Baianês dos atores em Segundo Sol divide opiniões nas ruas e na web

entretenimento
10.06.2018, 06:21:00
Atualizado: 11.06.2018, 11:16:59
Chay Suede (Ícaro) com o ator baiano Danilo Ferreira (Acácio): parece até baiano (João Cotta/TV Globo)

Baianês dos atores em Segundo Sol divide opiniões nas ruas e na web

Chay Suede, Emilio Dantas e Letícia Colin se destacam ao encaixar expressões e gírias baianas de forma mais natural; veja

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Tem gente achando massa. Outros dizem que tá meio armengado. A terra do dendê está dando o que falar na novela das nove da TV Globo, Segundo Sol. O baianês interpretado pelos atores, então, está rendendo como quê não só nas redes sociais como nas ruas. Mas, é preciso muito mais do que sotaque, expressões e gírias para interpretar um baiano.
 
A musicalidade, a vivacidade expressiva e o uso abundante de metáforas são algumas características do particular jeito de falar daqui. “Temos uma certa música, um ritmo mais lento e meio anasalado no linguajar. As vogais tônicas são abertas: o baiano não fala ‘côração’, fala ‘córação’”, explica o escritor Nivaldo Lariú, autor do Dicionário de Baianês. Ao mesmo tempo, isso pode confundir os atores, porque existem muitas particularidades: “A gente não fala ‘félicidade’; e sim ‘fêlicidade’”.



Além das especificidades linguísticas, o baiano usa muito o corpo. Captar tudo isso em uma novela é difícil. “Ter baianos no elenco facilita. Mas tem que treinar o ouvido e o olhar. Tem o jeito de falar, a malemolência, o toque, o bom humor e as falas são acompanhadas de gestos e de uma certa dança”, ressalta. Fluminense de nascença, o escritor mora em Salvador há mais 20 anos e demorou um tempo até entender essa ‘encenação’: “Ser baiano é para profissionais”. 

Nivaldo Lariú ressalta que, apesar das 'regras', o linguajar do baiano é muito peculiar e tem e exceções
(Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

O ator baiano Sulivã Bispo, que ficou conhecido pelo canal Frases de Mainha, bate na tecla: fazer baiano na ficção não é nada fácil. “É difícil interpretar um nordestino e não cair no clichê do sertão ou do caricato. A forma que a gente fala conta uma história. Como vivemos num estado majoritariamente negro - e a comunidade negra tem a tradição de cantar e dançar para louvar seus ancestrais - a gente traz isso no linguajar”, acrescenta. 

Imersão
Por isso, a preparação dos atores de Segundo Sol, que começou cerca de dois meses antes das gravações, envolveu uma imersão não só nas expressões e gírias do estado, como na cultura e na história do povo baiano, incluindo as influências africana e portuguesa. “Fizemos vários exercícios. Primeiro de ler poesia de baianos para chegarmos a um ritmo. Vimos vídeos com pessoas falando. Tudo para cada um ir encontrando o que achava mais interessante. Pegamos expressões mais modernas de influenciadores digitais. Um deles lida muito com as gírias de periferia, que ouvimos bastante. Fomos treinando com textos que não eram da novela até chegar próprios textos e ficar natural para eles”, conta a preparadora do elenco na prosódia, Iris Gomes. No começo, ela participou de algumas gravações, mas hoje tem encontros pontuais com os atores.

Muito requisitada na preparação de atores que precisam simular diferentes sotaques e modos de fala no teatro e no audiovisual, Iris Gomes revela detalhes do preparo de artistas do Segundo Sol
(Foto: EBC)

Transmitir o orgulho de ser baiano para os atores também foi fundamental na formação dos personagens. Logo no primeiro dia, Iris contou para o elenco àquela história de que ‘o baiano não nasce, estreia’. “Na Bahia, foi tudo primeiro. O Brasil foi descoberto aí. O primeiro hospital, a primeira faculdade de medicina, o primeiro lugar onde teve água encanada, o primeiro livro publicado. Isso faz do baiano um ser muito orgulhoso de ser baiano. Essa referência dá um gosto. Eles precisam passar esse orgulho”, ressalta.

O próprio Dicionário de Baianês também foi uma referência para a trama de João Emanuel Carneiro. “Como a novela tem duas fases, a gente não usou coisas muito antigas e temos um cuidado de usar as gírias que fossem inteligíveis no Brasil todo. Algo que, mesmo que as pessoas nunca tenham ouvido, fique claro no contexto”, conta. 

Imagem relacionada

O autor, João Emanuel Carneiro, recomendou que o sotaque não ficasse forçado
(Foto: João Cotta/TV Globo)

A ideia, desde o princípio, é focar no sotaque da capital. “Dentro da própria Bahia, há vários sotaques”, comenta Fabiula Nascimento (Cacau). Por isso, a equipe vocal treinou os atores para não usarem o T e o D como no interior. “Salvador não tem isso. Quando falam o M e o N precisam levar para um nasal. O NH daí é especial - como em “bunitiNHU”, por exemplo. Também não precisa abrir muito os Es e os Os. Porque tem E que pode virar I e O que pode virar U”, explica Iris. 

Capital
Usando gírias e incorporando uma certa malemolência, o ator carioca Emilio Dantas (Beto Falcão) conseguiu convencer muita gente de que é baiano da boa terra. “Estar na Bahia por tanto tempo foi essencial para compor o meu trabalho”, acredita.

Emilio Dantas passou um mês na Bahia
(Foto: João Cotta/TV Globo)

Quem também está surpreendendo é o ator Chay Suede, que interpreta Ícaro - o filho de Luzia/Ariella (Giovanna Antonelli), na nova fase do folhetim. Na sua estreia, ele foi um dos tópicos mais comentados no Twitter.  “Já usei ‘de keke’ e uso barril e barril dobrado direto”, conta. O ator mergulhou de vez no personagem - não sabia nada de capoeira e fez 16 aulas no Rio de Janeiro antes das gravações.

Chay Suede está dando o que falar
(Foto: João Cotta/TV Globo)

Para o jornalista Jorge Gauthier, do canal Me Salte, é possível andar pelo Pelourinho e se deparar com um tipo desses, igualzinho: “O jeitinho bem baiano que o jovem imprimiu no personagem faz qualquer tacho de dendê fritar sem nem ter acarajé dentro”.

Autor de muitos dos memes que circulam nas redes sociais sobre a novela, Iuri Barreto, criador do Guia do Soteropobretano (@soteropobretano), avalia que tanto Chay quanto Emilio estão indo bem no baianês. “É a primeira novela que é de fato ambientada em Salvador. Além de ter um diretor baiano, Ricardo Spencer, os atores e a diretora Maria de Médicis estão sempre nas redes sociais acompanhando a repercussão e sugestões. Nunca houve tanto xingamento em novela da Globo. Usam muito porra, desgraça... Mas tem coisas que vão mudar ao longo da trama. Acho que quem reclama do sotaque é quem já estava de má vontade antes da novela estrear”, comenta.

Os memes de Iuri Barreto sobre a novela estão bombando na web
(Foto: Arquivo Pessoal)

Iuri considera que, no início da trama, algumas expressões e gírias estavam sendo usadas fora do tom, mas aos poucos estão se encaixando. “Deborah Secco, por exemplo, está sempre no Twitter. E considero que a atuação já melhorou muito devido aos feedbacks. Giovanna tem um sotaque neutro, pelo menos não está falando carioquices. Eles falam ‘massa’ e ‘bala’, que tem gente que ainda usa. Usaram zignal, que a gente usa e tem gente que já fala mais ‘dar o zig’”, avalia.

Na opinião dele, é importante existir um cuidado para aproximar os personagens da cultura local, mas o sotaque não deve prejudicar a atuação: “Se isso afetar a atuação, prefiro que jogue pro alto. Teve uma cena de tensão de Adriana Esteves (Laureta) que, no calor do momento, acabou abandonando o sotaque. Mas não vejo problema, porque o público precisa disso, do drama. Como telespectador, estou preocupado com produto. Tem vários furos, mas dá para viajar”. 

(Foto: Sergio Zalis/TV Globo)

Letícia Colin, a Rosa, também se destaca. Ela ficou um tempo na casa de uma amiga e acompanhou a rotina da família dela. “É uma coisa cultural muito diferente. Existe um jeito de ser, de receber, de cozinhar junto”, diz. 

Além disso, ela tem ajuda de duas amigas atrizes baianas, Mariana Serrão e a Fernanda Beling. “A gente tem um grupo no WhatsApp e elas gravam para mim áudios com as frases da novela. Eu ouço, repito e elas vão me passando termos que acham legais, que tem a ver com o espírito da Rosa. Ela é uma menina que foi criada e circula nas ruas de Salvador. Tem uma coisa muito urbana, das gírias”, explica. 

Letícia Colin passou um tempo em Salvador, na casa de uma amiga, para entender o baianês
(Foto: Divulgação/TV Globo)

Essa convivência com locais trouxe uma veracidade para sua personagem: “Baiano junta muito: não aguento, fala numguento; você fala cê. Bala, por exemplo, adoro usar. Gosto muito de jogue duro: Jogue duro, viu?. Broque também é muito bom”. Ouça depoimento da atriz.

Apesar das gírias, os atores têm tentado fazer um sotaque suave a pedido do diretor artístico e geral Dennis Carvalho. “Não queria que fizéssemos uma caricatura da Bahia. Cada um deve encontrar o seu jeito. Se a pronúncia fica muito difícil, mudamos. Também tem o cuidado com a melodia para não ficar pernambucana”, destaca Iris.

O mergulho na cultura local é tão grande que os atores estão até falando baianês no dia-a-dia. “Oxe já faz parte do corpo todo”, brinca Roberta Rodrigues (Doralice). 

Roberta Robrigues, que interpreta Doralice, entrou na segunda fase da novela
(Foto: João Cotta/TV Globo)

“Está tão automático que outro dia, em casa, falei ‘pegue pra mim’ e meu marido falou ‘ih, desceu a baiana’”, conta Giovanna.

Giovanna Antonelli e  Luisa Arraes ficaram um mês na Bahia e gravaram no mercado modelo
(Foto: João Cotta/TV Globo)

Segundo Sol bomba nas redes sociais e gera vários memes. Veja alguns

Clique na imagem e passe para o lado.

Gírias e expressões mais usadas na novela

Barril: Coisa muito boa rolando
Barril: dobrado Coisa difícil
Bala: Legal/o máximo
Brocar: Mandar bem, fazer algo bem feito, mitar
Dar o zignal: Se safar de alguém
Jogue duro: Mostre que você é capaz
Massa: Legal/maneiro
Oxe: Usada em várias ocasiões: indignação, dúvida, susto, etc
Se ligue: Fique alerta
Tá ligado?:  Tá ciente?
Tá de keke: Completamente relaxado, sem ter o que fazer

Novas expressões do Dicionário de Baianês

Apertar a mente: Estressar alguém; encher o saco
Comediar: Perturbar, irritar
Dar a ideia: Explicar como é 
Dar pra ruim: Piorar
Me salte!: Me deixe!
Qual é a boa?:  Como vai?
Quebrar podre: Perder tempo
Quem souber morre!: Não sei de nada!
Quem vai lá é coelho!:   Eu não vou lá de jeito nenhum!
Tá de boa: Tudo certo
Tá na correria: Tá na lida/loucura do dia a dia

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