A luta das mulheres por um home office mais justo e leve

empregos
18.05.2020, 06:00:00
Mônica Hauck sugere que as mulheres estabeleçam prioridades ao longo do dia e foquem nelas para que a organização das tarefas seja melhor (Divulgação)

A luta das mulheres por um home office mais justo e leve

Especialistas mostram como elas podem trabalhar em casa sem sobrecarga de afazeres

Em momentos como o que vivemos, o jornalismo sério ganha ainda mais relevância. Precisamos um do outro para atravessar essa tempestade. Se puder, apoie nosso trabalho e assine o Jornal Correio por apenas R$ 5,94/mês.

As mulheres trabalham três horas a mais por semana que os homens. A carga de trabalho leva em consideração as funções remuneradas, as doméstica e o cuidado com as pessoas da família (filhos e marido). A sobrecarga de trabalho e os resultados profissionais menores ficam ainda mais evidentes em tempos de distanciamento social e com as mulheres assumindo o trabalho profissional e as atividades do lar em tempo integral. 

Para a CEO da Sólides, plataforma de RH especializada em gestão comportamental e recrutamento, Mônica Hauck, se não houver nenhum rearranjo doméstico neste momento ou uma reflexão sobre o papel de cada um dentro de casa, em pouco tempo, o home office e a quarentena se tornarão um problema na vida das pessoas, afetando até mesmo a saúde e as relações familiares, pois as mulheres terão uma sobrecarga muito desigual.

A psicóloga Isabella Barreto, que desenvolve um programa de acolhimento de mulheres durante a pandemia (Acolher Psi), lembra que, culturalmente, a mulher é responsável pela nutrição, educação e bem estar da família. “Quando a presença dela em casa fica em tempo integral, ela é automaticamente cobrada a assumir por completo, ou com maior participação, as tarefas domésticas e cobrada a atender todos da família”, pontua, salientando que todos os integrantes de uma família são partícipes das tarefas da casa.

Para a psicóloga, a mudança desse quadro passa pela compreensão que a mulher não precisa de ajuda, mas da participação de todos. “Não é obrigação da mulher fazer mais que os outros. As tarefas e manutenção da casa devem ter a participação de todos que residem permanentemente ou temporariamente, já que todos vão usufruir e se beneficiar dos resultados”, destaca.

Prioridades

Mônica salienta que o lar é uma mini sociedade, por isso mesmo, os rearranjos precisam ser discutidos entre todos os moradores. “Hoje, mulheres e homens trabalham fora e precisam cuidar dos filhos e de casa, logo, as tarefas precisam ser igualmente distribuídas de acordo com a competência de cada um e com o tempo de cada um”, diz.

Para ela, é necessário haver uma priorização de tarefas para que as mulheres mantenham sanidade e produtividade. “A grande questão aqui é entender o que realmente é importante e necessário para assim colocar uma energia proporcional a essa prioridade, entendendo que neste momento, algumas coisas terão de ser deixadas para segundo plano”, diz.

Desafio

A artesã e micro empreendedora Ludmila Vieira faz geladinhos gourmets sob encomenda  e atua como  profissional de saúde. Em tempos de quarentena, ela, o marido e o filho precisam se dividir  entre o trabalho e as atividades domésticas. Ela, como uma boa parte das mulheres, precisou redescobrir uma forma de equacionar vida profissional, empreendedorismo e tarefas do lar. Ela reconhece que é um super desafio  ter que trabalhar tendo uma criança pequena em casa o dia todo, especialmente porque é necessário se organizar pensando no filho. “Ele depende de mim pra ter o mínimo de rotina”, diz.

A diretora do Shopping Bahia Outlet Center, Coordenadora Estadual da Câmara da Mulher Empresária da Fecomércio e  Vice presidente da Associação Comercial da Bahia, Rosemma Maluf, garante que a quarentena é uma ótima oportunidade para mudar essas expectativas sobre o papel da mulher no ambiente doméstico. 

Rosemma defende que esse é um período excelente para quebrar velhos paradigmas que deixam as mulheres sobrecarregadas (Foto: Divulgação)

“As mulheres são 44% dos chefes de família no Brasil. Estamos falando de direitos humanos e oportunidades iguais. Igualdade é diferente de equidade”, ressalta. Para Rosemma, é o cenário de crenças limitantes da cultura machista que invisibiliza as mulheres e as leva a acreditar que são incapazes ou inferiores.

Isabella diz que não existem fórmulas prontas ou receitas de bolo, mas que a possibilidade de equilibrar esses universos em tempos de quarentena (e fora dela também) passa pelo reconhecimento da necessidade de um tempo para si mesma, para o lazer e para o prazer pessoal. “As crianças possuem uma condição de perceber que a gente, muitas vezes, subestima. Converse francamente com os filhos sobre o tempo de conviver e o de trabalhar. Prefira dar qualidade ao tempo destinado à convivência e chame para a colaboração e o companheirismo nesse período”, conclui. 

Dicas para harmonizar os trabalhos


1.    Crie códigos, incentivos e rituais com os filhos. Por exemplo: se a porta está fechada não é uma boa hora para entrar, mas se estiver aberta sim. 
2.    Oriente as crianças sobre os sinais sobre onde eles podem ou não avançar, além de criar canais de recompensa para que essa prática seja seguida com maior incentivo.
3.    Discuta as responsabilidades de todos dentro de casa. Se uma casa limpa é desejada e faz bem a todos, todos têm que limpar. Se se quer um espaço agradável, todos tem que contribuir. 
4.    Aproveite para refazer o pacto social que já existia e reduza a cultura que é muito focada na sobrecarga do feminino no ambiente doméstico.
5.    Priorize as atividades laborais que precisam ser feitas em horário definido e não misture com as atividades domésticas.
6.    Experimente reduzir o grau de exigência no que diz respeito ao lar. É hora de flexibilizar as oportunidades e aprender a viver na excepcionalidade.
7.    É mais cansativo e pesado tentar reproduzir uma normalidade que não existe, afinal, não faz sentido ter a vida de antes da pandemia
8.    Se permita o tempo do descanso e do prazer pessoal.
9.    Perceba a rotina não como uma obrigação chata, mas como a disciplina necessária para cumprir as tarefas necessárias.
10. Se permita viver os sentimentos conflitantes sem culpas. A situação é complexa para todos.
 

***

Em tempos de coronavírus e desinformação, o CORREIO continua produzindo diariamente informação responsável e apurada pela nossa redação que escreve, edita e entrega notícias nas quais você pode confiar. Assim como o de tantos outros profissionais ligados a atividades essenciais, nosso trabalho tem sido maior do que nunca. Colabore para que nossa equipe de jornalistas seja mantida para entregar a você e todos os baianos conteúdo profissional. Assine o jornal.


Relacionadas