As criptomoedas são seguras? Entenda como funciona esse mercado

bahia
02.11.2021, 06:30:00
(Shutterstock)

As criptomoedas são seguras? Entenda como funciona esse mercado

Confira também os principais golpes e dicas de como evitá-los

Você já deve ter ouvido falar em bitcoin, mas também já deve ter tido desconfianças em relação às criptomoedas. Em setembro, notícias como o ataque de hackers que roubou milhões em criptomoedas da plataforma Poly Network e a prisão no Rio de Janeiro do ex-garçom acusado de integrar uma organização criminosa de fraudes bilionárias envolvendo criptomoedas ganharam os jornais. Mas, afinal, as criptomoedas são seguras? O CORREIO ouviu especialistas do mercado financeiro para explicar como elas funcionam, quais os riscos e qual o cenário esperado para o futuro.

A baixa nos mercados por conta da pandemia, em 2020, impulsionou a valorização das criptomoedas. Dentre elas, a mais antiga, o bitcoin, é também a que mais se destaca. Esse cenário favorável chama a atenção de novos investidores que querem ganhar muito dinheiro em pouco tempo, mas especialistas alertam que é preciso ter cautela e estudar o mercado, não somente para não perder dinheiro por conta dos altos e baixos do jogo, mas também para não cair em golpes. 

Para começo de conversa, é preciso explicar o que é um bitcoin. Assim como existe o dólar e o real, dinheiro “de verdade”, existem as criptomoedas, que são tipos de moedas digitais, que não são emitidas por nenhum governo. As transações financeiras são protegidas por criptografia, como a blockchain, e não dependem de uma autoridade central reguladora. (Confira aqui o que diz o Banco Central sobre as moedas digitais)  

Quais as vantagens e desvantagens do bitcoin?

As grandes vantagens são o potencial de lucro, o mercado em franca expansão, a possibilidade de compra segura através de sistemas CFDs por corretoras regulamentadas e grande variedade de moedas digitais. Mas também existem desvantagens: o mercado das criptomoedas tem alta volatilidade, que são os famosos altos e baixos, e, por se tratar ainda de um mercado novo, apresenta maiores riscos.  

O economista e consultor financeiro Edísio Freire destaca que as moedas digitais não são totalmente regularizadas no país, mas acredita que é um mercado que veio para ficar, com boas perspectivas futuras.

“Não dá para a gente precisar qual será o futuro do bitcoin, mas eu acredito que seja um caminho sem volta. As criptomoedas vão se espalhar, se consolidar, mas não acho que teremos um grande boom de rentabilidade de nenhuma delas; algumas vão ter maior volume, outras menos, mas não mais aqueles saltos que já tivemos com níveis elevadíssimos de valorização”, projeta.

Como funciona o mercado de bitcoin?

O preço das moedas digitais varia segundo a boa e velha lei da oferta e da procura. Nas épocas em que as criptomoedas ganham mais atenção, costumam ser mais procuradas por investidores, o que amplia o volume de compras e, consequentemente, os preços tendem a subir. A mesma lógica se aplica para o caso contrário, de desvalorização. 

Mas o assessor da Act Investimentos, João Victor Moreira, alerta para a diferença entre quem entende do mercado e os novos investidores. “Sempre que temos um movimento de queda muito expressivo do bitcoin, os investidores que já operam há mais tempo tendem a comprar mais. Já as pessoas que entraram no mercado recentemente, costumam vender, mesmo com prejuízos. Isso mostra que quem entende e conhece o mercado sabe que aquilo é passageiro e aproveitam o momento. Quem não tem experiência acaba se desesperando e perdendo dinheiro”, explica.

Moreira diz que existem duas possibilidades principais de operar com bitcoin e criptomoedas em geral: a constituição de uma reserva de valor e a especulação.

“A reserva é a mais recomendada. O mercado financeiro como um todo está cada vez mais descentralizado e o bitcoin surge dentro desse propósito. Esse é um fenômeno real, crescente e veloz, então o investidor pode investir pensando num futuro em que as criptomoedas serão muito mais consolidadas e passem a ser utilizadas no mercado como um todo”, coloca.

A sugestão do assessor é de que o investidor reserve entre 2 e 3% da renda mensal para a compra de criptomoedas. “Assim, será possível criar uma reserva financeira pensando em um futuro dentro de cinco anos, mais ou menos. Quando você faz compras mês a mês, rebate o valor da oscilação da moeda”, recomenda Moreira. 

A segunda via, de especulação, atrai quem busca ganhar dinheiro em um curto prazo. “Se o bitcoin está caindo muito agora, a pessoa compra e, quando volta a subir, vende. Para você ser especulador, é preciso ter muito conhecimento sobre a tecnologia e o mercado, desempenhar uma dedicação profissional para acompanhar as oscilações e entender que o maior vilão vai ser o fator emocional. A grande maioria acha que vai fazer fortunas com cripto, até porque o mercado já mostrou vários casos assim, mas depois vê que não é tão simples”, alerta o assessor. 

Tipos de golpes e como evitá-los

É no ramo da especulação que muitos criminosos se aproveitam para aplicar golpes. Moreira ressalta que é preciso sempre ter em mente que “não existe almoço grátis”, ou seja, se o esquema é bom demais para ser verdade, provavelmente é mentira.

“Infelizmente, muitos esquemas de pirâmide acabam utilizando o bitcoin como uma ferramenta para atrair novos investidores. É preciso ter cuidado. Não chegue achando que é fácil e que você vai ganhar fortunas em pouco tempo, desconfie”, recomenda o assessor de investimentos.

Além dos esquemas de pirâmide e envolvimento com lavagem de dinheiro e evasão fiscal, os golpistas também empregam técnicas para roubar o dinheiro dos investidores. De acordo com o Gerente Sênior de Comunicações de Ameaças Globais da Avast, Christopher Budd, os golpes de phishing com foco em criptomoedas são os destaques dos primeiros seis meses de 2021. 

“A maioria dos sites de phishing se passam por carteiras de custódia legítimas. Os Estados Unidos, Brasil e Nigéria são os maiores alvos desses golpes de criptomoeda”, afirma Budd. Outra ameaça comum em relação às criptomoedas hoje é o crypto jacking no navegador. Ele usa JavaScript para implantar mineração em qualquer máquina que visita um site infectado, através da invasão da CPU do computador. 

Seja no WhatsApp, Telegram ou em qualquer outro fórum de mídia social, os investidores devem desconfiar de mensagens enviadas por desconhecidos e avaliar bem antes de executar qualquer ação, como clicar em links ou responder. “Mesmo que a mensagem não esteja relacionada à criptomoeda, a intenção pode ser o phishing, para espionar os dados do usuário”, orienta o gerente. Também é preciso estar atento a e-mails e aplicativos e o ideal é checar a procedência de qualquer site visitado. 

Budd recomenda também a instalação de um antivírus. “Muitas pessoas têm um antivírus em seus PCs, mas não em seus dispositivos móveis ou tablets, e é por isso que as campanhas maliciosas de phishing e malware mirando os dispositivos móveis têm sido tão eficazes para os cibercriminosos”, completa.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) e a Polícia Federal na Bahia foram procuradas para falar sobre o combate aos golpes envolvendo criptomoedas, mas não responderam até o fechamento da reportagem.

Qual deve ser o perfil de quem vai investir em criptomoedas? 

Conhecer os diferentes tipos de investimentos que o mercado oferece é muito importante na hora de tomar uma decisão. O mercado financeiro é bastante sofisticado e há investimentos para atender as mais variadas necessidades de liquidez, rentabilidade, prazo, etc. O primeiro passo é definir quando irá precisar do dinheiro que planeja investir e, então, traçar o perfil de investidor. 

“Quem vai investir precisa fazer isso com cautela, com orientação. Recomendo que, em relação às criptomoedas, as pessoas invistam a quantidade de dinheiro que estão dispostas a perder. É preciso fazer uma experiência, ver o que funciona e ir investindo aos poucos”, diz o economista e consultor financeiro Edísio Pereira.

Segundo ele, o investimento em moedas digitais é do tipo renda variável e quem opta por esse caminho precisa estar disposto a correr riscos. “Se ele não se imagina perdendo dinheiro, renda variável não é o terreno onde ele deve pisar. O dinheiro vai se valorizar em um momento e vai se desvalorizar em outro, então a ideia desse tipo de investimento é pensar a longo prazo. Ninguém vai ficar rico de uma hora para outra com renda variável, isso pode até acontecer, mas é muito raro”, explica Pereira. “Se o perfil do investidor é mais conservador, visando mais estabilidade, eu recomendo buscar produtos de renda fixa”, acrescenta.

Principais criptomoedas (Por João Victor Moreira, assessor de investimentos da Act Investimentos)

  • Bitcoin: É a pioneira no mercado e possui o maior volume financeiro de movimentações diárias. Além disso, a tecnologia por trás dessa cripto já permite maior segurança. O ponto negativo é que, por ter um maior volume de novos entrantes que não buscam compreender o ativo de forma assertiva, o efeito da volatilidade se torna mais presente. Há quem diga também que, apesar de uma tecnologia sólida, o bitcoin acabou não se renovando em relação a seus pares de mercado, como o Ethereum. 
  • Ethereum: Essa cripto é estimada como a que tem o maior potencial de dominar o mercado de moedas digitais no futuro, por razões que envolvem, principalmente, o seu grande volume de negociações (ficando atrás somente do bitcoin) e por sua tecnologia inovadora que permite ao detentor desse cripto uma série de benefícios não observados nos outros pares, como a possibilidade de validação de identidade e assinatura digital dentro do blockchain. Assim como o bitcoin, o ponto mais desfavorável seria em relação à sua alta volatilidade. 
  • BNB: Essa cripto está entre as 5 maiores do mercado e foi criada pela plataforma de transações de criptos Binance, para ser a moeda oficial da corretora. Esse efeito de mercado fechado trouxe a essa moeda um patamar de grande volume financeiro transacionado diariamente. Os pontos negativos são a tecnologia, que fere o efeito da descentralização, e a alta dependência em relação à Binance.
  • Ripple XRP: Moeda criada pela plataforma de pagamentos que leva o mesmo nome. Ela tem uma possibilidade de transferência de dinheiro mais acessível e em qualquer forma, em criptos ou moedas que não sejam o dólar. Além disso, por ser criada por uma das maiores plataformas de pagamentos do mundo, tem a possibilidade de ser otimizada com um próprio "sistema bancário universal" que converte valores em milhares de outros tipos de moedas.
  • ADA CARDANO: Queridinha por vários entusiastas, a ADA, apesar de não possuir tanto volume financeiro e liquidez quanto às anteriores, possui uma característica muito promissora: a de otimizar todos os pontos positivos em relação à tecnologia das suas antecessoras e minimizar os pontos negativos. A Cardano foi criada pelo co-fundador da Ethereum e sua ambição de ser a cripto mais eficaz em termos tecnológicos do mundo tem atraído muitos investidores. O principal ponto negativo é que seu market share e liquidez ainda são muito inferiores às demais.

Onde investir em criptomoedas?

  • Fundos de investimento: BTG Pactual; Daycoval; Nu invest; Genial Investimentos; Guide Investimentos; Hub; Modalmais; Necton; Órama Investimentos; Planner; Vitreo; Warren; XP Investimentos.
  • Corretoras: Binance, NovaDAX, BitcoinTrade, Foxbit, Mercado Bitcoin, Coinext, Bitblue, Walltime, Profitfy, Braziliex, Nox Bitcoin. 
     

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

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