Álcool na mão e no copo: busca por licor para o São João dispara e assusta produtores

bahia
25.05.2021, 05:15:00
Atualizado: 08.06.2021, 09:30:38
Existe mais de 20 sabores diferentes a bebida (Foto: divulgação/ Licor de Cachoeira)

Álcool na mão e no copo: busca por licor para o São João dispara e assusta produtores

Produtores temem não dar conta diante de grande procura por parte de quem não abre mão da bebida

A tradicional festa de São João pode até não acontecer esse ano, mas uma certeza é de que o licor vai, sim, alegrar a mesa dos baianos. A venda da bebida mais famosa do arraiá cresceu 50% em algumas fábricas, na comparação com o ano passado, e outros produtores estão com a agenda tão lotada que decidiram parar de aceitar novos pedidos.

As ruas e ladeiras de Cachoeira, no Recôncavo, ficam frenéticas nesta época do ano. São tantos turistas e baianos de outras regiões do estado que vão até o município em busca dos produtos juninos que, em alguns trechos, há engarrafamento de gente e fica difícil caminhar pelo calçamento de paralelepípedos. Mas, no ano passado, o jogo virou. A pandemia afugentou os clientes e deixou muitos produtores com a mão na cabeça.

Cachoeira é famosa pela produção de licor (Foto: Licor de Cachoeira/Divulgação)

O gerente da fábrica de licor Arraiá do Quiabo, André Oliveira, contou que o lockdown pegou os comerciantes de surpresa e que não houve tempo para se adequar a uma mudança tão brusca. Agora, depois de um ano de experiência, o mercado se adaptou e o jogo está virando de novo. A empresa em que André trabalha, por exemplo, criou uma logística para fazer entregas agendadas. Resultado: agenda lotada até 23 de junho.  

“O sistema é simples, o cliente liga, marca o dia e o horário, e retira o produto presencialmente. Tivemos que montar uma estrutura fora da fábrica para evitar aglomeração e estamos controlando a logística para não ter tumulto no momento da retirada. Comparado com o ano passado, estamos vendendo muito mais. A agenda está lotada”, diz.

O WhatsApp da empresa está recebendo mais de 200 mensagens por dia de pessoas que querem comprar alguns dos 23 sabores disponíveis nas redes sociais recém-turbinadas da fábrica, e a média de vendas está sendo de 7 mil litros por semana. Ainda assim, o número está muito distante das 100 mil garrafas de licor que são comercializadas entre maio e a véspera do São João em tempos normais.

“A gente não pode fazer aglomeração na fábrica, então, estamos com 42 funcionários. Nessa época do ano, seriam 110 pessoas. A demanda está alta, mas tivemos que reduzir a produção e, por isso, vamos parar de aceitar novos pedidos”, conta.

Renda
O mais interessante é que a justificativa para o crescimento nas vendas é justamente a pandemia. Isso mesmo, a pandemia que poderia ser um motivo de crise, transformou a bebida em uma oportunidade de renda. Primeiro, o licor fará alegria daqueles que planejam fazer a festa em casa, como o estudante Rafael Alves, 26 anos.

“A gente sempre viajava nessa época do ano. Então, comprava só um ou dois litros de licor para beber no caminho. O que a gente consumia pra valer era na festa, fosse Amargosa ou Senhor do Bonfim, onde a gente tem parente. Esse ano, como ninguém vai viajar, a gente comprou a caixa de licor e vamos fazer a festa em casa”, diz.

Segundo, muitas pessoas que perderam o emprego por conta da crise econômica provocada pelo coronavírus decidiram virar revendedoras de licor neste período do ano, o que fez crescer os pedidos. Na fábrica Licor do Porto, o aumento nas vendas foi de 50% em relação ao ano passado. O proprietário da empresa, Vinicius Nascimento, contou que investiu em publicidade.

“A procura sempre tem aumentado em maio, porque a venda do licor de Cachoeira se tornou uma opção de renda extra ou até renda principal de alguns desempregados, principalmente na capital. A gente registrou um aumento de 50% por conta do desemprego. Está sendo uma saída para conseguir uma renda”, afirma.

Por outro lado, ele se queixou dos preços dos insumos. Açúcar, cereais e, principalmente, o álcool usado na produção da bebida ficaram mais caros. O resultado foi o reajuste no preço das garrafas. “A matéria-prima teve aumento de 40% e o reajuste que repassamos foi de 10%”, diz.

Delivery
O que essas duas primeiras semanas de maio demonstraram é que existe um público consumidor que vai manter a tradição de tomar licor na noite de São João, com ou sem festa, e, de outro lado, produtores ávidos por vender, mas que esbarram nas restrições da pandemia. Foi observando esse cenário que o programador de sistemas Adnan Pinho, 22 anos, e o pai dele encontraram um nicho de mercado.

Os dois criaram a Distribuidora Licor de Cachoeira, uma empresa que faz delivery da bebida mais famosa da cidade. Funciona assim: o cliente entra no site, escolhe um dos cinco fabricantes do município e encomenda as garrafas. O pagamento é feito de forma virtual, e as entregas acontecem em todo o Brasil. Eles começaram a operar em março e já bateram a meta que era prevista para junho.

“A gente encontrou clientes que nem sabíamos que existiam. Já entregamos em Brasília, Fortaleza, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e até no Rio Grande do Sul. Como a empresa surgiu em março desse ano, não temos um número para comparar, mas os resultados estão sendo melhores do que o esperado”, conta Pinho.

Entregas acontecem em todo o Brasil (Foto: Licor de Cachoeira/Divulgação)

Salvador concentra 76% dos pedidos, sendo seguida por São Paulo (10%), e por outros estados do Nordeste e do Sul do país. De maneira geral, os sabores mais procurados na loja e nas fábricas são jenipapo, maracujá cremoso, tamarindo, cajá e graviola. Sabores trufados, como maracujá cremoso e graviola já estão em falta.

Já o tradicional jenipapo é o mais fabricado, o mais procurado e também o mais demorado para ficar pronto. O tempo de produção de um licor alterna de acordo com a fruta, e o queridinho leva de oito a dez meses para ir para a prateleira. Porém, frutas como cajá exigem uma preparação mais rápida para não perder o ponto e o licor fica pronto em dois ou três dias. O agricultor Nilton Moraes, 43, se considera um especialista.

“A maioria das pessoas gosta de dois ou três tipos de licor, e sempre compra do mesmo. Eu gosto de experimentar e, não sei por quê, mas gosto de todos. Cada um tem o seu valor, e eu não estou falando do preço da garrafa”, diz, brincando.

E por falar no preço, o valor alterna de acordo o produtor e, em algumas situações, o sabor também interfere. Em média, comprando presencialmente, a garrafa alterna de R$ 8 a R$ 12, mas um licor de doce de leite ou chocolate, por exemplo, pode custar mais caro. No caso do delivery, as garrafas estão custando, em média, R$ 25.

Moraes, que adora licor de café e de banana, propôs um desafio ao leitor. Qual desses sabores você provaria, e qual deles nem pensar?

Jenipapo, maracujá, amendoim, graviola, goiaba, cupuaçu, tamarindo, caju, umbu, coco, morango, e cajá. Esses sabores foram moleza. Vamos para os mais exóticos: jabuticaba, milho verde, passas, ameixa, acerola, gengibre, menta, limão, café, banana, pina colada, kiwi, pitanga, açaí e maracujá com uva. Os mais doces: chocolate e doce de leite. Para encerrar, o mais recomendado nas rodas de amigos: rabo de foguete.

Esta matéria integra o projeto São João no CORREIO que vai reunir conteúdos nas plataformas virtuais e no jornal impresso para resgatar a cultura junina em todos os setores da economia que ela movimenta. Entre as ações estão: o resgate da culinária tradicional, com receitas de cozinheiras do interior; o Momento Junino, com histórias que serão contadas por quem vive essa tradição; o espaço Que Saudade Que Eu Sinto, dedicado aos vídeos e fotos dos leitores com as suas memórias juninas; as reportagens especiais, com conteúdo exclusivo; além do Esquenta Junino, um programa ao vivo no Instagram do CORREIO e apresentações musicais.

"Teremos uma série de conteúdos valorizando a tradição e nossas raízes. Nossas equipes produzirão reportagens especiais, vídeos e interações ao vivo, além de interações em multiplataformas digitais", informou Jorge Gauthier, chefe de reportagem do CORREIO e responsável pelas ações digitais. 

Marta Sousa, gerente de marketing do CORREIO, lembrou que o jornal sempre foi um incentivador da festa junina e amplia o projeto este ano para trazer o calor da fogueira para dentro das casas de cada um dos baianos. "O São João no CORREIO foi criado para dar continuidade e não deixar esfriar o coração do baiano, que pulsa no ritmo do forró assim que se encerra o Carnaval. Para que não sinta uma saudade maior do que já está sentindo", finalizou. 
 

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