Árvores mais antigas de Salvador ficam no Campo Grande e na Vitória

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18.09.2021, 16:00:00
Atualizado: 18.09.2021, 17:03:39
Mangueira do Corredor da Vitória foi a única árvore mantida na época da construção da Avenida Sete, em 1915 (Nara Gentil/CORREIO)

Árvores mais antigas de Salvador ficam no Campo Grande e na Vitória

Testemunhas do tempo, árvores viram de transformações urbanas a passeio de Charles Darwin

Há quem diga que a moradora mais antiga do Campo Grande esteja lá há 500 anos. Se estivesse, de fato, teria testemunhado muito mais do que realmente viu acontecer numa das praças mais antigas de Salvador, inaugurada no comecinho do século XIX. Teria acompanhado os jogos de críquete dos ingleses que moravam ali perto, conheceria a região quando tudo ali ainda era vegetação e até teria visto o nascimento e a queda das primeiras residências.

Árvore nativa da Amazônia e dona de um tronco de quase 10 metros de largura, a sumaúma do Campo Grande não é tão antiga assim, mas já viu mesmo muito coisa: das celebrações na Capela Anglicana aos desfiles dos clubes carnavalescos, passagens de trios elétricos e a construção da Avenida Sete. É provável que ela esteja ali há aproximadamente 200 anos. 

“Ela tem uma irmã ali do lado, menorzinha. Deve ter visto muita coisa, porque isso aqui antigamente era só barro. Aí, o pessoal chega, tira foto, tenta abraçar. Planta tem uma energia boa, né? Deve ser por isso que o povo gosta de abraçar. É um ser vivo. Antes de fazer qualquer coisa, eu peço licença”, conta Vilma Maria Pereira, 56 anos.

Há três, ela integra a equipe de garis do Campo Grande e já está acostumada às reações dos soteropolitanos e turistas diante da imensidão da árvore, também conhecida como paineira. “Nessa época agora, ela tá soltando algodão. Aí acaba e só vai dar flor de novo no ano que vem”, explica. 

Nativa da Amazonia, sumaúma foi plantada no Campo Grande após a inauguração da praça; estimativa é que esteja lá há aproximadamente 200 anos
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

É difícil afirmar que aquela é a árvore mais antiga da capital, mas é certamente uma das primeiras plantadas na região central da cidade, que hoje ainda concentra as árvores urbanas que resistem há mais tempo em Salvador. As do Passeio Público, que foi construído ainda no século XIX, também são centenárias. Uma fotografia do suíço Guilherme Gaensly, de 1912, mostra uma paineira de copa relativamente grande, mas de tronco ainda tímido. Ela continua lá, de pé, com raízes que chegam perto dos cinco metros e idade superior a 109 anos de vida – época da fotografia. 

Ali perto, no Corredor da Vitória, os mais de 130 pés de oitis foram plantados há 106 anos, quando a Avenida Sete de Setembro foi inaugurada, em 1915. Mas há uma moradora ainda mais antiga do que eles. Quando os oitis chegaram lá, já havia uma mangueira enorme no jardim da antiga sede do Clube Euterpe – hoje, Solar Cunha Guedes. 

Ela é um verdadeiro símbolo de resistência, já que foi a única das árvores já existentes por ali que foi mantida de pé quando os oitis chegaram.

“Quando J.J. Seabra fez a Avenida Sete, essa rua aqui era bem estreita. Ele tomou os jardins na frente das casas para alargar a avenida e cortou todas as árvores e outras plantas que tinham nos jardins. Os oitis vieram do Rio de Janeiro e foram plantados de fora a fora. Essa mangueira foi a única mantida”, conta o historiador Rafael Dantas. 

Há dez anos, ele iniciou um levantamento das árvores urbanas mais antigas da cidade. Para tentar estabelecer a idade deles, foi buscar fotografias antigas que mostrassem como era o lugar. Na época da inauguração da Avenida Sete, há 106 anos, lá estava a mangueira. “Eu calculo que ela tenha, pelo menos, 150 anos, porque no início do século XX ela já aparece em algumas imagens e já era uma árvore grande”, aponta Rafael. 

Sombra da mangueira 
Talvez, seja difícil imaginar o Corredor da Vitória sem todo aquele verde e sombra assegurado pelas copas dos oitis. Mas, nas primeiras décadas do século XX, a única sombra por ali era justamente a da mangueira que, hoje, fica entre o Solar Cunha Guedes e o chalé conhecido como Ferro Velho. Por sorte, ela aparece em muitas fotografias do começo do século passado. “O Solar Cunha Guedes tem uns postais famosos por causa do Clube Euterpe”, explica o historiador Daniel Rebouças, que pesquisa iconografia e localizou uma imagem de 1920, cinco anos após o plantio dos oitis. Ela mostra a mangueira por lá, já grande e oferecendo sombra. 

Corredor da Vitória em fotografia de 1920, autor desconhecido
(Foto: Arquivo Histórico Municipal de Salvador)

De lá pra cá, ela cresceu tanto que, há alguns meses, o jeito foi ampliar a calçada onde fica o canteiro. Era até uma questão de segurança, porque o tronco, de mais de seis metros de diâmetro, ocupava a calçada inteira e obrigava pedestres a descerem e andarem um pedacinho do trajeto pelo asfalto, em meio aos carros. 

“A dona daqui conta que lembra dela quando ainda era criança”, conta o auxiliar de serviços gerais Geanderson de Jesus, 25, que trabalha no Solar há pouco mais de um ano. Enquanto varre a folhagem ali na frente, afirma já ter visto cenas curiosas.

“O pessoal para, olha, tira foto. E quando passa uma família de turistas aí, eles dão as mãos para abraçar a árvore”, relata Geanderson.

Há seis meses, calçada em frente ao canteiro da mangueira foi alargada; ela está no Corredor da Vitória há pelo menos 150 anos
(Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Preservadas, ou não 
Para Rafael Dantas, é possível que a árvore mais antiga de Salvador fosse uma paineira que, infelizmente, foi ao chão em junho de 2006, depois de uma forte chuva que caiu sobre a cidade. A árvore, de fáceis 30 metros de altura e três de diâmetro, ficava num terreno atrás da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (EBA/Ufba), mas alguns de seus galhos mais altos caíram e destruíram duas casas, uma borracharia, um bar e um carro em uma comunidade que fica na ligação entre o Campo Grande e a Avenida Reitor Miguel Calmon, no Canela.

Foi o último suspiro da árvore, que integrava um conjunto de quatro centenárias plantadas ali. “Os pedaços do tronco ficaram lá por vários dias e acabaram cortando uma araucária que tinha do lado. Mas, curiosamente, brotou outra árvore da mesma espécie, uma paineira, no mesmo lugar da que foi cortada”, lembra Rafael. A árvore nova já é alta, mas o tronco tímido entrega a idade: tem menos de 15 anos. 

Entre as décadas de 1960 e 1970, época de construção das avenidas de vale de Salvador, como o próprio Vale do Canela, muitas árvores centenárias foram mantidas, principalmente as que ficam mais próximas às encostas dos vales. Mas, nos anos seguintes, outras foram suprimidas. 

Matriarcas 
Salvador não tem, oficialmente, um levantamento que aponte quantas árvores existem na cidade, quais as mais antigas, nem de quais espécies elas são. Se tivesse, talvez fosse mais fácil dizer debaixo de que árvore Charles Darwin se abrigou durante uma tempestade tropical no dia 29 de fevereiro de 1832. Ele não deixou muitos detalhes em seu diário, mas dá para dizer que a árvore ficava pela região onde hoje é o Centro da cidade. 

O Beagle, embarcação que o trouxe até aqui, estava ancorado no Porto de Salvador e Darwin caminhava naquela direção quando o céu desabou.

“Procurei abrigar-me debaixo de uma árvore, cuja copa cerrada seria impermeável à chuva comum da Inglaterra, porém, poucos minutos depois, descia pelo enorme tronco uma verdadeira torrente”, escreveu Darwin.

Podia ser qualquer uma, mas vai que era uma sumaúma, paineira ou mangueira, das muitas plantadas por aqui... 

O pesquisador em Botânica do Instituto e Biologia da Ufba (Ibio) Domingos Cardoso começou há três anos uma catalogação de espécies e diâmetros de árvores de Salvador. “Eu escolhi essa sociedade para viver e gostaria de pesquisar aqui e responder algumas perguntas. A minha tese é que a perspectiva de priorizar grandes árvores na arborização urbana é algo muito mais de arquitetos e urbanistas do passado. A gente perdeu isso”, afirma. 

Segundo Domingos, é difícil estabelecer a idade das árvores em locais com clima tropical, como o Brasil, porque as estações não são tão bem definidas e a contagem dos anéis internos dos troncos não funciona tão bem como no clima do hemisfério norte, por exemplo. Lá, cada anel corresponde, praticamente, a um ano de vida. Por isso, ele gostaria de conhecer um pouco mais sobre o aspecto histórico das árvores da cidade, inclusive para que elas fossem preservadas. 

“Deveríamos preservar as grandes matriarcas, as árvores-símbolo, que viram a transformação da cidade, a história acontecer. Imagina quantos trios elétricos e sorrisos elas não viram passar. E suas filhas vão sendo suprimidas, ficam só nos retratos”, lamenta. 

Paineira é uma das árvores dessa mesma espécie plantadas no Passeio Público; ela aparece em fotografia de 1912 de Guilherme Gaensly, há 109 anos
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Para Domingos, lugares como o Corredor da Vitória deveriam ser replicados pela cidade, pensando em espalhar mais espécies nativas de Mata Atlântica e observando que árvores estão nas memórias dos moradores de cada lugar. “Quando você vai para bairros mais recentes, como Pituba e Paralela, você não vê árvores que vão crescer muito. São árvores exóticas, ou porque estavam na moda, ou porque era mais fácil conseguir sementes, ou porque cresciam mais rápido. Mas elas não crescem muito, não são árvores que vão ficar grandes”, diz. Essa mesma observação, aliás, é reiterada pelo Manual Técnico de Arborização Urbana de Salvador, lançado pela prefeitura em 2017. 

Nos últimos oito anos, de acordo com a Secretaria Municipal de Sustentabilidade e Resiliência (Secis), foram plantadas mais de 78 mil árvores em canteiros centrais, largos, praças e avenidas. A maioria delas são exemplares de Mata Atlântica, como ipês rosa e amarelo, algodoeiros, paus-brasil, sibipirunas e oitis. Boa parte dos plantios ocorre dentro da Operação Plantio Chuva, de março a agosto. Este ano, foram 3,2 mil árvores plantadas, em locais como São Cristóvão, Dique do Cabrito, Imbuí, Ribeira, Itapuã, Pituba e Baixinha de Santo Antônio. 

Em 2018, 154 árvores – algumas centenárias – foram suprimidas na Avenida ACM para a passagem do BRT. Outras 169 foram transplantadas em locais como o Parque da Cidade. Para compensar, a prefeitura plantou mais de 2 mil árvores em várias áreas de Salvador. 

“Seria preciso coletar as sementes de árvores antigas da cidade, porque elas têm uma vida, têm um tempo. Se as sementes são coletadas, você pode plantar e ter filhas”, defende Domingos.

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Orixá Iroko é cultuado em árvores sagradas

Preservar a natureza, o verde e, naturalmente, as árvores da cidade é primordial para o povo de santo. “No Candomblé, toda árvore representa uma vida. Na verdade, a nossa filosofia compreende que a humanidade não está acima de qualquer outra vida. E, nesse sentido, não existe vida mais importante ou menos importante. A árvore tem a mesma importância da vida de um ser humano”, afirma Babá Pecê, babalorixá do terreiro Casa de Oxumarê, na Vasco da Gama. 

Com frequência, filhos e filhas o terreiro vão até a Estrada de São Lázaro fazer a limpeza do canteiro onde fica uma gameleira branca. Ela é uma das árvores de Salvador onde se cultua o orixá Iroko e, embora frondosa, não é tão antiga. Ele foi plantada em 1992 a pedido de nomes como a ebomi Cidália de Iroko, o professor Jaime Sodré, o antropólogo Júlio Braga e o próprio Babá Pecê. No mesmo lugar tinha outra gameleira centenária.

“Ali tinha uma árvore muito antiga que tombou. Então, nós pedimos à prefeita da época, Lídice da Mata, que fosse plantada outra gameleira ali. Os orixás são a manifestação da natureza: Iemanjá são as grandes porções de água, Iansã é o vento e Iroko é a própria árvore. Na nossa cosmo-percepção de mundo, a árvore já é uma divindade”, completa Babá Pecê. 

Iroko na Estrada de São Lázaro é gameleira plantada no mesmo local onde havia outra árvore sagrada centenária
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

No Brasil, Iroko é cultuado em uma gameleira branca. Além de São Lázaro, há exemplares em alguns terreiros da cidade e dentro do Instituto Médico Legal (IML), onde antes funcionou o terreiro de candomblé de Mãe Júlia Bugã. Quando o IML foi construído, a gameleira foi preservada e segue sob os cuidados de Pai Air José, do Pilão de Prata. 

A escolha tem a ver com as características da gameleira. “Ela é a árvore que nós temos que mais se identifica com Iroko, por ser mais frondosa, ter um ciclo de vida. Ela cresce e, de repente, se parte e vem um novo filho”, diz Babá Pecê.

“É uma árvore de uma raiz muito forte, tem um significado muito grande e muito místico”, completa Pai Pretinho, babalorixá do Ilê Axé Iroko Sun, em Simões Filho. 

Ele explica que, na África, Iroko é cultuado em outra árvore, a macumbê – de onde vem, aliás, a palavra macumba. Por isso mesmo, onde não há uma gameleira, Iroko pode ser cultuado em outras árvores. “Iroko tem que ser cultuado debaixo de alguma árvore porque ele representa a natureza, o ar que nós respiramos, ele é a essência da vida. Sem uma árvore, sem um verde, não tem vida. Tudo que cultuamos é da terra”, conta. 

No Candomblé de nação angola, Iroko é representado como se fosse o Tempo. “O tempo ninguém segura, ninguém governa, só Deus”, diz. Filho de Iroko, Pai Pretinho explica que, quando foi iniciado, há 40 anos, o terreiro dele não tinha um Iroko – mas nem por isso a iniciação deixou de acontecer. 

“Eu tenho o assentamento dele e ele é cultuado dentro daquilo que a natureza me permitiu. É uma arvore que eu considero sagrada. A partir do momento que você a cultiva, trata ela bem, respeita a sobrevivência dela, porque ela é um ser vivo, pra mim é sagrada”, afirma. 

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