“Achei que ele estivesse encenando”, diz segurança que espancou homem no Carrefour

brasil
04.12.2020, 22:26:15
Atualizado: 04.12.2020, 22:32:31
João Alberto foi morto em frente ao mercado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul (Reprodução)

“Achei que ele estivesse encenando”, diz segurança que espancou homem no Carrefour

Grupo Carrefour anunciou hoje (4) fim da terceirização dos serviços de segurança

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Um dos seguranças que espancou João Alberto até a morte no supermercado Carrefour, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em novembro, afirmou que pensava que ele fingia um desmaio pouco antes de falecer. A informação foi veiculada pelo Jornal Nacional, nesta sexta-feira (4), após o JN ter acesso a uma gravação de áudio do depoimento do segurança. 

Segundo a reportagem, Giovane Gaspar da Silva disse que não trabalhava para a empresa Vector. Afirmou que, no dia 19 de novembro, foi contratado por um colega para cobrir as folgas dele. A Vector informou que Giovane era contratado e que era o primeiro dia de trabalho dele para a empresa. No depoimento à polícia, Giovane disse que foi chamado por rádio para ir ver um problema em um caixa envolvendo um cliente e uma fiscal. “Eu simplesmente, quando cheguei, cheguei caminhando, tranquilo vi que ele estava encarando muito a fiscal”, contou.

Gaspar disse que João Alberto Silveira Freitas decidiu por conta própria sair da loja e que o acompanhou. Giovane afirmou que não houve provocação, de nenhum dos lados, antes que João Alberto desse um soco nele. Na sequência, Giovane e o segurança Magno Braz espancaram João Alberto. “A minha primeira reação foi tentar pegar ele. Em nenhum momento eu quis dar soco nele. Eu ia imobilizar ele e deu, sabe? Não tive outra opção naquele momento se não golpear, eu não tive opção”, continuou Giovane.

Depois de desferir socos e chutes em João Alberto, os dois seguranças o mantiveram no chão. Giovane afirmou que uma terceira pessoa participou das agressões. “Eu segurei as pernas dele e pedi para esse fiscal segurar o braço dele e imobilizar um braço dele direito. É o momento em que chega outra pessoa, que eu não sei quem é, não vi, só vi que estava de branco, chega outra pessoa e dá um chute nele”.

Giovane disse que, quando João Alberto gritava e pedia para que eles parassem, achou que era encenação. “Depois chegou um outro senhor que estava falando comigo, e ele falou: ‘Cara, eu acho que ele está morto’. Eu falei: ‘Bah, senhor, não faz isso’. Porque eu, sinceramente, naquele momento achei que ele estivesse encenando, fingindo um desatento meu para me pegar”.

Giovane disse que a fiscal Adriana Alves Dutra não deu nenhuma ordem para eles liberarem João. Em depoimento, Adriana afirmou que pediu para os seguranças pararem de bater no homem. 

A polícia aguarda os laudos de necropsia e o toxicológico para concluir o inquérito. A fase de depoimento já foi encerrada. Foram ouvidas 40 pessoas, entre testemunhas e investigados. 

Segundo a polícia, Giovane, Magno Braz e a fiscal Adriana Dutra vão responder por homicídio doloso. Uma das hipóteses é de preconceito racial. “Ainda estamos analisando as imagens, individualizando as condutas desde o início do fato até o final, com a morte de João Alberto, para verificarmos se, no conjunto probatório, conseguimos identificar a motivação racial”, disse Vanessa Pitrez, diretora do Departamento de Homicídios.

Giovane está preso e foi expulso da Brigada Militar porque estava de folga como PM temporário e participou das ações que culminaram com a morte de João Alberto. “Ele estava cobrindo a folga de outro colega, era o primeiro dia e ele já tinha decidido que não ia permanecer nessa função”, disse o advogado David Leal, que representa Giovane.

O Carrefour anunciou nesta sexta-feira (4) que não vai mais terceirizar a segurança e que empreendedores negros vão treinar o pessoal do setor, começando pelo Rio Grande do Sul. Os funcionários vão receber treinamento sobre práticas antirracistas e respeito aos direitos humanos. O Carrefour afirmou que vai considerar a representatividade de mulheres e de cidadãos negros na população brasileira ao contratar seguranças.

Veja a nota divulgada pela empresa:

O processo de internalização começará pelos quatro hipermercados no Rio Grande do Sul, em um projeto piloto, incluindo a loja Passo D’Areia, em Porto Alegre. O novo modelo é o ponto inicial para transformação do seu modelo de segurança e faz parte dos compromissos anunciados pela rede. O processo de recrutamento e o treinamento dos profissionais para as lojas contará com associação que reúne empreendedores negros da região de Porto Alegre.

Todo o processo de internalização da segurança terá como foco a implementação de práticas antirracistas e de uma cultura de respeito aos direitos humanos, além de considerar a representatividade da população brasileira (50% de mulheres e 56% de negros) como um compromisso. A data de admissão dos novos colaboradores está prevista para o dia 14 de dezembro em todas as lojas Carrefour da região, seguindo as etapas de contratação”

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