A ordem do dia é aniquilar

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07.02.2019, 16:12:00
Atualizado: 07.02.2019, 16:21:58

A ordem do dia é aniquilar

A violência avançou e abraçou canteiros nos quais eventualmente nos sentíamos seguros. Não é senão dentro da própria casa, por familiares e pessoas próximas, que os abusos sexuais são cometidos? O que dizer das balas perdidas que sobrevoam o ar pesado para atingir em cheio famílias agora despedaçadas? Não há mais tranquilidade, apenas escoteiro status de alerta sempre ligado aos perigos que advém de estar no lugar errado, na hora errada.

Assim se deu em São Sebastião do Passé, onde um torcedor do Vitória, vestido com a camisa da TUI, foi criminosamente atropelado e espancado por bandidos uniformizados da Bamor. Seguiam os tricolores para assistir ao jogo de seu time do coração quando se sentirem compelidos a “dar uma lição” e mostrar “quem manda” para aquele exibido rubro-negro a fazer seu exercício.

O significado do crime – não suavizemos ao tratar o ocorrido como incidente – assume contornos sociológicos quando observamos como ele está inserido no contexto atual.

Está certo, sem margem para contestação: ser diferente hoje em dia não é mais complemento de pluralidade civilizatória, mas objeto de aniquilação. Assumamos de vez a verve violenta que nos assola a alma nesta nova era em que se exalta a mediocridade. Aniquilemos, humilhemos o outro lado, com todo o poder que tenhamos! Afinal, para que conviver se podemos apelar para a simplicidade da eliminação do outro?

Ao mesmo tempo, uma vez mais, deve ser reforçada a necessidade de revisão da famigerada torcida única. Porque está mais do que comprovado o resultado contraproducente da medida. Em vez de reduzir a violência, colabora para seu crescimento. Exatamente porque alimenta este monstro segregador, em que o outro lado é indigno de conviver comigo, ó-tão-certo que sou das minhas escolhas.

Caem por terra, conjuntamente, as questões de não se sentir seguro em tal estádio, ou até de se dizer que os violentos são minoria infiltrada em torcidas organizadas. Ao primeiro item, há dois péssimos alertas: 1. estamos todos inseguros com a falência da segurança pública que não pune. 2. pode-se atribuir, agora efetivada a covardia, a máxima dos novos tempos de fake news, acuse o outro de fazer o que eu faço.

O segundo item destroça o vitimismo de ser tachado por causa da ação de uma minoria infiltrada. Ora, façam-me uma garapa: era o PRESIDENTE da torcida a liderar o motim. Não se trata de gente “infiltrada”, mas sim a regra dentro de uma instituição que, como toda torcida organizada, faliu do ponto de vista civilizatório, mas se fortalece como modelo grupal de afirmação identitária que, como todo aglomerado em sociedade, traz benefícios extras como inclusão e proteção.

Se de um lado um povo vai se acostumando à não-convivência – e os efeitos podem ser observados nas ruas da Bahia e do Brasil – do outro os marajás das canetas e dos abusos de poder insistem em medidas descabidas e estúpidas do ponto de vista prático. Em São Paulo, a violência cresce e emboscadas são armadas contra torcedores rivais, em encontros marcados previamente em eventos públicos nas mídias sociais. No Rio, onde sempre imperou uma certa alma gozadora de apreciação da diferença, já houve pancadaria dentro da própria torcida. Minas, Rio Grande do Sul, Paraná, continuamente os estados vão apelando para a decisão fácil. E o que é pior: sem qualquer respaldo efetivo. Não há sequer um caso de sucesso. Mas o senso comum impera na medida em que os que despacham dentro de confortáveis salas com ar-condicionado podem dar satisfação de “estar fazendo o possível para conter a violência”.

Em frase falsamente atribuída a Albert Einstein que circula massivamente na internet lê-se que “a definição de insanidade é fazer as mesmas coisas repetidamente e esperar resultados diferentes”.

Se esta não é exatamente a definição de insanidade, ela é feliz ao retratar um dos produtos mais espúrios da sociedade: o idiota com iniciativa.

Faz-me lembrar de certo recente prefeito paulistano que, assustado com o índice de violência durante o Carnaval, propôs acabar com ele. Conclusão típica de acéfalos que operam apenas para minimizar seu próprio esforço, evitando a fadiga.

Se isto parece exagero, que tal lembrarmos da cartilha de como torcer que a Conmebol quer instituir, punindo até quem cometa o absurdo de assistir a um jogo de pé?

O que está em jogo é o vilipêndio às alternativas de entretenimento do povo. O Carnaval, o futebol. A corda, a torcida única. O governo e os desfavorecidos. Os estádios e a torcida tratada como gado. É a mesma luta de sempre. É uma questão de poder.

Entende-se, pois, que, se o desejo do oprimido é ser ele próprio um opressor, as frustrações sejam descarregadas no outro lado. Afinal, se eu sou o ó-tão-certo e mesmo assim sofro, tenho que me estabelecer como ser hierarquicamente superior ou outro ó-tão-errado.

O que se passou em São Sebastião do Passé é a gota d’água que transborda o copo. É o machinho-alfa, tão frágil ao ponto de se sentir ofendido pela camiseta do outro que precisa liberar dose extra de testosterona para dizer-se o mais-mais, o tal, mas que não passa de um grandiosíssimo covarde. Alguém que desaprendeu as regras mais básicas de convivência em sociedade, ajudado pelos engravatados-com-iniciativa que perpetuam modelos que são comprovadamente errados.

E para quem tiver curiosidade, insanidade - do ponto de vista da lei - é quando um réu não consegue distinguir o certo e o errado quando um crime é cometido. No que, aposto, hoje muitos sorriem sorrisos contidos diante da barbárie, um certo sentimento de vingança saciada. É o “chora mais” da vida real.

Tristemente, vivemos num período doente, em que a violência é a única alternativa para soltarmos um grito desesperado por socorro, quando pisar e aniquilar o outro lado é a única maneira de nos sentirmos maiores. E quando isto acontece, exala-se todo o mau-hálito da alma pequena, insignificante, medíocre, de alguém que não passa de um criminoso.


Gabriel Galo é escritor.

Opiniões e conceitos expressos nos artigos são de responsabilidade dos autores

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