Água e nada mais: dieta do jejum provoca perda de peso e divide especialistas

saúde
30.06.2019, 06:25:00
Atualizado: 30.06.2019, 10:38:17
(Ilustração: Morgana Miranda/CORREIO)

Água e nada mais: dieta do jejum provoca perda de peso e divide especialistas

Pessoas chegam a ficar um dia inteiro sem comer; prática é condenada pelo Conselho Regional de Nutricionistas

É muito provável que os primeiros seres humanos tenham passado dias sem triscar em comida. Caminhavam longas distâncias, em grupos, até que a sorte lhes sorrisse na forma de um animal. A história do homem é a de um conhecedor do jejum. Nos últimos tempos, pessoas decidiram espontaneamente regressar milênios e pararem de comer. Agora, passam horas de privação para perder peso ou em busca de melhorias na saúde. Há quem já tenha perdido 37 quilos apenas com o jejum e quem use o jejum como estratégia para envelhecer bem. O que acontece com o corpo neste período, contudo, ainda é um mistério. 

O jejum intermitente é a nova sensação no cardápio das dietas, embora seja contraindicado pelo Conselho Regional de Nutricionistas da Bahia. É comum começar com 8 horas de jejum, depois seguir para 14 e 16 horas, e, por último, um dia inteiro sem ingerir nenhum alimento. O corpo precisa se adaptar à diminuição de energia. De certa forma, sente-se agredido, pois precisa começar a economizar energia para suprir todas as necessidades. Já os benefícios variariam desde a perda de peso à possibilidade de um envelhecimento mais saudável. 

Numa noite de estresse, a designer Verena Tatiana Santos, 32 anos, encontrou o vídeo que mudaria completamente seu cardápio alimentar. Depois de completar 30 anos, começou a pensar como seria o envelhecimento. O maior medo era o Alzheimer. Encontrou, então, uma proposta diferente de tudo já visto: o médico norte-americano Mark Mattson explicava como seria possível prevenir a doença com o jejum, a partir do processo da liberação de antioxidantes. 

“Fiquei alucinada, li os livros dele e resolvi fazer. Eu li muito conteúdo antes de começar. Comecei fazendo jejum de oito horas. Hoje, só almoço e janto. Não faço nada por moda, tenho pavor de dieta maluca”.

Logo, começou a notar diferenças nos hábitos. Já não sentia sentia tanta fome, havia deixado de comer simplesmente por impulso. Até que, em novembro do ano passado, tomou a decisão de passar sete dias sem comer, na tentativa de desintoxicar o corpo. Parou no quarto dia, com um prato de feijão, depois de a fome dar os primeiros sinais. Quando falou com a reportagem, Verena já estava há quase 21 horas sem ingerir nada, exceto água. Pouco depois, no jantar, comeu um escondidinho de fumeiro com banana da terra.


Verena Tatiana serviu de inspiração para outras pessoas da família 
Foto: Arisson Marinho/CORREIO


A família logo ficou curiosa pelo uso do jejum como método antienvelhecimento. E os amigos já questionavam a sanidade mental de Verena. "É incrível como as pessoas ficam nervosas quando você muda hábitos alimentares. Mesmo quando eu resolvi comer menos açúcar", lembra. Foi então que a tia Ozenete Falcão, no ano passado, se tornou aliada. De tanto ouvir a sobrinha, ficou curiosa sobre a possibilidade de envelhecer bem da qual tanto Verena falava. Aos 62 anos, decidiu que também faria o jejum.

"Depois do jejum eu ganhei mais saúde. Estou procurando introduzir uma alimentação mais saudável para associar. Muitos por não entenderem a busca por saúde melhor acham loucura".

Depois de dois anos, Verena, que já discutiu em almoços de família e costumava alegar uma fase de obrigação religiosa para justificar porque não comia, ganhou outra aliada, a prima Marcele Falcão. Novata, Marcele já ficou 14 horas sem comer. A reportagem entrou em contato com neurologistas, médicos e nutricionistas para entender se o jejum diretamente está relacionado ao Alzheimer e ao envelhecimento. A neurologista Elza Magalhães descartou de imediato a hipótese.

"Não tem nenhuma prova científica, não tem nada publicado mostrando. Em relação a envelhecimento até pode ter a ver, mas Alzheimer é uma doença de carga genética muito forte. Jejum não altera genética", explicou. 

A nutricionista Juliana Lisboa justifica que o envelhecimento, por outro lado, pode estar associado a um melhor funcionamento do organismo. O corpo começa a substituir a glicose adquirida via alimentação por corpos cetônicos. E o cérebro é um dos receptores. "As cetonas são poderosos antioxidantes. Como são antioxidantes, previnem o envelhecimento. Por isso, o jejum intermetimente é neuroprotetora, porque previne que o neurônio envelheça", pontua a nutricionista.

Emagrece?
O emagrecimento seria o outro, e mais procurado, caminho. Funciona como um ciclo. Sem novas fontes de energia, o corpo precisa de outros meios de sobrevivência. Têm início, então, os processos de queima de outras moléculas com energia. Somente água, café e chá - e em casos específicos - são permitidos. 

“É uma dieta neuroprotetora, porque eu não estimulo meu corpo a produzir insulina [um dos responsáveis pelo apetite e armazenamento de gordura] o tempo todo. Meu corpo começa a gastar com mais facilidade gordura e proteínas como fonte de energia”, explica a nutricionista Juliana Lisboa. 

Era final de 2017 quando Miwki Abe chegou à sala de uma nutricionista. Avisou que não conseguia fazer nenhuma dieta restritiva, mas queria perder pelo menos 40 dos 98 quilos. Foi quando Miwki estranhou: ficar horas sem comer? “Eu só tinha ouvido falar que Debora Secco tinha feito. Pensei que não seria o apropriado para mim. Uma mulher magra daquelas... Mas decidi começar”, lembra. Primeiro, o jejum de oito horas foi concentrado no sono. Quatro meses depois, alternou o jejum para 16 horas. 

A estranheza foi imediata. Sentia-se fraca, como se prestes a desmaiar. A nutricionista recomendou 14 horas de jejum. O saldo, pouco mais de um ano depois, foram 37 quilos perdidos. E a readaptação.

“A parte mais difícil é largar o jejum. Porque você se habitua. Era difícil no meio da tarde fazer um lanche”, conta.

E é justamente nessas estranhezas que podem morar o perigo para o corpo. Afinal, os quase desmaios de Miwki têm significado e os especialistas estão divididos em aceitar o jejum.

Ficar sem comer? Especialistas se dividem
O que, de fato, acontece com o corpo nas horas do jejum é algo ainda não compreendido inteiramente por nutricionistas e médicos. Os estudos são poucos e, os existentes, testados em ratos. Por exemplo, o aumento do período catabólico, celebrado como um benefício, pode trazer um efeito secundário: a perda de massa muscular, já que as proteínas são quebradas com mais facilidade na busca do corpo pela sobrevivência. 

Os pacientes da endocrinologista Silene Andrade sequer podem cogitar o jejum se quiserem continuar o tratamento. Sem evidências científicas, como prescrever? É o que se pergunta a médica. Depois de horas sem comer, a hipoglicemia, baixa concentração de açúcar, pode ser elevada às alturas e começarem as síncopes, os desmaios, explica a endocrinologista. É de onde vem o conhecido desespero por açúcar depois das dietas. 

“Estamos preocupados pois a coisa está muito difundida. É muito difícil manter isso num período grande. Infelizmente, as pessoas têm procurado pílulas milagrosas”, opina. 

Os diabéticos, por exemplo, poderiam ter um grave descontrole de açúcar no sangue. A conselheira do Conselho Regional de Nutricionistas Cristina Menezes diz que todas as recomendações vêm baseadas no Guia Alimentar da População Brasileira, que recomenda de cinco a seis refeições por dia.

“É o que promove melhor saciedade, controle glicêmico, evita compulsão alimentar na refeição. O que recomendamos é isso”, explica.

Sim, porque, depois de horas sem comer, a vontade pode ser de comer o mundo. Qualquer dieta só deve ser feita com a orientação de profissionais de saúde. A dieta do jejum intermitente, quando é prescrita, deve ser precedida de, pelo menos, dois três procedimentos: uma análise de toda a composição corporal, um rastreamento metabólico e o exame de sangue. Há excesso para ser utilizado como reserva? É preciso um suporte enérgico? 

“Para fazer o jejum intermitente, a densidade nutritiva é importante para aguentar períodos sem comer. Não é a mesma coisa que passar fome. Porque meu corpo vai estar nutrido”, justifica Juliana. 

Somente o corpo devidamente nutrido, portanto, seria capaz de resistir ao jejum sem prejuízos imediatos ao organismo. 

A saga do jejum: da história à religião
É difícil avaliar o impacto do jejum intermitente para quem pratica exercícios físicos, avalia Jamile Moraes, nutricionista especializada em nutrição esportiva. Tudo depende de cada composição bioquímica.

“Para avaliar o benefício e possíveis riscos da utilização do jejum intermitente em substituição a outras modalidades convencionais de perda de peso ou para outro fim. Quando, falamos de praticantes de exercícios físicos que buscam performance esportiva, precisamos avaliar cada esporte (futebol, musculação, tênis, crossfit, corrida, triátlon, etc) e as diferentes estratégias adequadas ao treino do atleta e a sua individualidade”.

O cuidado deve ser sempre adequar o consumo de macronutrientes como proteínas e gordura para que o um treino seja eficiente. Ou, no mínimo, executável da maneira correta.

Pouco antes do nascer do sol, é hora da primeira refeição. Às 5h28, Alice faz sua primeira refeição. Depois do desjejum, comerá apenas às 20h15, quando o sol tiver desaparecido no horizonte. São 30 dias de jejum até qu a mesa possa ser arrumada fartamente com tâmaras, frutas secas, verduras. É do Ramadã, período sagrado para os mulçumanos, que surge o interesse da comunidade científica pela prática do jejum. 

O jejum é um período de purificação adotado pelos mulçumanos no nono mês do calendário islâmico, entre maio e junho no calendário romano. É a forma encontrada para fortalecer a paciência, conectar-se com Deus. O primeiro da empresária baiana Alice Barbosa, 44, foi em 2018. A sensação costuma ser de leveza, quando o jejum é relacionado a um fim espiritual.

“Me sinto leve, menos ansiosa para comer, o jejum faz com que eu terminasse com maus hábitos alimentares. Hoje, o almoço é uma refeição corrida. Nos faz pensar em preparar algo gostoso e saudável"

No último Ramadã, o jejum voltou a romper os limites da religião e ganhar os noticiários. Chamou atenção o desempenho do jogador de basquete Enes Kanter, do Portland Trail Blazers, durante o NBA, maior liga de basquete profissional do mundo. Os comentaristas estavam certos de que o rendimento do atleta estava abaixo do esperado. 

"A gente depende de aporte calórico para tudo", ressalta a endocrinologista Silene, que despertou o interesse para o tema do jejum intermitente justamente devido ao Ramadã. 

A prática do jejum aparece em vários momentos da história. O vecendor de prêmio Nobel de medicina de 2016 Yoshinori Oshumi afirma que o jejum pode aumentar a longevidade, a partir da autofagia, um mecanismo importante de autolimpeza. A bíblia também é repleta de passagens sobre o jejum como uma prática de purificação. 

Não podem fazer 
Doentes crônicos;
Diabéticos;
Histórico de distúrbios como anorexia e bulimia; 
Mulheres graves ou lactantes;
Pessoas com úlcera no estômago.


O que as pessoas comem entre um jejum  e outro?
Proteína -  possui grande poder de saciedade e ajuda na formação de massa muscular.

Frutas - o sistema digestivo não precisa de muito tempo para dissolver e é fonte de nutrientes.

Verduras -  são fontes de variados  nutrientes e podem compor pratos principais junto com proteínas.
 

*Com supervisão da editora Mariana Rios e do chefe de reportagem Jorge Gauthier


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