho, chegou a 42% em agosto. As altas nos números podem estar relacionadas, segundo pesquisadores, tanto à diminuição da proteção quanto ao surgimento da variante delta. 

Na Bahia, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, os idosos eram 77,4% do total de mortos por covid-19. No início de junho, eram 49,6%. Entre o final de julho e o início de agosto, voltaram a ser maioria (54,4%), segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

Se há uma boa notícia em meio a tantas mortes é que os vacinados são pouquíssimos entre as vítimas fatais - e os números absolutos estão caindo. Um levantamento feito pela plataforma Info Tracker, de pesquisadores da USP e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), aponta que os vacinados são 3,68% dos óbitos por covid no Brasil até 27 de julho. Ainda não há dados da Bahia. 

Além de tudo, ainda há outro fator que explica por que há mais idosos sendo internados e até morrendo de covid, mesmo vacinados. É que eles, naturalmente, costumam ter uma resposta imune menor a vacinas. Por isso mesmo, os cuidados devem continuar mesmo após a vacinação.

“Nenhuma dessas vacinas foi estudada inicialmente nas populações especiais e é justamente essa população que a gente sabe que responde pior para toda e qualquer vacina”, afirma a pediatra e imunologista Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Ela usa como exemplo, além dos idosos, pessoas com hepatite B, imunossuprimidos e transplantados. Estes podem ter indicação para uma terceira dose de vacina contra o sarampo, coisa que a população como um todo não tem. 

Países se antecipam
Os dados sobre quanto tempo dura a proteção das vacinas estão sendo coletados e não devem demorar a sair, dizem os especialistas. Mas, diante da atuação da delta e da constatação de que a proteção reduz, alguns países decidiram se antecipar. No final de julho, Israel, que já tem 63% de sua população com o esquema vacinal completo, começou a aplicar uma terceira dose.

Por lá, idosos têm sido mais afetados, o que poderia indicar uma relação com a duração da proteção. Mas, ao mesmo tempo, é à variante delta que o Ministério da Saúde do país atribui os novos casos. 

Uruguai e Chile, com 70% e 68% da população imunizada, respectivamente, também já partiram para uma terceira dose. Nesta quarta-feira (18), foi a vez dos Estados Unidos anunciarem que pretendem começar a reforçar a proteção a partir de 20 de setembro nas pessoas que completem oito meses após a segunda dose.

No mesmo dia, o ministro da Saúde do Brasil, Marcelo Queiroga, pediu um estudo para verificar uma estratégia de aplicação da terceira dose em idosos e profissionais de saúde por aqui, ainda sem data. Mas, se não há estudos ainda que digam quando a proteção expira, o que explica os oito meses dos norte-americanos? 

‘Maximizar a proteção’ 
Uma comissão de especialistas do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos atribuiu à decisão à constatação de que a proteção, mesmo das vacinas mais eficazes, diminui com o tempo. Associado a isso está a ação da variante delta, predominante no país e responsável por 80% dos novos casos surgidos na véspera do anúncio. A meta não é repor uma proteção que, porventura, pudesse já ter expirado, mas “maximizar a proteção” diante da ameaça da variante delta. 

“Os dados disponíveis deixam muito claro que a proteção contra a infecção por SARS-CoV-2 começa a diminuir ao longo do tempo após as doses iniciais de vacinação e em associação com a dominância da variante delta, estamos começando a ver evidências de proteção reduzida contra doenças leves e moderadas”, disseram os especialistas, em nota distribuída pelo CDC.

Entre os signatários estão a principal autoridade médica dos Estados Unidos, o infectologista Anthony Fauci, e os médicos David Kessler, Marcella Nunez-Smith, Rachel Levine, Francis Collins, Vivek Murthy e Janet Woodcock, todos ligados às principais decisões sobre a pandemia no país. 

Prevendo que a atual proteção contra doenças graves, hospitalizações e mortes pode reduzir nos próximos meses, o país decidiu se antecipar para “maximizar a proteção induzida pela vacina e prolongar sua durabilidade”. Os números levados em conta pelos Estados Unidos saíram de três estudos recentes que mostram que, agora, quase oito meses após os primeiros imunizados completarem o esquema vacinal, a proteção entre os idosos caiu de 74% para 53% – o que fez subir as hospitalizações. Eles receberam as vacinas da Pfizer e da Moderna e devem ganhar uma terceira dose – desde que a agência reguladora de medicamentos conceda autorização para isso. 

Os oito meses mencionados pelos Estados Unidos não são o único ‘prazo’ que aparece por aí. Uma pesquisa divulgada esta semana por integrantes do grupo interdisciplinar Ação Covid-19, no Brasil, menciona dois trabalhos – ainda não revisados por pares, ou seja, em estágio preliminar – que falam sobre o início de uma redução da proteção da vacina a partir de seis meses após a aplicação da primeira dose. Para o grupo, esta possibilidade condiz com o comportamento de vírus sazonais, como o da gripe – o que também indica que esperar por uma imunidade de rebanho para que as coisas voltem ao normal pode resultar em “cenários de extrema fatalidade”. 

Problema ético 
Falar em ‘sumiço’ da imunidade fornecida pelas vacinas, inevitavelmente, leva à discussão sobre a aplicação de uma dose “extra” em partes diferentes do mundo. Este foi o termo usado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) ao fazer um apelo aos países desenvolvidos para que suspendam a aplicação de novas doses em suas populações, a fim de reduzir a desigualdade na imunização. 

“Dez países aplicaram 75% de todo o estoque de vacinas, enquanto os países de baixa renda vacinaram apenas 2% da população”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhannom.

Segundo dados da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, apenas 24,2% da população mundial recebeu as duas doses da vacina até agora – e as pesquisas indicam que elas são eficazes, inclusive contra a variante delta, desde que as pessoas completem o atual esquema vacinal. No Brasil, os que completaram o esquema são menos de 30%. 

Para Flávio Fonseca, isso passa por uma questão ética. “Existe uma discussão muito ferrenha sobre aplicar uma terceira dose, se já seria importante, e há pesquisadores no mundo inteiro que acham que nós não temos dados certos sobre decaimento da proteção para dizer que já é necessário fazer uma terceira dose. Seria um desperdício de recurso, porque a vacina está tão escassa. Então, como nós vamos começar a aplicar a terceira dose se não conseguimos nem completar ainda a segunda?”, questiona. 

Para Flávia Bravo, o apelo da OMS deveria ser levado em conta.

“Em termos globais, enquanto os países ricos não entenderem que não adianta dar 15 doses na população deles enquanto tem países que não conseguem dar duas, a gente não vai ter chance de controle. A gente não pode pensar só na gente”, afirma. 

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O que é preciso saber sobre a covid-19 depois das vacinas

O grande volume de dúvidas, muitas delas geradas por desnformação nas redes, a respeito da pandemia depois das vacinas levou o Instituto Butantan a produzir um material com perguntas e respostas sobre o assunto para o público em geral. O que o Instituto responsável pela vacina CoronaVac no Brasil faz questão de destacar é que o imunizante sege protegendo as pessoas - e que é importante vacinar o máximo de gente possível. Infecções, internações e até mortes de pessoas vacinadas não significam que a vacina não protege.

"Um ponto importante da vacinação é a redução do número de mortes, que está evidente. Todos acompanharam as notícias sobre os testes clínicos que estão sendo realizados ou que foram realizados. Existem casos onde, num ensaio clínico com número reduzido, você pode dizer que não houve morte e depois num esquema vacinal populacional inteiro, você vê um número reduzido de mortes. Mas isso não demonstra de forma alguma que a vacina não é eficaz e que o dado primeiro é mentiroso", esclarece Ana Maria Chudzinski - Diretora do Centro de Desenvolvimento e Inovação do Instituto Butantan.

Veja perguntas e respostas publicadas pelo Butantan e entenda simulação feita pelo grupo de pesquisa Ação Covid-19 sobre a pandemia para 2022:

1. Já tomei a segunda dose ou a dose única há duas semanas. Ainda posso pegar covid-19?
Sim. Uma pessoa com o esquema vacinal completo ainda pode pegar covid-19 e transmiti-la a outras pessoas. Mas, na maioria dos casos, uma pessoa vacinada não vai ficar doente ou vai desenvolver uma infecção assintomática ou leve.

2. Por que tem gente morrendo de covid-19 mesmo estando vacinado?
A vacinação é um ato coletivo: quanto maior o número de pessoas imunizadas, menos o vírus circula e menos gente morre por causa da doença. Até lá, a covid-19 continuará fazendo vítimas fatais – porém, em pequeno número entre os vacinados.

3. Qualquer pessoa vacinada pode desenvolver um caso grave de covid-19?
Sim, mas há fatores que aumentam o risco. A resposta imune costuma ser menor em pessoas idosas e imunossuprimidas. Isso não quer dizer que os mais velhos não estejam protegidos contra a doença, mas que o organismo responde menos a um antígeno novo. 

4. O que mais posso fazer para me proteger da covid-19 se já estou vacinado? 
Enquanto o SARS-CoV-2 estiver presente nas nossas cidades, com novas variantes surgindo cada vez mais agressivas e transmissíveis, ele continuará sendo uma ameaça e causando óbitos. Por isso, além de tomar as duas doses das vacinas respeitando o intervalo preconizado (em relação às vacinas com duas doses), é preciso continuar mantendo todas as recomendações sanitárias: manter o isolamento social, usar máscara e higienizar sempre as mãos com água e sabão ou álcool gel. 

5. E se a proteção da vacina durar um ano ou um ano e meio?
O grupo de pesquisa interdisciplinar Ação Covid-19 fez uma simulação sobre o quadro da pandemia no Brasil em 2022 pensando em dois possíveis ‘prazos’ de duração da proteção da vacina, associado ao índice de proteção ao vírus e densidade populacional. Numa cidade do tamanho de Olinda (PE), com baixo índice de proteção e alta densidade populacional e com a proteção da vacina durando um ano, o cenário seria de 71,5% da população infectada 720 dias após o início da vacinação. O número seria 12% maior do que numa cidade com densidade populacional menor e o dobro do cenário em uma cidade com alto índice de proteção, baixa densidade populacional e proteção da vacina prolongada para um ano e meio.

6. O que isso significa?
Segundo os pesquisadores, “em todos os casos estudados, a imunidade prolongada reduz o número de pessoas infectadas, independente da densidade populacional e do índice de proteção ao vírus”. Num cenário com imunidade da vacina durando um ano, é esperada uma nova onda a partir de 400 dias do início da vacinação - abril/maio de 2022. “Caso a imunidade seja mais longa, 18 meses ou mais, essa segunda onda apresenta um pico menor e se iniciaria após 600 dias, ou seja, algo próximo a setembro de 2022”.

Fontes: Instituto Butantan, CDC e Grupo Ação Covid-19

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