Agora é que são elas: veja como idosas estão driblando o tédio na pandemia

bahia
07.05.2020, 05:30:00
Atualizado: 07.05.2020, 06:21:27

Agora é que são elas: veja como idosas estão driblando o tédio na pandemia

Segundo IBGE, em 2019, a Bahia tinha 2,3 milhões de pessoas com idade superior a 60 anos

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Tricotar, ver TV, realizar uma tarefa doméstica aqui e outra acolá... E, principalmente, sentir saudade da rotina de outrora. Assim têm sido a vida de algumas idosas na capital baiana. Junto a seus pares masculinos, elas são o principal grupo de risco do novo coronavírus e mais do que nunca precisam ficar em isolamento.

A atenção que se deve ter com os idosos hoje é quase 10 vezes maior do que teríamos em 2012. Isso porque eles estão cada vez mais presentes em nosso estado: números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, desde aquele ano até 31 de dezembro de 2019, a população de idosos na Bahia cresceu 32%, dez vezes a taxa de crescimento da população total (3,0%) no mesmo período.

A Bahia tinha, ao final do ano passado, cerca de 2,3 milhões de pessoas com 60 anos de idade ou mais. Isso representa pouco mais do que 15% de toda a população no estado - um salto de 3% em relação a 2012. E a mulheres são maioria. Tanto no geral do estado quanto em relação aos idosos.

Comando
Ou seja, mulheres como dona Domingas Pereira, 81, estão no comando e no poder. Cheia de vida, ela é uma entre as várias idosas em quarentena total e não esconde que sente falta de sua rotina. A saudade da rua e das lojinhas que visitava, nem que fosse apenas para dar uma olhada, só não é maior que a dos filhos e netos impossibilitados de vê-la por conta das medidas restritivas.

"Agora mesmo vai ter Dia das Mães e todo o mundo tem que ficar em suas casas, sem poder me ver e eu não posso ir pras casas deles. Tenho saudade dos meninos que não podem vir me ver, dos netos. Estou pedindo a Deus que isso acabe logo", conta.

Domingas Santana encontrou nos 'fuxicos' um aliado para passar o tempo e enfrentar a saudade durante a pandemia (Foto: Louise Ross/Acervo Pessoal)

Do outro lado da parede, a saudade também se faz presente. Dona Berenice, ou Bebé, é sogra de uma das filhas de Domingas e a casa das duas, no bairro da Vila Laura, centro de Salvador, são coladas. Bebé e seus 85 anos andavam pra cima e pra baixo Salvador afora para fazer compras e visitar suas amizades (com direito a cafézinho) no hospital do Exército.

"Tenho feito bordados, palavras cruzadas, vejo televisão e é isso mesmo. Antes eu saía, ia ao banco, visitava meus amigos e sinto falta disso", desabafa.

De ponto em ponto, Berenice passa o tempo no sofá de casa (Foto: Louise Ross/Acervo Pessoal)

Ainda em Salvador, Maria do Carmo Benevides Sarno diz seu nome em alto e bom som. A voz só esmorece um pouquinho quando fala na saudade de ir à Faculdade Livre da Terceira Idade, na Uneb. Apenas um entre seus vários compromissos semanais que foram suspensos..

"Tenho rezado, orado muito. Estou fazendo palavras cruzadas, estudando. Lendo, gosto muito de ler. Outra coisa que faço em casa é comer! Lavo um prato, enxugo outro. Não posso varrer por causa da minha coluna. E agora eu vejo minhas novelinhas", conta aos risos.

O trio integrado por Berenice, Domingas e Maria faz parte de uma outra estatística interessante da população baiana: a presença feminina aumenta de acordo com a idade. Elas são 55,3% das pessoas de 60 anos ou mais e chegam a 61,3% no grupo de 80 anos ou mais.

De palavra em palavra, Maria do Carmo escreve, pensa, lê, reza e corre da Covid-19 (Foto: Isadora Sarno/Acervo Pessoal)

Analista de dados do IBGE, Mariana Viveiros explica que uma série de fatores pode justificar essa maior presença feminina. Em geral, os homens costumam morrer mais cedo, vítimas de causas diversas como acidentes, violência ou enfermidades. Além disso, as mulheres têm mais cuidados com a saúde, adotando uma rotina médica melhor definida, por exemplo. Principalmente nas capitais.

Sobre o envelhecimento da população baiana, a analista diz que a Bahia, assim como o Nordeste em geral, era um estado muito jovem até o início desta década. Com o passar do tempo, a taxa de natalidade diminuiu, bem como o número de crianças e adolescentes. E aí a matemática simplifica: se tem menos gente nascendo, há mais gente envelhecendo. Hoje somos o segundo estado que menos cresce em termos de população em todo o Brasil, atrás apenas do Piauí. 

"As pessoas estão vivendo mais. Como a população não cresce na mesma proporção, há um ganho na população de idosos", afirma Mariana Viveiros.

As capitais em geral passam por um processo de envelhecimento ainda mais notório. Em Salvador, quase 2 a cada 10 pessoas são idosas. Eles já representavam 489 mil, ao todo, no último ano.

* Com orientação da subeditora Clarissa Pacheco

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