Além da areia da praia imunda, há sujeira também no mar da Barra

salvador
14.01.2012, 08:24:00

Além da areia da praia imunda, há sujeira também no mar da Barra

Fotos de mergulhadores no mar da praia do Porto da Barra revelam que a sujeira não está apenas na areia

Rafael Rodrigues/ Ítalo Oliveira
mais @correio24horas.com.br

No meio de peixes e corais, copos, sacos e garrafas de plástico, embalagem de picolé, recipiente de protetor solar,sandalhas, bandanas, camisinha e muitas latinhas de bebida. Quem decide mergulhar próximo à praia do Porto da Barra nos fins de semana e após festas como Reveillon ou Carnaval vive a desagradável experiência de sentir-se em pleno lixão abaixo da linha do mar.


No fundo do mar do Porto da Barra, há copos, sacos e garrafas de plástico

"Um dia depois de uma festa ou final de semana com volume maior de pessoas fica uma bagaceira, e não é somente o banhista, mas o pessoal dessas lanchas caras e luxuosas que poluem", lamentou o instrutor de mergulho Gilson Galvão, 41 anos, que frequenta o fundo da Baía de Todos os Santos há mais de 20 anos.

Apaixonado por nossas belezas naturais, Gilson destaca a posição privilegiada da Baía de Todos os Santos para mergulho. “É uma das poucas baías do mundo que a água não é poluída, como é a de Guanabara, no Rio. Tem uma excelente condição de visibilidade, muitos peixes e uma série de naufrágios de navios de séculos passados”, diz. “Não merece está parecendo um aquário cheio de lata”.


Há embalagem de picolé, camisinha e muitas latinhas de bebida

Segundo ele, como o mergulho recreativo com turistas é realizado em águas de maior profundidade, onde se encontram os navios autorizados para visitação, o lixo aparece em pequenas proporções, entre o patrimônio histórico e ambiental baiano.

“Os mergulhadores eventualmente encontram uma latinha, um copo, mas nada como acontece próximo à praia”. Ele lamenta, porém, que estes lixos com o tempo acabam poluindo a qualidade de água, famosa na Bahia por ser cristalina
 Já para o surfista Bernardo Mussi, que fotografa o estrago produzido pelo lixo no fundo do mar, além da falta de educação da população, há uma ausência de iniciativas governamentais consolidadas.

“O que vemos são ações sazonais, campanhas isoladas. Ao contrário do que muitos acham, que a incidência desse problema está diminuindo, ela está piorando, na verdade”, afirma. “Catar lixo no fundo do mar não é a solução, a solução é evitar que o lixo chegue lá”, conclui.

Perigo

Além de danoso ao meio ambiente, o lixo na areia e no mar é perigoso aos freqüentadores. Ato comum nas areias das praias soteropolitanas, a venda de queijo e churrasco em palitos tem causado danos físicos a quem vai à praia. O material é descartado na areia por onde adultos e crianças passam todos dias.

“Outro dia eu vim aqui e quando fui me ajeitar na cadeira, quando empurrei a areia senti uma dor no pé. Fui ver e tinha me furado com um desses palitos de queijo. É um perigo, principalmente pra as crianças que ficam aí correndo e brincando”, indigna-se Alexsandro de Souza, 35 anos, professor de educação física.

Segundo as amigas Urania Santa Bárbara e Elaine Bastos, que aproveitavam a tarde de sexta para tomar  sol, a falta de educação é do povo, mas a culpa é do governo. “Falta ao governo incentivar a conservação e os bons modos. Não basta apenas campanha de conscientização porque isso é uma coisa que deve começar desde cedo. O ensino dessas atitudes cidadãs, como não jogar lixo no chão, tem que ser iniciado na escola”, diz Urania, que é professora de português.

Essa é a mesma opinião do casal de turistas André e Naiara Costa. Ele, mineiro, e ela, baiana de Vitória da Conquista. Para eles, a educação desde cedo é que vai mudar essa realidade de descaso e abandono da população com os bens da cidade. “Falta de investimento na educação das crianças para que aprendam isso desde cedo”, comenta Naiara.

O problema, no entanto, não estaria restrito apenas à população de Salvador. O vendedor Adenilson Nascimento, conhecido como Xuxa, que trabalha como vendedor na praia do Porto há 18 anos, afirma que jogar lixo no chão pode ser um problema cultural brasileiro.

“O povo que é daqui da Bahia joga o lixo também, mas isso acontece com turistas cariocas, paulistas, cearense, pernambucanos,. Eu acho que a falta de educação é geral. Raramente você vê um estrangeiro deixando o lixo na areia ou jogando coisas na água do mar”, afirma Xuxa.

Esse é um problema que não afasta apenas os turistas, mas também moradores do bairro. “Eu vinha mais, mas é tanta sujeira, tanta imundice que eu prefiro ficar em casa. No Verão, então, nossa senhora tenha piedade dessa praia”, afirma a moradora aposentada Ana Mendonça, que mora no bairro há 34 anos.



Armadilhas

O oceanógrafo Guy Marcovald, do projeto Tamar, alerta que o lixo acumulado no fundo do mar pode comprometer a fauna marinha. Isso porque alguns destes dejetos podem se tornar verdadeiras armadilhas.Segundo ele, algumas latinhas, por exemplo, podem se prender em peixes, causando ferimentos que os matam. “Para as tartarugas, o principal perigo é que elas comem os plásticos achando que é comida, que estão comendo água viva”.

O especialista cita que o principal problema da poluição no fundo do mar continua sendo os rios urbanos que desembocam nas praias e trazem em suas águas boa parte do lixo recolhido na cidade. Ele lamenta, entretanto, que ainda hoje seja grande a quantidade de pessoas que poluem as praias. “Neste caso os olhos estão vendo e o coração está sentindo. Isso é um problema de educação sério”.

Banhistas têm culpa

Falta de conscientização, falta de educação, omissão do poder público... As causas para a sujeira encontrada nas praias e no mar da Barra, em Salvador, são muitas, mas a consequência é uma só: prejuízo para todos. Além do lixo recolhido nas praias do Porto e do Farol da Barra, uma outra parte desse material vai parar no fundo do mar e a culpa também é nossa.

“Não é culpa só do governo. Têm latas de lixo na praia, o que custa a pessoa terminar de comer e beber e jogar a latinha e o pratinho na lata? A culpa é principalmente das pessoas, que não têm consciência e nem um pingo de educação”, afirma a vendedora ambulante Márcia da Cruz, 53 anos, que trabalha na praia do Porto.

“Você vê os pais deixando as crianças irem pra o mar com garrafinha de água, brincando com lata de refrigerante na beira do mar. Aí, na hora de ir embora, eles são incapazes de pegar das crianças e jogar na cesta do lixo. Às vezes, os próprios pais tomam das crianças e jogam na água”, reclama Márcia. Segundo a vendedora, o problema do lixo afasta todos, apesar das praias da Barra estarem sempre cheias.  "Podia estar mais cheia ainda", finaliza.


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