A moça da faxina, essa personagem feminina

quantA
03.01.2020, 05:50:00

A moça da faxina, essa personagem feminina

Ana Paula Bouzas (divulgação)

Vânia é uma mulher nordestina que ocupa o lugar da “moça da faxina”, como tantas outras. “É uma trabalhadora que integra um sistema explorador de estrutura patriarcal e autoritária, ocupando o espaço que lhe foi deixado como herança ou que lhe foi imposto como possibilidade de sobrevivência. (...) Ao mesmo tempo, faz disso tudo a arma para sua revolução”, diz Ana Paula Bouzas que, entre o próximo dia 18 e 09/02, vestirá a pele dessa mulher que conhecemos tão bem. Em “Inferno”, a atriz vive uma diarista que compartilha com o público seu olhar sobre ela mesma e seus patrões, revelando pensamentos e contradições do seu mundo invisível. A montagem é dirigida por Fábio Espírito Santo e tem curta temporada no Teatro SESI Rio Vermelho, sempre aos sábados e domingos, às 20h. “Inferno” é o sexto trabalho solo da atriz, bailarina e coreógrafa baiana Ana Paula Bouzas, que atua ainda nas funções de diretora, diretora de movimento e preparadora de elenco, em diversos projetos.

QUANTA – A diarista, a "moça da faxina", é a empregada doméstica "uberizada"?

Ana Paula - A “uberização” é um termo contemporâneo usado para se referir à precarização de algumas relações de trabalho, onde há uma exploração da mão de obra por grupos centralizadores de poder e privilégio, dentro de um discurso falso de autonomia e empreendedorismo. Penso que a relação de trabalho na qual a diarista está inserida tem uma raiz ainda mais complexa, que envolve outras questões e demanda diferentes reflexões. Se a gente for pensar na situação da trabalhadora doméstica, no país, a gente pode mesmo dizer que é o contrário: a “uberização” é uma “diaristização” em larga escala. A PEC das domésticas não tem nem dez anos, ou seja, os direitos trabalhistas das empregadas domésticas foi assegurado por lei há pouquíssimo tempo. E a gente ainda vê muita gente que não cumpre a legislação.

Q - O que a existência, estrutura e nome do "quarto de empregada" ainda diz sobre nós?
AP - Diz sobre o quanto somos perigosos, o quanto não conseguimos evoluir e nos rever em todo esse tempo de construtores cúmplices de uma sociedade imensamente desigual, erguida sobre a lógica da exploração e da manutenção de privilégios. Diz sobre a enorme dificuldade que temos de nos deslocar dos nossos espaços privados e confortáveis e de revolucionar verdadeiramente estruturas arcaicas. Fala sobre o quanto ainda sabemos e vivemos muito pouco o amor e o quanto somos ignorantes ao tratar o outro como alguém que não nos diz respeito. (...) O quarto de empregada é a versão atual da senzala, com certeza. E sua existência e sua organização são uma materialização dentro de casa de toda uma estrutura desigual das nossas cidades.

Q - É comum escutar que domésticas (ainda que diaristas) são "parte da família". Que parte da família é essa?
AP - Não são parte da família, de qualquer família para a qual estejam trabalhando. Isso é irreal e todos sabemos disso. Esse discurso da “parte da família” é uma forma de perpetuar desigualdades, de não garantir direitos, de explorar mais, de conseguir pelo discurso do “afeto” o que o discurso do “dinheiro” não consegue. A família é uma parte fundamental da estrutura da sociedade, da manutenção de privilégios, da preservação do patrimônio, mas a trabalhadora doméstica não tem esses direitos.

Q - Como se desenvolveram, ao longo do tempo, as suas relações com quem lhe presta esse tipo de serviço?
AP - Foram relações diversas, em períodos distintos. É um círculo realmente difícil de quebrar. Mas na medida em que vamos acendendo a consciência, apurando o olhar e a escuta sobre nossa história e seus ecos, nos vemos mais desafiadas e comprometidas com a tentativa de demolir essa estrutura colonial. É um exercício de reconstrução diário em muitas esferas, que exige insistência e vigilância. (...)

Q - Acha que esse lugar de invisibilidade onde colocamos as "moças da faxina" ainda é um resto do nosso passado colonial e escravagista?
AP - Sem dúvida, mas acho curioso que a gente chame isso de “resto” ou de “passado”. Essas bases colonizadoras e escravagistas da nossa sociedade são muito mais fortes do que um simples resto, elas constituem as relações sociais e afetivas, as relações raciais e de gênero dentro do nosso país, então acho estranho que a gente trate isso como “resto” ou “passado”. Essa estrutura está bem presente no nosso cotidiano e a situação do trabalhador doméstico no país é uma evidência clara disso. Como são uma evidência clara o encarceramento em massa e o genocídio dos jovens negros, os pais ausentes de responsabilidade com seus filhos gerados fora ou antes do casamento, a organização da cidade com suas casas grandes e suas senzalas. E essa invisibilidade é muito confortável, porque nos livra de lidar com uma questão muito importante e de olhar para nós mesmos.

Q - Além da invisibilidade, o que mais há nesse lugar?
AP - Esse lugar é constituído e caracterizado por tudo o que pode ser produto de uma sociedade cuja maior doença é a desigualdade social.
 

Q - Em muitos casos, babás sabem mais das crianças do que pais e mães. O que a "moça da faxina" sabe mais, dentro das famílias", do que seus contratantes?
AP - Penso que essa relação, e tudo o que ela abrange e dela emerge, depende do ambiente, da relação estabelecida e das partes envolvidas. Existem variáveis nessa relação que estão diretamente ligadas às pessoas, suas formações, seus percursos de vida. Penso que atualmente temos diversos perfis e consequentemente diversas configurações. Ao mesmo tempo que vemos pessoas mais conscientizadas e politizadas, temos ainda uma enorme dificuldade de lidar com essa herança e de nos livrarmos desse modelo. (...)

Q - Deixar de ter "patrões" e passar a ter "contratantes" eleva as " moças da faxina", na hierarquia social?
AP - Não acredito nisso. As camadas são muito profundas, tudo muito complexo. E temos ainda muita resistência em mudar hábitos e visões, padrões de pensamento e convivência. Vivemos tentando driblar as nocivas armadilhas diárias, cotidianas. Quem sabe um dia a gente consiga. Talvez invertendo o mundo, como diz Vânia. Dentro e fora.

Q - Por que "Inferno"?
AP - Inferno é esse espaço legado, essa realidade que não muda, esse espaço histórico imaginário, herança de uma mentalidade patriarcal e escravagista, onde está não apenas Vânia, mas tudo o que a sociedade não reconhece como válido e legítimo. Ao mesmo tempo, torna-se o lugar de exercício da consciência da personagem, lugar da resistência, onde munida, Vânia toma posse e instala a sua rebelião, se move, e inverte a lógica vigente.

Q - Você tem um filho. Ele tem babá?
AP - Não temos babá.

Q - O que acha da performance "usa uniforme branco e nos acompanha para todos os lugares" que o/a brasileiro/a médio demanda desse tipo de profissional?
AP - Escolho indicar a nossa peça como resposta. É a nossa reflexão sobre isso. Sugiro também que as pessoas leiam a Preta Rara (autora de “Eu, empregada doméstica”), procurem saber quem foi Laudelina de Campos... refletir sobre isso é urgente, já passou da hora de a gente fazer isso como sociedade.


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