Ativista quer ensinar um milhão de meninas a programar

agenda bahia
15.07.2018, 05:56:00
Mariémme Jamme em palestra do TDEX, em Amsterdã (Reprodução)

Ativista quer ensinar um milhão de meninas a programar

I am the code de Mariémme Jamme é referência mundial de inclusão digital

Para o senso comum, a tecnologia ainda é um universo de domínio masculino. Apesar dos avanços na cultura, as meninas não são tão incentivadas a abraçar carreiras nessa área quanto os garotos. O que não deixa de ser irônico, já que uma mulher, a condessa Ada Lovelace, que viveu no século XIX, é considerada a primeira programadora da história. Mas, se depender de gente como a ativista senegalesa Mariémme Jamme, 44 anos, essa realidade muda até 2030, ano em que ela pretende concluir a meta de ensinar um milhão de meninas a programar.

No site oficial, o projeto de Mariémme, chamado de I am the Code (Eu sou o código, na tradução do inglês) é descrito como uma plataforma que tem “o objetivo de formar as novas líderes digitais do futuro”. A iniciativa, reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) já está presente em 93 cidades de 42 países e é exemplo mundial de inclusão digital. 

Através de sua experiência como consultora para grandes empresas, Mariémme, que em outubro do ano passado esteve no Brasil e apresentou o projeto em São Paulo, influencia as gigantes da tecnologia a investir na educação de garotas em situação de vulnerabilidade social e econômica. 

Sua intenção é que governos, empresas e investidores apoiem a conquista da autonomia feminina nas chamadas STEAMD, sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes, Matemática e Design. Por seu trabalho, ela é conhecida como ‘diplomata da tecnologia’ e já foi homenageada como Jovem Líder Global no Fórum Econômico Mundial, devido ao esforço para capacitar e investir em mulheres jovens e meninas, através da aprendizagem criativa e empreendedorismo, na África e em países pobres de outros continentes.

Mariémme Jamme conhece bem a realidade que pretende mudar. Ela teve uma infância e adolescência de extrema pobreza e violência. Viveu em orfanatos de Dakar até os 13 anos, quando foi traficada do Senegal para a França, para ser explorada sexualmente. Até que, presa e levada para um campo de refugiados, começou a estudar e aprendeu a ler e a escrever aos 16 anos. Autodidata, também aprendeu oito linguagens diferentes de programação. 

Assista palestra de Mariémme Jamme no TDEx:

O I am the code, que está alinhado com a Agenda 2010 da ONU - um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade com sustentabilidade -, nasceu da inquietação de sua criadora com a realidade da educação feminina no mundo. Segundo dados no próprio site do projeto, citando como fonte o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), são 65 milhões de meninas no mundo a quem é negado acesso à educação básica.

Mariémme, em suas palestras disponíveis na internet, defende que não investir na educação das meninas, ajudando em seu avanço diante de tantas desigualdades existentes no mundo, cria camadas de cidadania e uma divisão digital na sociedade.

“Não ter a chance de frequentar a escola ainda cedo e de ter uma oportunidade para uma educação de formação, me fez iniciar este movimento. Acredito firmemente que precisamos ajudar a corrigir o fracasso dos formuladores de políticas, investindo em meninas e mulheres por meio de aprendizado criativo e da tecnologia”, afirma a ativista no texto de apresentação do I am the code.

Quem é – Mariémme Jamme é uma programadora, ativista digital, consultora de tecnologia para grandes empresas e organizações mundiais como Google, Microsoft e ONU Mulheres. Ela nasceu em 1974, no Senegal, mas tem também as cidadanias britânica e francesa. No ano passado, a ativista ganhou o Prêmio de Inovação Global Goals Award 2017 pela Unicef e pela Fundação Bill e Melinda Gates, por seu trabalho junto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Também consta na Powerlist 2017, que nomeia as 100 pessoas mais influentes na África e Caribe. Tornou-se recentemente membro do Conselho Consultivo da Data Pop Alliance, uma coalizão global que promove uma revolução do Big Data centrada nas pessoas. Ela é ainda o mais novo membro da diretoria da Web Foundation, onde apoia a entidade nas questões de gênero e igualdade digital. Também é a primeira mulher negra a ser nomeada e convidada para fazer parte do programa visionário do UBS Group Global.


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