A putaria na pipoca dos Novos Baianos que desconcertou o governador Roberto Santos

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14.02.2021, 06:30:00
Atualizado: 14.02.2021, 10:27:32

A putaria na pipoca dos Novos Baianos que desconcertou o governador Roberto Santos

Há 45 anos, banda fazia estreia na folia baiana com direito a coro obsceno na frente de político, que faleceu esta semana

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Trio elétrico dos Novos Baianos em 1980 (Foto: Arquivo Histórico Municipal/Secult) 

Entre tantas credenciais louvadas em seu obituário não houve menções ao Carnaval. Morto esta semana, aos 94 anos, Roberto Santos era um homem da ciência. Foi médico, professor, reitor da Universidade Federal da Bahia, além de governador do estado durante a Ditadura Militar e ministro da Saúde, indicado por José Sarney.

Talvez, exatamente, por estar mais bem acomodado em ambientes acadêmicos ou em rodas de articulação política, em meados dos anos 1970, viveu um dos episódios mais insólitos de sua longeva existência na passagem dos Novos Baianos pelo circuito de Carnaval.

A saia justa é narrada por um dos integrantes da icônica banda, testemunha privilegiada e cúmplice da ocorrência, do alto do trio elétrico. Paulinho Boca de Cantor recém tinha ultrapassado a casa dos 30 anos, mas já colecionava uma vida agitada àquela altura – entre prisões, sucessos nacionais, vida comunitária, turnês, drogas lisérgicas e um importante processo de separação vivido dentro da própria banda.

Imagem histórica mostra Trio Novos Baianos subindo a Ladeira da Montanha (Foto: Acervo Paulinho Boca) 

Em 1974, logo após a gravação do LP Alunte, os Novos Baianos desfilaram pela primeira vez no Carnaval de Salvador, mas apenas puxando um bloquinho e cantando um hit que falava sobre a qualidade da maconha trazida do Ceará. No ano seguinte, Moraes Moreira deixa o conjunto e sobe no trio de Armandinho Dodô e Osmar, dando voz à engenhoca dos fundadores.

Em 1976, era a vez dos Novos Baianos estrearem de vez na folia, puxando o próprio trio e uma legião de ardorosos seguidores. Em 2021, portanto, completa-se exatamente 45 anos desse début especial. Aquele Carnaval seria também o primeiro de Roberto Santos como governador – na verdade, ele assumiu o cargo em 1975, mas até constituição de 1988, as poses só aconteciam em 15 de março, ou seja, depois da festa.

“A chegada dos Novos Baianos ajuda a mudar de vez o Carnaval da Bahia. Esse processo começa com Moraes Moreira e se intensifica com a gente. Os Novos Baianos trazem algo fundamental, que é o rock and roll. Essa diversidade que se fala tanto hoje do nosso Carnaval, começou com esse movimento da gente misturar tudo em cima do trio”, diz Paulinho Boca.

Além do rock, Paulinho Boca, Baby, Pepeu, Galvão, Jorginho e Dadi traziam também sucessos do cancioneiro popular. Em 1975, Genival Lacerda (1931-2021) havia estourado com o forró “Severina Xique-Xique” e o ambivalente refrão “ele tá de olho é na butique dela”...

Paulinho Boca e Baby do Brasil em reencontro com Moraes Moreira, em cima do trio, em 1990 (Foto: Arquivo CORREIO)

No primeiro dia que desfilaram no trio elétrico, Pepeu Gomes fez uma versão em sua doce guitarra. O anárquico folião, então, criou sua própria interpretação para o xote, trocando a palavra “butique” por algo mais literal, em referência direta à genitália feminina. Os Novos Baianos acharam graça e deram corda.

“Eles cantavam em coro. “Ele tá de olho é na b*ceta dela”... E repetiam e repetiam. A gente incentivava, claro. Erámos uma banda irreverente e gostávamos desse espírito”, lembra Boca.

Primeira-dama presente
No segundo dia, o trio dos Novos Baianos chegou novamente na Praça da Sé para tocar a folia. Não demorou muito para que viesse a informação, quase um alerta, que o governador Roberto Santos ocupava a sacada do Palácio Rio Branco, ao lado da primeira-dama, Maria Amélia Santos. De cima, acompanhavam a algazarra, sem se deixarem envolver.

Roberto Santos em 1979 (Foto: Carlos Catela)

Houve uma certa tensão inicial. O regime militar ainda perdurava, embora os anos mais duros de chumbo tivessem arrefecido um pouco com a substituição do presidente-general Emílio Médici para Ernesto Geisel. No começo da década, os próprios integrantes dos Novos Baianos haviam sofrido na pele com a repressão, sendo levados para o xilindró durante uma batida no Porto da Barra. Rodaram Galvão e Baby e o próprio Paulinho.  

“Quando falaram que Roberto Santos estava lá rolou aquele silêncio, aquele negócio todo de respeitar a autoridade. Mas isso durou muito pouco. Quando a gente pensa que não, tá lá Pepeu Gomes solando o refrão de ‘Severina Xique-Xique.’ A gente entrou na onda e começou a cantar: “ele tá de olho...” E o povo baiano completou em coro, sem nem querer saber de mais nada. Foram minutos e mais minutos falando a mesma palavra. O povo queria extravasar. Tudo isso na presença do governador e da primeira-dama. Os dois ficaram bem envergonhados”, lembra Paulinho, aos risos.

Ao fim daquela cabeluda situação, o desfecho foi o melhor possível. O trio seguiu. Não houve posteriormente ataques à banda (muito, talvez, por já serem nomes consagrados da música) e nem represálias da polícia. Roberto Santos levou mesmo na esportiva. Mostrou que, ainda que tivesse uma cabeça voltada para ciência, talvez tivesse mesmo a carne de Carnaval.

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