A vez da voz de Tierry, pai de ‘Rita’ e outras anarquias musicais; conheça a história

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22.11.2020, 06:30:00
Atualizado: 23.11.2020, 00:39:31

A vez da voz de Tierry, pai de ‘Rita’ e outras anarquias musicais; conheça a história

Compositor que 'hackeou' excelência formal das suas canções para chegar ao topo também como cantor relembra trajetória desde a infância, no mangue de Nilo Peçanha, até os perrengues da juventude em Valença, no Cabula e em Pernambués

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A vez da voz de Tierry, pai de ‘Rita’ e outras anarquias musicais; conheça a história

Tierry durante gravação do DVD 'Acertou na Mosca', em Goiânia (Foto: Eunivan Silva/Divulgação)

O alzheimer talvez impeça vó Eurídice de assimilar, a contento, a ascensão de seu neto ao olimpo. Lá bem antes dos apagamentos, acompanhou de perto os rascunhos da virtuosidade do menino Tierry, que escalaria a montanha para se tornar uma espécie de Orfeu, cantado na mitologia como o mais talentoso entre todos os músicos.

E como classificar, afinal, o compositor que chegou ao topo das paradas servindo às maiores estrelas do país – ganhou Música do Carnaval com Claudinha e com Ivete! – e agora, finalmente, vira número 1 das rádios (e das redes) como intérprete? Olimpo, aliás, alcançado com a anedota de um Orfeu abestalhado que vai às profundezas tentar resgatar a mulher de sua vida, por quem foi traído e esfaqueado.

Talvez você não saiba que história mal contada é essa, mas cem mil, com quem quiser, eu aposto que já ouviu o seguinte clamor na vizinhança: “Oh, Rita! Volta desgramada! Volta, Rita, que eu perdoo a facada”. Sim, é Tierry de Araújo Paixão Costa, 31 anos, cantando, e agora explicando como compôs sua ‘Anna Júlia’ injuriada.

“Rita surgiu de um comentário de uma live. Eu vi aquilo e pensei: ‘caramba, isso é muito popular’. Rita é sem dúvidas minha ‘Anna Júlia’ e é a imagem da mulher retada, que bota pra descer no cara, não come reggae, e ele continua apaixonado”, situa sua magnum opus, dando a senha de abertura da nova fase como compositor fora do eixo.

Contar em que estágio Tierry está não é novidade pra quase ninguém, mas abrirei ligeira exceção, pra quem tá fora, nos próximos dois parágrafos. Já adianto que minha ideia aqui é, principalmente, contar como ele chegou onde se encontra (o topo), com foco no início da carreira e da vida do soteropolitano que, aos 3, foi morar no Baixo Sul.

Resumo da ópera
Começo por uma história de 2012 que tem conexões com 2020: Ivete Sangalo convida a estrela internacional Shakira para gravar ‘Dançando’, de Tierry, ambas sem consultar as gravadoras. Sucesso, claro, mas confusão nos bastidores: a música só foi liberada nas plataformas digitais em setembro agora! Mas foi lá atrás, com os direitos autorais da tal canção, que Tierry (então ‘Tiérry’ Coringa, por conta do sorriso largo) ganha certa independência financeira e decide deixar o comando da banda de pagode Fantasmão, em 2014, cinco anos após assumir no lugar de Ed City.

No ano da Copa já emplaca 5 entre as 50 mais tocadas do país, e daí por diante é uma surra de hits (no gogó dos outros), o que faz Luan Santana popularizar o apelido de Tiehit. Com ‘Cem Mil’, para Gusttavo Lima, é o mais tocado de 2019, até a chegada de ‘Cracudo’, uma virada na carreira, e de ‘Rita’, comemorada por Neymar (com quem se encontrou na semana passada, a convite) e Lázaro Ramos (que comemorou aniversário ao som do hit). Tudo situado, voltemos às origens do Orfeu do Baixo Sul.

Fã de 'Rita' e Tierry, adulto Ney convidou e se encontrou com artista em São Paulo, semana passada (Foto: Reprodução/Instagram)

Menino cinza do mangue
Tierry tinha 3 aninhos quando chegou a Nilo Peçanha com a mãe, Tereza, para ser criado com a ajuda de dona Eurídice e de seu Plínio Paixão, avô já falecido. Seria ‘menino criado com vó’ até os 9, divertindo-se em meio ao mangue com um badogue anti-calango.

“Eu tive uma infância bem vivida, era um moleque que vivia no mato, caçando, pescando. Moleque do mangue, do rio. Minha pele era bem escura, eu era cinza praticamente”, recorda o pai do pequeno Adriel, hoje com 6 anos, que explica como poderia ser ilustrado nessa idade:

“Se fossem fazer uma caricatura, eu acho que seria sem camisa, com um short qualquer sem marca, sem nada, descalço ou de sandália havaiana com estilingue e algumas pedras no bolso”.

‘Roceiro’ na lixeira
Na adolescência, para cursar o ensino médio, se mudou para a ‘capital do Baixo Sul’. “Fui morar em Valença pra poder estudar num colégio particular. Quando cheguei, fui jogado no lixo no primeiro dia. Os caras dizendo que eu era ‘roceiro’ e tal. Mas ali eu começava a saber que tinha que usar o meu talento pra poder ser ‘o popular’ e me livrar disso”, relembra a situação, reprovando os playboys do Colégio Perspectiva.

Considera o ato vil mais próximo de um preconceito social que racial. “Tipo assim, os caras que moravam em Valença achavam que Valença era como se fosse uma capital do interior”, comenta ele, que começava ali a se acostumar a viver sozinho e sobreviver com o mínimo, baseado na ajuda que mainha enviava. “Porque minha mãe pagava aquele colégio com o maior sacrifício, para eu ter uma educação melhor, né. E eu precisava me manter firme ali. Então, eu tive que morar sozinho numa kitnet, que ficava na frente do colégio. E aí eu comecei a cantar no colégio. Jogava bola e cantava”.

Os corres na capital
Como nem a carreira de jogador nem a de artista deram certo já de início, Tierry volta às origens e desembarca, aos 17, na cidade natal, para investir nos estudos. 

“A minha família queria muito que eu fizesse Engenharia ou Arquitetura. Eu tentei vestibular da Ufba, até queria. Mas sempre gostei de Artes. E aí falei: ‘vou fazer Comunicação’. Prestei vestibular na Estácio, na época, e passei em Publicidade. Comunicação com ênfase, eu podia escolher entre Jornalismo, Marketing ou Publicidade”. 

A primeira morada do universitário foi em Pernambués, quase de favor, na casa de uma amiga da mãe. “Era perto da (Rua) Thomas Gonzaga, em frente a um mercado. Sabe uma sorveteria que tem ali na esquina? Atrás daquele posto de gasolina...”. Eu disse que sabia, porque já trabalhei ali perto, e imagino que seja por aqui.

“Morei ali na casa de uma amiga da minha mãe, dona Lindinalva. E aí depois, por alguns problemas pessoais [não diz quais], fui morar em um pensionato com cinco pessoas, de todo variado tipo de gente, no Cabula, CHOPM, em frente ao Exército”, recupera o bacana, que pegava dois buzus pra chegar no Stiep, pra assistir aula.

Enquanto dona Tereza pagava metade da faculdade, a outra era bancada por financiamento estudantil, mas, vez por outra, Tierry levantava uma grana como no tempo em que estagiava ou que trampava na Wave Beach do Shopping Piedade. Liguei na loja de surfwear, pra ver se encontrava antigos colegas, mas mudou tudo, até os donos.

Novos rumos
Mudaram na época, também, os planos de carreira de Tierry. “Quando eu ia começar o 5º semestre, passei a fazer backing vocal do Fantasmão e ganhar uma grana. Fui chamado pra cantar na banda [de pagodão], e aí fui lá e, pow, já comecei a fazer um sucesso e falei: ‘eu amo fazer isso aqui’”, descobriu-se.

Percebia ali que era um bom compositor porque as músicas do Fantasmão, desde que entrou, eram dele. “Aí eu falei: ‘cara, quer saber, eu vou começar a fazer música para os outros’”, relembra, citando grandes sucessos da época como ‘Tome, Tome, Tome’, com o Saiddy Bamba (clássico!), e ‘Madeira de Lei (É Pra Sacudir)’, na voz de Léo Santana.

“Quando vi que a composição me dava uma grana, eu falei: ‘oh, agora vou sair do Fantasmão’. Minha primeira música lançada no Brasil, que aí me deu a independência financeira, foi ‘Dançando’”, reitera Tiehit, fechando o ciclo ao olimpo como compositor.

Tierry ficou no comando do Fantasmão por 5 anos, e anunciou a saída no final de 2014 (Foto: Reprodução)

Marília com Skylab
Em 2019, quando já era chover no inundado elogiar seu talento como letrista, Tierry se batia para vingar como cantor de farras e sofrências, e quase desistia. 

Lamentava, intimamente, quando gravava candidatas a hit e vinham fãs de outros artistas dizer que a música era a cara de um ou de outro.

“Eu preciso falar da minha música, que Cicrano e Beltrano não gravem, que só eu tenha coragem de cantar. Queria falar de músicas que fossem subversivas e que chocassem. Há muito eu sinto falta do artista que precisa chocar primeiro. Que o diga ‘Cracudo’”, confessa, ao citar um dos engenhos anárquicos para ficar ‘inacessível’ aos bam-bam-bans.

Pois sim que Tierry teve que dar uma facada ou hackear a si mesmo – na própria excelência formal das músicas que compõe há quase uma década –, e se arriscar num rol de aparentes absurdos para provar que, mesmo nesse modo, é o maior hitmaker do país.

Veio ‘Cracudo’, que fala em ‘fumar o coração de pedra’ da amada insensível (e por representar essa virada, é considerada por ele sua “música mais importante”); depois ‘Eu Já Peguei Coisa Pior’, que faz referência ao coronavírus (por sinal, ele se infectou e se assustou com isso essa semana!); e, entre outras ‘ingraváveis’ que a TV aberta vetaria, ‘Rita’, uma assassina em potencial. Tudo sucesso e prova extra da genialidade e talento, esquivando-se de toda tentativa de cancelamento.

“Eu sou muito boêmio. Gosto de Cartola, Noel Rosa... Sou um cara que li muito. Sempre gostei de Antropologia e de questionar, sabe? Sou um cara muito questionador”, conta o moço nascido num berço musical, com Chico Buarque e Luiz Gonzaga na radiola, só pra citar algumas grandes influências antes que o texto acabe.

Aliás, na nova fase, uma das referências como compositor talvez surpreenda. “Sou uma mistura de Rogério Skylab com Marília Mendonça. Skylab porque ele fala coisas escrachadas. Óbvio que eu não sou tão louco. Ele é um gênio incompreendido, e não tem papa na língua”, compara o novo Tierry, que prepara canções sobre XVídeos, mulher trans e outros paranauês não convencionais como o que lançou anteontem, e que não deixa dúvida de como será o amanhã. 

‘Eu Tô Com Uma Puta’ fala da puta saudade que sente de alguém, e já estreou no Top 3 de vídeos musicais mais acessados do YouTube. Acertou na mosca outra vez.

Confira alguns dos maiores sucessos da lavra do hitmaker, começando pelos mais recentes:

'Eu Tô Com Uma Puta', Tierry 'Hackearam-me', Tierry e Marília Mendonça 'Eu Já Peguei Coisa Pior (Coronavírus)', Tierry 'Cracudo', Tierry 'Cem mil', Gusttavo Lima 'Os anjos cantam', Jorge e Mateus 'Paga de Solteiro Feliz', Simone & Simaria feat Alok 'Casado Namorando Solteiro', Wesley Safadão 'Te Assumi pro Brasil', Mateus e Kauan 'Vai Vendo', Lucas Lucco

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