Aqui pra você: um guia informativo para nunca mais falar besteira sobre o Nordeste

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06.02.2021, 10:59:00
Atualizado: 06.02.2021, 15:17:19
Participante do BBB, a paraibana Juliette Freire foi alvo de xenofobia no reality (Fotos: Reprodução/Twitter)

Aqui pra você: um guia informativo para nunca mais falar besteira sobre o Nordeste

Pesquisadores nordestinos comentam uma lista de frases que foram perpetuadas ao longo do tempo para diminuir a força socioeconômica da 2ª maior região do país

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Assunto da criticada capa da Veja São Paulo, da escancarada xenofobia da rapper Karol Conká contra a paraibana Juliette Freire no BBB 21 e tema da redação do primeiro Enem Digital da história, o Nordeste entrou para os tópicos mais comentados das redes sociais nas últimas duas semanas. A avalanche de publicações ainda entrou no mérito do conceito preconceituoso de “o que é ser baiano”, que constava no site Dicionário inFormal, depois corrigido pela plataforma.

Essas discussões, sobretudo em torno da matéria da revista sudestina e do discurso insistente e agressivo da artista curitibana, reforçaram ainda mais a importância de se debater as desigualdades regionais do país não apenas no maior reality e exame educacional do Brasil, mas em toda a sociedade brasileira.

Para colaborar com esse debate, o CORREIO, em parceria com o jornal O POVO, do Ceará, convidou pesquisadores nordestinos para mostrar que algumas das ideias que propagam sobre o Nordeste não são nem um pouco ingênuas. Foram e continuam sendo propositadamente perpetuadas para reduzir a força socioeconômica do território formado por nove estados. Através da internet e depoimentos de pessoas, coletamos frases que costumam dizer sobre a região e, com elas, preparamos um guia informativo para ajudar a parar de reproduzir besteiras em relação ao Nordeste.

Autor de um dos livros mais importantes sobre o tema, o historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., escritor da obra “A Invenção do Nordeste” (Editora Cortez, 376 p.), nos conta que o conceito de Nordeste surgiu no fim da década de 1910. Antes disso, o termo aparecia como uma mera localização geográfica entre Norte e Leste. Mas, foi a partir disso que políticos, intelectuais, representantes das elites agrárias e mídias de outras regiões começaram a trabalhar nesse conceito, assentando um discurso de que os estados que compõem esse território são tudo a mesma coisa, um bolo, uma paisagem única. 

Ilustração: Casa Grida com Adobe Stock

Mesmo que o Nordeste seja bastante diverso no paisagismo, ele passa a ser reduzido à seca e lembrado por uma cultura colonial portuguesa, africana e indígena, se diferenciando em relação ao Sul, que vai foi sendo caracterizado com a imigração estrangeira de alemães e italianos. Isso ajuda a explicar que é no racismo e xenofobia que estão muitas das raízes dos preconceitos dirigidos a nordestinos, que são vistos como pardos, mestiços e negros, enquanto sulistas se veem como branco-europeus.

“Há um corpo do nordestino: é o cabeça-chata, o baixo, o pequeno, o subnutrido. A nossa indústria é vista como não-industrial, não moderna, é uma cultura artesanal, folclórica. O Nordeste é sempre pensado como um espaço parado no tempo. É lido como o espaço da memória, da saudade, da nostalgia. É por isso que [a capa da Veja fala que] a capital moderna para o Nordeste tem que ser São Paulo”, diz o historiador.

O problema é que a carga destas ideias não ingênuas fez o Nordeste virar sinônimo de atraso e isso até hoje inviabiliza oportunidades na região. Por esse motivo, pesquisadores defendem que é preciso desfazer estereótipos e questionar a centralidade do discurso repetitivo vindo do Sudeste porque o Nordeste não ficou imune às transformações.

1. “Ah, eu sei que tem nove estados, mas é tudo a mesma coisa”

Já percebeu que falam da região nordestina da mesma forma como costumam falar do continente africano? Retratam os estados da segunda maior região do país como se fossem tudo uma coisa só, sem singularidades internas. Cada um dos estados é, na verdade, muito peculiar, com bastante diferença na cultura, economia, história e geografia. Imagine que existem diferentes ritmos, comidas, costumes, vestimentas, sotaques, crenças e lendas, festas, etnias, um universo! Nem a famosa caatinga, um bioma exclusivamente brasileiro e que ocupa a maior parte do território nordestino, é igual em todo lugar. Há tipos distintos e até microclimas!

Geógrafo, o professor Marco Antonio Tomasoni, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), dá logo o esporro: “Homogeneizar a região é um erro gravíssimo. Quando se olha para os nove estados como se fossem todos iguais, você está apagando uma diversidade cultural imensa”, alerta.

2. “É um lugar mal desenvolvido, retrógrado”

Não é raro ver termos como “rincões” e “Brasil profundo” para retratar o Nordeste, o que acaba criando imagens que levam a pensar que esta é a parte atrasada do país. Pesquisadora do semiárido, a professora Gislene Moreira, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), relata um caso que registra muito bem como a propagação destes discursos são responsáveis por formar ideias erradas sobre a região. 

Certa vez, quando organizava um congresso sobre cultura em Juazeiro, na Bahia, convidou professores do país inteiro para refletir questões a partir do Sertão. Ao ligar para um deles, ouviu: “A ideia é legal, mas como é que eu vou para aí? De jegue?”. Além de ter aeroporto em Petrolina, a 10 min, Juazeiro tem tecnologia de ponta em produção agrícola, com alto volume de exportação e, diferente da Europa, as vinícolas da cidade produzem o ano inteiro.

A pesquisadora aponta que quando esses pensadores forasteiros chegam ao Sertão, mesmo diante de todas as transformações, ainda continuam repetindo estereótipos como se o Sertão e as pessoas que fazem o Sertão se mantivessem miseráveis e todas flageladas pela seca. 

3. “Não tem mão-de-obra qualificada”

Mentira das grandes. Só nos últimos três anos, o número de cursos de mestrado e doutorado das universidades do Nordeste com conceitos 6 e 7, os mais elevados da Capes, saltou de 9 para 37. Além disso, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia foram interiorizados e formam pessoas para o mercado de trabalho com cursos voltados para a realidade econômica local. Isso sem falar em toda a rede do Sistema S espalhada pela região (Senar, Senac, Sesc, Sescoop, Senai, Sesi, Sest, Senat e Sebrae). 

Todo um ambiente de inovação e empreendedorismo está em forte crescimento, sobretudo com o Porto Digital, em Pernambuco, e o Hub Salvador, na capital baiana. O Nordeste é terra de origem de startups que se tornaram empresas de sucesso no país, como a JusBrasil, In Loco, Sanar, ZigPay e Agenda Edu.

Mas a carga dos preconceitos sudestino e sulista é tão forte que quase todas as startups nordestinas que ascendem no mercado costumam adotar o DDD 011 por causa da desconfiança que o pensamento hegemônico produzido lá impregnou o imaginário brasileiro. Para não perder oportunidades de negócios, as empresas, inclusive, abrem CNPJ em São Paulo para que os clientes acreditem que são paulistas.

4. “Ah, mas a política é coronelista, né?” 

Levanta-se nas redes sociais e nas análises políticas vindas do Sul e Sudeste uma falácia de que o nordestino não sabe votar, não é suficientemente educado para exercer a democracia e, portanto, teria um voto menos legítimo, analisa o cientista político Cláudio André de Souza, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

“É um grande preconceito. Olham para cá como se a política feita aqui ainda fosse baseada no coronelismo, no mandonismo. Problemas decorrentes destas práticas são percebidos no país todo. É absurdo querer colocar essa visão de que o nordestino é burro, ignorante, que não sabe se comportar do ponto de vista eleitoral”, afirma.

Em referência a esse suposto coronelismo e provincianismo da região, a mídia sudestina e sulista insiste em retratar essas práticas como se esse fenômeno do familismo não existisse em todo o Brasil. O professor menciona ainda que o Nordeste foi por muito tempo colocado à deriva nas políticas públicas.

5. “Nossa, o sol é de lascar! É tudo caatinga e sertão, né?”

Por estar mais próxima da Linha do Equador, a região Nordeste é mesmo mais quente. Isso acontece porque os raios solares incidem de forma direta na superfície durante o ano todo. “Então, o sol influencia no clima e é também por conta disso que temos praias com águas mais quentinhas tão adoradas pelos nossos irmãos do Sul”, explica a geógrafa Telma Ferraz, professora do Instituto Dom de Educar.

Inclusive, esse sol e os fortes ventos do litoral têm feito com que o Nordeste venha se destacando na produção de energia renovável, caminho para o qual a indústria mundial está se dirigindo. Com gigantescos parques espalhados, a Bahia e o Rio Grande do Norte são os estados líderes no país em geração e distribuição de energia solar e eólica, respectivamente. 

Em 2020, os empreendimentos eólicos e solares somente da Bahia geraram energia equivalente a 25% da soma da energia total gerada pela Usina Hidrelétrica de Itaipu e Usinas Nucleares Angra I e II. Se essa equivalência for feita pela capacidade instalada, esse valor, atualmente, é de mais de 34%, segundo cálculo feito pela Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia (SDR) a pedido do CORREIO. Devido a essa disponibilidade de recursos, muitas empresas têm sido atraídas para cá. 

Quase sempre reduzido à imagem do Sertão na produção cultural e jornalística do Sul e Sudeste, o Nordeste é dividido em quatro sub-regiões, chamadas Agreste, Meio-Norte, Sertão e Zona da Mata. De fato, o Sertão é a que abraça quase todos os estados — exceto o Maranhão, que sofre bastante influência da Amazônia. Esta sub-região ocupa a maior extensão do território nordestino, mas não é nela que está concentrada a maior parte da população. A concentração demográfica é muito maior na Zona da Mata, junto ao litoral nordestino.

6. “É uma região de gente pouco instruída, de pouco estudo”

Quem fala uma bobagem dessa não deve saber que existem 20 instituições federais de ensino superior público no Nordeste — fora as 14 universidades estaduais — e que elas são grandes responsáveis por desenvolver a região, atesta o agrônomo Josivan Feitosa, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), do Rio Grande do Norte.

“O Nordeste é muito diferente do que dizem por aí. A gente precisa se orgulhar da qualidade das nossas universidades, que têm ensino de excelência. Houve uma interiorização do ensino superior nunca antes vista nesse país. Agora, o jovem que mora no interiorzinho do Piauí, em Bom Jesus, que fica a mais de 600 km da capital Teresina, tem um campus na sua cidade e naquele campus tem doutores”, aponta. 

Inclusive, o professor observa que muitos doutores formados pela maior instituição do país, a Universidade de São Paulo (USP), não encontraram trabalho no Sudeste, e hoje são professores em instituições nordestinas.

7. “Quase nunca chove, a região sofre muito com a seca”

Uma busca pelo termo Nordeste no Google imediatamente mostrará imagens de belas praias e chão rachado pela seca. Muitas reportagens feitas pelo Sul e Sudeste ajudaram a construir uma ideia preconceituosa de que, exceto pelo litoral, a região nordestina é uma grande fazenda seca cercada por caatinga. Você já percebeu que quando falta água no Sudeste eles chamam de “crise hídrica”? Isso também é uma forma de fazer parecer que a seca é uma realidade unicamente nordestina.

O professor Marco Tomasoni explica que a quantidade de chuva que cai na região varia de um volume de 500mm a 700mm, em média, por ano, uma precipitação suficiente para permanecer e viver com dignidade usando tecnologias de mitigação. Só a título de curiosidade, de acordo com dados do Monitor de Secas, em dezembro de 2020, a região Sul esteve com 100% do seu território em seca, enquanto o Nordeste esteve com 72%.

Jornalista criador do site Meus Sertões, que conta histórias do semiárido nordestino, o carioca Paulo Oliveira, que há mais de dez anos vive na Bahia, teve oportunidade de conhecer de perto como pequenos e médios produtores do Sertão desenvolveram técnicas de armazenamento de águas em cisternas. Segundo ele, o melhor exemplo que viu foi o do agricultor familiar Abelmanto Carneiro, de Riachão do Jacuípe, na Bahia, que construiu reservatórios de água subterrâneos em casa e passou a produzir árvores frutíferas, além de grãos com silagem suficiente para aguentar até 3,5 anos de seca.

“Sem nunca ter feito uma faculdade, o cara montou na fazenda dele uma área de atividades culturais e hospeda pessoas que vão lá olhar como ele conseguiu se desenvolver a esse ponto e desenvolver, inclusive, polpa de fruta. Quando eu vim morar aqui, eu me apaixonei pelo Nordeste porque o que vi desmentia tudo o que me falaram”, relata.

8. “Os nordestinos roubam empregos de sudestinos”

Embora se vangloriem de ter capitais cosmopolitas, é com falas assim que reagem à migração nordestina. Nos grandes centros sudestinos, o trabalho costumeiramente destinado à população migrante do Nordeste são precarizados, com ofícios braçais, informais, domésticos e na construção civil, como bem lembra Gislene Moreira. O capitalismo brasileiro, no fim do século XIX, se constituiu em cima desse “lombo” de nordestinos, o que não aconteceu com os imigrantes europeus que povoam São Paulo.

Na avaliação dela, esse ódio dirigido a nordestinos é fruto da perda de prestígio que o Sudeste vem tendo. Ela considera que a capa da revista Veja é um sintoma de como São Paulo tenta voltar ao seu lugar de conforto, de referência para o Nordeste.

“Esse centro se diz ser o coração do Brasil e sem o nordestino ele não tem alma. Mas essa é uma falsa disputa regional porque quando você beneficia a população que historicamente foi mais vulnerável, você está construindo um tecido social que faz o Brasil crescer mais rápido e com qualidade. A gente não pode repetir o erro de reforçar regionalismos e diferenças porque o Brasil é complexo. Somos um povo mestiço e a gente precisa pagar nossas dívidas”, afirma a pesquisadora.

9. “As pessoas vivem às custas do governo, sobrevivem de Bolsa Família”

Embora a pobreza e extrema pobreza sejam mesmo mais acentuadas no Nordeste, elas estão presentes em todas as regiões do Brasil, aponta o economista Jair do Amaral Filho, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). E é por isso que ele defende que o programa Bolsa Família é legítimo e necessário para o país. Mais da metade dos beneficiados são de estados não-nordestinos, lembra ele.

O Nordeste ainda tem áreas que dependem de políticas públicas para reparar e reduzir desigualdades sociais, mas essa visão de total dependência governamental é falsa. A região tem um forte setor produtivo, com economia diversificada na agropecuária, indústria, serviço, comércio e turismo.

10. “O nordestino é um povo burro, são ignorantes, coitados”

Essas falas contribuíram para manter um pensamento de que só sudestinos e sulistas são pessoas civilizadas, as únicas capazes de desenvolver atividades intelectualizadas. Essa construção não é de agora. Gislene Moreira lembra que o Abaporu (1928), o quadro mais caro do Brasil, retrata uma figura de cabeça pequena e pés grandes. “Então, é como se quem nasce na realidade do sol quente, do cacto, não pudesse pensar. Essa ideia entrou para o modernismo e colocou o nordestino como o trabalhador do corpo, não da intectualidade”, observa ela. 

(Ilustração: Casa Grida com Shutterstock)

11. “O Pará fica no Nordeste”

Não. Sugerimos voltar para as aulas de Geografia. Adoramos o Pará, mas o estado pertence à região Norte.

12. “As pessoas passam fome”

Sim. Há pessoas passando fome no país inteiro e essa situação foi agravada pela covid-19. Segundo a pesquisa mais recente de orçamentos familiares feita pelo IBGE, o país teve mais de 10 milhões de brasileiros atingidos pela fome entre 2017 e 2018. Desse total, mais de 4,2 milhões eram moradores do Nordeste, seguida de 2,5 milhões no Sudeste. 

A segurança alimentar é fortemente determinada pela renda. Então, a fome é maior nas regiões com menor rendimento domiciliar per capita. Embora o Nordeste tenha o maior número absoluto de pessoas ameaçadas pela fome, proporcionalmente ela é maior na região Norte. No passado, antes da industrialização do país, a pobreza era generalizada, mas hoje é mais concentrada nestas duas regiões.

13. “Só toca forró e axé”

Na verdade, o Nordeste tem vasto poder de criação musical e a prova disso é que diversos ritmos produzidos na região estão em ascensão nacional, como o arrocha, o brega funk, a bregadeira, o pagodão baiano e a pisadinha. O território deu origem a ritmos como frevo, brega, maracatu e manguebeat, em Pernambuco; batucada, no Maranhão; repente, na Paraíba; incelença, no Ceará; e, claro, o samba, que tem raiz na Bahia.

Há um pensamento de que a musicalidade nordestina é folclórica e a pesquisadora musical Nadja Vladi, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), explica que colocar a produção regional nesse lugar é uma tentativa de dizer que não é arte, que é uma produção subalterna. 

“Vemos muito essa coisa de quererem colocar a música negra, como a do Olodum, como uma música de raiz. O Olodum não é nada raiz. Como eles mesmos brincam, o Olodum é pop. É um grupo que dialogou com Michael Jackson, que veio para cá gravar com eles em Salvador. Anitta gravou o clipe [Me Gusta] com o samba-reggae da banda Didá e Chibatinha, da Àttooxxá, botando suas bases eletrônicas. Isso é coisa que se consome em qualquer lugar do mundo”, analisa Vladi.

14. “Lá se anda de pau-de-arara”

Os aeroportos de Fortaleza, Recife e Salvador são internacionais e têm voos para países da Europa, Américas do Norte, Central e Sul. Há ainda os aeroportos de porte regional, como os de Petrolina, Jericoacoara, Campina Grande e Juazeiro do Norte, que são impulsionados pelo turismo de lazer e pela dinâmica logística de escoamento de encomendas. 

Como em quase todo o Brasil, o modal mais usado para escoamento da produção é o rodoviário. Há serviço de vans e ônibus intermunicipais, bem como interestaduais. Nos interiores, boa parte dos pequenos produtores rurais têm hoje motos e bicicletas. O transporte por tração animal é cada vez mais raro, afirma o economista Marcos Falcão, coordenador-geral de pesquisas da Sudene. 

15. “As pessoas são preguiçosas”

Abençoado geograficamente com praias em todos os estados, o Nordeste é o maior destino de férias do país. Essa vantagem, no entanto, alimentou o mito de que o nordestino é preguiçoso. “Somos vistos como os desordeiros, os festeiros, os que vivem do balneário. Só que ignoram que isso é parte do nosso potencial, da nossa economia”, diz o antropólogo Marlon Marcos, professor da Unilab. 

Mas Durval Muniz observa que a romantização da região como um paraíso natural foi reforçada justamente por essas políticas voltadas para o turismo, financiadas pela Sudene e pelos governos estaduais. Esse discurso turístico vendeu o Nordeste da “água de coco, da preguiça, da rede e do mar”. 

Para Marco Tomasoni, o nascimento dessa ideia de preguiça também tem relação com o modo como veem a terra nordestina como improdutiva. “[Sul e Sudeste] acham que só eles trabalham porque são ‘desenvolvidos’ e que aqui não se trabalha porque tem seca”, analisa. O nordestino representado na mídia como uma figura pedinte de chapéu na mão também alimentou essa falácia.

16. “Para vencer na vida, tem que ir para o Rio de Janeiro ou São Paulo”

Nascido em uma cidade de 20 mil habitantes no interior da Bahia, o economista Marcos Falcão, doutor em Economia e coordenador-geral de Estudos e Pesquisas em Tecnologia e Inovação da Sudene, hoje mora e trabalha em Recife, já tendo passagem também pelo Ceará. Ele conta que fez doutorado em Minas Gerais, onde tinha o curso específico que queria e, em seguida, retornou ao Nordeste para aplicar o conhecimento. 

“Aqui existem, sim, oportunidades e uma coisa interessante é que o nordestino quando se qualifica tem o pensamento de devolver à nossa região tudo aquilo que ela nos deu. Hoje, o que precisamos é fazer com que as oportunidades aumentem, se expandam”, afirma o coordenador. 

O economista diz que é preciso estimular ações de desenvolvimento que contribuam para reduzir as desigualdades regionais que foram criadas no passado, quando a industrialização brasileira foi priorizada no Sudeste, com forte apoio governamental. “Se as indústrias se instalaram de forma intensa lá é porque tiveram forte apoio de ações federais”, conclui ele.

Gislene Moreira discute ainda que o Sudeste valoriza um perfil de sucesso branco e de um desenvolvimento puramente econômico. “O que é sucesso para um paulista? Talvez não seja o mesmo para um trabalhador do campo”, diz. 

17. “É um povo feio”

Quantas vezes você viu o nordestino ser retratado como alguém de pés rachados, pernas cinzas e rostos marcados pelo sol? Essas imagens não correspondem ao perfil de beleza valorizado no país, que é o colonial, branco-europeu. Adivinha onde estão esses perfis? Os preconceitos contra nordestinos passam pela ordem de raça e classe social. O Sul e Sudeste se vangloriam de sua ascendência européia ao passo que tratam o diferente como inferior. A mulher nordestina é a “mulher-macho”, vista como incapaz de performar feminilidade. Então, são vistos como degenerados, observa o antropólogo Marlon Marcos, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

Para Durval Muniz, até mesmo essa São Paulo branca exposta na capa da Veja SP é uma mitificação. E o escândalo da revista foi justamente esse branqueamento, que deixou claro quem são os nordestinos que consideram que ascende socialmente: o branco que se parece com o próprio ideal paulista. 

“Aquela casa de taipa no fundo, toda essa montagem é de uma ‘breguice’ completa, esse estrangeirismo "nordesters" e todo esse complexo de vira-lata se anuncia. Essa imagem é um sintoma de como a Veja vê o mundo, dessa narrativa burguesa neo-liberal do self-made man”, diz.

18. “O sotaque de vocês é engraçado”

A gente não acha graça nenhuma nesse tipo de afirmação. A raiz desse tipo de ideia remonta à história da televisão no Brasil, iniciada no Sudeste. O professor Marlon Marcos lembra que as telenovelas e o telejornalismo produzido na região sudestina contribuíram para que sotaques que não fossem de lá passassem a ser vistos como diferentes, exóticos. 

Repórteres e atores oriundos de outras regiões eram orientados a “neutralizar” os sotaques. “Acham que os nossos sotaques estão mais próximos do falar errado, da sonoridade cômica. Eles riem do que não conhecem e se colocam como superiores”, aponta Marlon.

O antropólogo explica que muitas das digressões do português tais como ‘comeno’, ‘bebeno’, ‘os menino’, ‘as casa’, têm origem na forma como era construído o plural nos idiomas de matriz africana. “O nordestino sofre preconceito linguístico. Muita coisa tem explicação na história e a gente tem que fuçar isso porque o que dizem sobre nós é perverso, temos que combater”, completa.

Em todo o mundo, a força das culturas está justamente na língua e a diversidade do falar deve ser celebrada. Não existe certo ou errado. No Brasil, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste é mais comum encontrar as vogais E e O abertas, enquanto o Sudeste e Sul têm o fonema mais fechado, conforme documentou ricamente o Atlas Linguístico do Brasil, coordenado pela Ufba.

19. “Nordestino vota errado e depois vem procurar trabalho no Sudeste”

O nordestino é proibido de migrar, é? Não tem direito a ir e vir? Com todo o processo de crescimento vivenciado pelo Nordeste, o novo fenômeno que se observa é, na verdade, um movimento de retorno dos nordestinos porque oportunidades surgiram em sua terra de origem. 

O avanço do plantio de soja no Oeste da Bahia, Piauí e Maranhão intensificou até mesmo a vinda de sulistas interessados em fazer dinheiro com a exportação do produto, uma das maiores commodities do Brasil. Nestas áreas, aliás, a produção de grãos é superior à média brasileira, afirma Marcos Falcão, da Sudene. Ele lembra ainda que obras de infraestrutura como a transposição do Rio São Francisco, bem como ampliação de portos e aeroportos, construção de ferrovias aumentaram a oferta de empregos e atraíram mão de obra do país todo.

20. “O nordestino se veste mal”

A raiz desse preconceito também está nas hierarquias raciais e interseccionais do Brasil. Professora do departamento de estudos de Gênero e Feminismo da Ufba, a modAtivista Carol Barreto recorda que o padrão imposto pela colonização europeia é vendido como o bom, o bonito, o exemplo a ser seguido. Então, por muito tempo entendeu-se que mostrar a pele é uma atitude deselegante, despudorada. Isso contribuiu para impor ou elaborar um modo de parecer que é produto de um modo de se comportar.

“Sendo a moda produto do comportamento, a gente sabe que a forma de relação com nosso corpo é a da ausência de pudor religioso catolico porque nossa cultura é multirreferenciada. Então, isso faz com que a gente lide com o corpo, o sol, a nossa pele, de forma diferente porque a maioria de nós vive em cidades costeiras. Temos uma formação cultural diferente. Além das questões climáticas, temos o privilégio de crescer onde a branquitude não é a única referência”, afirma. 

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