Após ter casa invadida, família de Val Bandeira procura Ministério Público

salvador
03.07.2018, 05:00:00
Atualizado: 03.07.2018, 14:53:02

Após ter casa invadida, família de Val Bandeira procura Ministério Público

Suspeita é a de que policiais reviraram a casa, levaram R$ 1 mil e juraram até crianças de morte

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A família do traficante Josevaldo Bandeira, o Val Bandeira, vai denunciar nesta terça-feira (3) ao Ministério Público Estadual (MPE) o arrombamento e invasão da casa de um dos fundadores da facção Comando da Paz (CP), na localidade de Sucupira, no bairro de Santa Cruz.

O CORREIO teve acesso às imagens da residência. Computador quebrado, gavetas reviradas e roupas espalhadas no chão - em um dos cômodos, estão um berço e roupas de bebê. Televisão jogada na sala, sófa e camas destruídas. 

Computador foi quebrado na ação
Computador foi quebrado na ação
Gavetas reviradas na casa
Gavetas reviradas na casa
(Divulgação)

Segundo fontes ligadas à família, a casa foi invadida por policiais militares do Batalhão de Choque, que tem concentrado suas ações no Complexo do Nordeste de Amaralina – região formada pelos bairros de Nordeste de Amaralina, Santa Cruz, Vale das Pedrinhas e Chapada do Rio Vermelho, áreas sob domínio do CP. Segundo os relatos, os policiais pararam as viaturas em um local distante e seguiram a pé até a residência de Val Bandeira,  que ganhou liberdade condicional na última terça-feira (26), após passar 15 anos preso por conta de diversos crimes.

Como as fontes apontam que os crimes foram cometidos por policiais militares, a mulher de Val Bandeira e os filhos devem ser ouvidos por um promotor do Grupo de Atuação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial (Gacep). O CORREIO procurou o advogado da mulher do traficante, mas não obteve sucesso.

O policiamento seguia reforçado, nesta segunda-feira (2), na região do Complexo do Nordeste.

Ameaças
Na quinta-feira (28), homens encapuzados e vestidos de preto invadiram a casa de Val Bandeira. No momento da ação, só estavam na casa a mulher de Val, que é pastora de uma igreja evangélica, os quatro filhos do casal e uma outra moça. Além de revirar a casa, os homens levaram R$ 1 mil e juraram até crianças de morte.

Fora a esposa, todas as pessoas que estavam na casa tinham entre 2 e 16 anos. A residência foi revirada e dinheiro - pouco mais R$ 1 mil - e bijuterias foram levados, mas a busca era por Val. No momento, ele não estava em casa.

Leia também: Nordeste de Amaralina: Val Bandeira comanda mortes e tráfico de drogas

Apesar de negar que ainda continue comandando do tráfico de drogas na região, a liberação de Val Bandeira foi comemorada com fogos por parte da comunidade. Assista:

Três suspeitos mortos
Ainda na quinta, três homens morreram em ataques provocados também por homens encapuzados, entre eles um taxista. Na mesma noite, dois policiais militares foram baleados - um deles na cabeça, e internado em estado grave -, próximo à Travessa Sucupira, endereço declarado por Val Bandeira à Justiça, antes de ser liberado. O paradeiro dele é desconhecido.

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) informou na última sexta (29) que investiga as mortes de suspeitos ligados ao tráfico de drogas. Os três mortos, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), foram atingidos por disparos de arma de fogo.

O taxista Adilton Bonfim Santos Barreto, 34, apontado pela SSP como motorista da quadrilha de traficantes local, foi atacado por volta das 20h50. Ele foi baleado dentro de casa na Rua André Luiz, no Vale das Pedrinhas. Segundo informações do posto policial do Hospital Geral do Estado (HGE), para onde o taxista foi socorrido, Adilton teve sua casa invadida e foi baleado na cabeça, no lado esquerdo e direito do tórax e na mão direita. A vítima foi levada por um vizinho, também taxista, para o HGE. Adilton morreu às 23h15, segundo registro policial feito na unidade de saúde.

Também no Vale das Pedrinhas, às 21h39, os policiais da 40ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Nordeste de Amaralina) receberam a informação que havia um corpo em uma via do bairro. Ao chegar no local, os PMs identificaram a vítima como Jean Pessoa de Jesus, 23. Ele foi baleado, mas a autoria e a motivação ainda são desconhecidas. O jovem chegou a ser socorrido em uma viatura  e encaminhado para o HGE. Jean tinha passagem no DHPP. O terceiro morto foi Emerson Fiuza dos Santos, 18, também alvo de disparos de arma de fogo por parte dos encapuzados.

PM em estado grave
Horas antes das três mortes no Complexo do Nordeste de Amaralina, dois policiais militares lotados na 40ª CIPM foram baleados, por volta das 17h, na Sucupira. O endereço informado pelo fundador do CP à Justiça é 2ª Travessa Sucupira, s/n, Alto da Santa Cruz, próximo ao Colégio Teodoro Sampaio.

De acordo com informações do boletim de ocorrência registrado no posto da Polícia Civil, do HGE, os policiais militares Ângelo Soares Portelo, 35, e Telmo Santa Rosa, 44, estavam entregando um ofício em uma associação a bordo de uma viatura na Rua Teodoro Sampaio quando foram surpreendidos por cerca de 20 homens armados. 

Ainda de acordo com o boletim, os bandidos estavam armados com metralhadoras, pistolas e fuzis. Ao avistar os policiais, o grupo começou a atirar, baleando Ângelo na cabeça. O estado dele não foi divulgado. 

Já o PM Telmo foi atingido de raspão no braço direito. Ao verificar que o colega tinha sido atingido na cabeça, o PM, que estava dirigindo a viatura, deu ré e conduziu o veículo, mesmo ferido, até o HGE. Ângelo perdeu a visão do olho direito e estava internado até esta sexta no centro cirúrgico da unidade de saúde. Telmo recebeu alta após ser atendido. 

Liberdade condicional
Condenado por crimes como homicídio, tráfico de drogas e associação ao tráfico, Val continuava, segundo a polícia, controlando a venda de entorpecentes no Complexo do Nordeste de Amaralina, mesmo de dentro da cadeia. Considerado o nº 1 do CP, ele estava preso na Mata Escura e passou por Sessão de Livramento Condicional na 2ª Vara de Execuções Penais, em Sussuarana. Após a audiência, comandada pela juíza Maria Angélica Carneiro, ficou decidido que ele seria liberado com o dever de seguir algumas determinações da Justiça.

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