Acusado de estuprar turista espanhola em Caraíva é preso

bahia
04.08.2021, 14:18:00
Atualizado: 04.08.2021, 15:11:59
(Marcelo Moryan_Shutterstock)

Acusado de estuprar turista espanhola em Caraíva é preso

Homem de 21 anos é indígena; dois estão foragidos

Um homem de 21 anos foi preso nesta quarta-feira (4) acusado de estuprar uma turista espanhola no distrito de Caraíva, em Porto Seguro. O crime aconteceu na madrugada do dia 25 de julho.

Segundo a Polícia Civil, o suspeito preso é indígena e foi preso na aldeia Xandó, que fica em Caraíva, por agentes da 23ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior (Coorpin).

De acordo com relato da vítima, ela pegou uma carona com um motorista de quadriciclo para o estacionamento Xandó. Ao chegar lá, dois homens a atacaram e abusaram sexualmente dela. Esse outro homem, além do motorista, ainda estão foragidos.

"É uma importante prisão realizada pelos nossos policiais. Conseguimos, com nosso trabalho de inteligência, identificar e prender o autor. Os outros dois que estavam com ele no momento do crime estão sendo procurados”, diz o coordenador da 23ª Coorpin, delegado Moisés Nunes Damasceno. 

O indígena, que teve o mandado de prisão preventiva cumprido, está sendo encaminhado para a sede da Coorpin, em Eunápolis, onde ficará à disposição da Justiça. 

Violência sexual se intensificou nos últimos dois anos 
Os casos de estupro e assédio sexual começaram a preocupar a comunidade em 2019. O estopim das discussões sobre a insegurança das mulheres foi o estupro de uma moradora, no dia 14 de dezembro daquele ano. A cozinheira Mila Simões, 36 anos, caminhava pela Praia da Ponta do Nego, quando o crime aconteceu.

“Era luz do dia, com a praia teoricamente movimentada, eu estava caminhando e ouvindo música. Um ato normal de alguém que mora na praia”, recorda a carioca, que tinha firmado residência em Caraíva no verão de 2017, depois de passar o Réveillon do ano anterior no vilarejo.

Na época, “existiram outros casos, que não tiveram repercussão”, alerta Mila. As mulheres ainda temem denunciar a violência sexual - seja por represália da comunidade ou recepção nas delegacias - e esse “outros” fogem das estatísticas. A reportagem mapeou dois deles, além do crime contra a carioca. Mila levou o caso até uma delegacia de Porto Seguro. Até hoje, dois anos depois, ninguém foi preso. Também não houve exame de corpo de delito. “O laboratório só iria abrir vários depois e minha lesões no corpo teriam saído nesse tempo”, diz Mila.

"A rotina mudou", diz moradora de Caraíva (Foto: Leitor CORREIO)

O crime de estupro não ocorre só quando há penetração. A legislação brasileira considera qualquer ato libidinoso realizado mediante força ou ameaça contra alguém, sob pena de 6 a 10 anos. “O delegado nem usou a tipologia de estupro”, lembra Mila. Se não teve repercussão judicial, em Caraíva, pelo menos, o caso dela mobilizou a comunidade feminina.

Na mesma semana, mulheres criaram o grupo Caraíva sem Assédio, organizaram reuniões, espalharam faixas contra o assédio pelo vilarejo e distribuíram sprays de pimenta entra elas. 

“Machismo e abuso sempre aconteceram por aqui. Mas, agora, as pessoas estão falando mais e está ocorrendo mais, por ter lugares mais afastados com pessoas morando. É muita gente sem controle do poder público para estruturar e receber todo mundo”, opina, coletivamente, o Caraíva sem Assédio.

Em janeiro de 2020, depois de reuniões e campanhas, no entanto, outro estupro ocorreu no vilarejo. No dia 21, Maria do Carmo Ribeiro, 27, publicou nas redes sociais: “Fui estuprada e não vou me calar”. O crime ocorreu na casa de Maria, nos limites da Aldeia Xandó. A vítima dormia quando teve a casa invadida por um homem.

O homem, identificado como Tácio Bonfim pela polícia, foi preso à época e é suspeito de cometer abusos contra mais cinco mulheres em Caraíva, segundo o Ministério Público da Bahia. 

Território indígena é colocado sob tensão e lideranças temem preconceito 
O vilarejo de Caraíva está a 70 quilômetros de Porto Seguro e não tem circulação de carros. São as canoas que guiam os turistas na chegada e na partida ou os moradores que precisam de serviços que a comunidade não oferece. Com a lotação da Vila, Caraíva cresceu em outras direções. Uma delas foi a Aldeia Xandó, com casas em construção e para aluguel temporário, cuja diária custa até R$ 450. Hoje, segundo lideranças do território indígena reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (Funai), 70% dos moradores são de fora e apenas 30% nativos. 

Desde 2019, pelo menos cinco casos de violência sexual ocorreram nas proximidades do território indígena, que foi colocado no centro dos debates. A turista espanhola estuprada na última semana voltava de uma festa clandestina na Aldeia quando o crime aconteceu. A partir das quintas-feiras, as festinhas clandestinas tomam conta da Aldeia. “Xandó e o entorno cresceram muito e estamos falando da importância de se combater esses crimes”, diz Sairi dos Anjos Santos, um dos sete líderes que acompanham o cacique. 

A liderança está duplamente preocupada. “Já existe um certo preconceito contra indígenas e temos medo que as coisas sejam distorcidas. O turismo e o dinheiro trouxeram muito indeliquente”. lamenta. A Funai foi questionada sobre os casos de violência sexual contra mulheres no território. O órgão não respondeu até o fechamento da publicação. 

A Aldeia Xandó e Caraíva estão conectadas por terra, a menos de dois minutos de caminhada uma da outra. “Xandó e Caraíva são irmãs gêmeas, uma coisa só. Não adianta querer culpar um lado”, opina Agrício Ribeiro, dono de uma pousada no vilarejo. Na opinião dele, Caraíva, que sempre atraiu turistas e novos moradores pela tranquilidade, foi “picada”.

“Picada pela picada do dinheiro e da ganância. Caraíva é um lugar frágil e que cresceu desordenamente. Qualquer crescimento desordenado traz algo de ruim”

Para estabelecer uma relação entre crescimento turístico e urbano desordenado e casos de estupro e assédio é preciso olhar para um passado não tão distante. Entre as décadas de 1960 e 1990, no Brasil, propagandas oficiais de turismo brasileiras utilizavam imagens femininas, fora de contexto, e com apelo sexual, para atrair turistas. Só depois disso, e aos poucos, esse modelo foi deixado de lado. Mas, os problemas permanecem, se não há uma política pública de acompanhamento e gestão.  

“Ao mesmo tempo em que o turismo ocasiona o crescimento econômico de determinados lugares, na ausência de políticas específicas de gestão e de desenvolvimento social, ele pode favorecer este tipo de prática”, explica Fernanda Caires e Caires, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas doutoranda em Economia pela Universidade Federal da Bahia. 

Em 2019, a organização não-governamental Think Olga e o site de turismo booking.com formularam uma cartilha chamada "Mulheres Pelo Mundo, um guia para viajar em sua própria companhia", com conselhos para enfrentar o medo de viajar sozinha, dicas de segurança e estratégias para aproveitar melhor a estadia. Mas, a mudança, acredita Fernanda, precisará perpassar mudanças e ações mais complexas. Não adianta, por exemplo, pensar o turismo isolado dos contextos onde ele ocorre. 

Sem considerar os elementos culturais, a vulnerabilidade, o distanciamento do estado e a falta de políticas numa comunidade, acredita Fernanda, a violência sexual continuará a transformar paraísos em infernos. 

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