Baianos unem diferentes rituais e crenças para garantir prosperidade em 2020

salvador
31.12.2019, 18:00:00
Atualizado: 31.12.2019, 18:10:52

Baianos unem diferentes rituais e crenças para garantir prosperidade em 2020

Venda de folhas para banho aumenta 40% e semana da virada deixa Igreja do Bonfim lotada

Foto: Marina Silva/CORREIO

Os ramos verdes estavam expostos logo na entrada da Feira de São Joaquim, em Salvador, e quem quisesse tomar um banho de folhas para se preparar para o novo ano poderia escolher entre diversas opções à venda no local.

Lá, a assistente social e professora da Universidade Católica do Salvador (Ucsal), Liane Monteiro, comprou pitanga, água de levante e lavanda. Tudo isso para fazer uma limpeza e um descarrego antes de 2020 começar.

O ritual não é o único a ser realizado por Liane no último dia do ano. Ela recorre a práticas de todos os credos para garantir tranquilidade na nova fase, que começa nessa quarta-feira (1º), logo após a meia noite. Desde o começo de dezembro, a professora já fez caruru, jogou flor para Iemanjá, foi ao Bonfim, fez orações e tomou banhos de folhas.

Apesar dos ritos serem realizados de forma recorrente por Liane, é no fim do ano que ela intensifica as ações.

“No final do ano, você se concentra mais na necessidade de limpeza, energização e cura. Toda energia do universo se mobiliza na mesma direção. São mais pessoas desejando a mesma coisa, e isso concentra a energia”, disse.

Liane comprou as folhas para fazer um banho na manhã desta terça (31) (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A professora não é a única a buscar apoio de diferentes crenças, divindades e rituais no final de 2019. O reitor da Basílica Senhor do Bonfim, padre Edson Menezes, contou que a igreja fica lotada entre a última sexta-feira do ano, que já passou, e a primeira do que vai começar.

“As pessoas ficam muito sensibilizadas nesse período. Elas estão mais dispostas a mudanças, a novas descobertas e aqui é esse lugar onde cada um encontra respostas, inspirações e motivações”, afirmou o reitor.

Ao mesmo tempo, a venda de folhas utilizadas para banho aumenta no final do ano. No Palácio dos Orixás, na Feira de São Joaquim, o gerente Webert Cerqueira calculou que a saída destes ramos de plantas sagradas aumenta 40% a partir do dia 10 de dezembro. A alta segue até o dia de Iemanjá, em 2 de fevereiro.

O gerente acredita que a busca pelas folhas reflete uma necessidade de começar o ano mais limpo espiritualmente.

“Ainda mais 2019 que foi horrível! As pessoas precisam de um banho para abrir os caminhos”, ressaltou Webert.

Orientação
Lá, foi até gente que não sabia nada sobre os banhos de folhas. A turma comprou de tudo para fazer os seus. O que não faltou foi pergunta e indicação do que levar para ter um grande ano.

As plantas que mais saíram foram as de limpeza como água de levante, manjericão, alfazema, arruda e guiné.

O Pai Ducho D’Ogum, do Terreiro Ilê Axé Awa Ngy (Engenho Velho da Federação), disse que muitas pessoas pedem trabalhos de prosperidade, abertura de caminho e para a retirada do Odu negativo e a entrada do positivo.

“A galera pede a previsão do ano, quer saber qual oferenda fazer, qual o orixá guia do ano. Eu chego a fazer 20, 30 consultas de búzios por dia. Durante o ano são cinco, quatro consultas por dia”, disse, sem esquecer de informar que 2020 é o ano de Xangô, o orixá da justiça.

Valdete vai ao Bonfim no último dia do ano há duas décadas (Marina Silva/CORREIO)

Há 20 anos, a vendedora Valdete Santos, 55, começou a tradição de ir ao Bonfim no dia 31 agradecer pelo ano que está para acabar. A data é uma das únicas em que ela vai à igreja da Cidade Baixa.

“Venho aqui assistir à missa, benzo as fitinhas e depois vou a uma missa na Igreja de São Lázaro”, contou.

A gratidão começou depois do marido de Valdete ter sofrido um acidente grave e sobrevivido. Todo ano ele vai até a Basílica do Bonfim de joelhos para agradecer a vida - em 2019, a promessa foi paga na segunda-feira (30).

Flores no mar
A Casa de Iemanjá, na Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, abrigava flores presenteadas para a Rainha do Mar. Outras tantas eram jogadas no oceano como uma oferenda para Iemanjá neste último dia do ano.

A psicóloga Mariana Cordeiro, 36, foi criada na igreja católica, mas a tradição de Réveillon é agradecer a Iemanjá, que é sua orixá. Ao depositar as flores no mar, ela agradece à rainha das águas salgadas por tudo que passou no ano - as partes boas e também as ruins.

Mariana é filha de Iemanjá e agradece a rainha do mar pelo ano que passou (Marina Silva/CORREIO)

“Eu agradeço por tudo e peço força pra ir atrás das coisas para 2020. Entrego as rosas brancas com perfume de alfazema. Sempre vou ao mar no último dia do ano com essas rosas”, contou a psicóloga, que ainda agradece a Deus no momento da virada.

É na união entre o catolicismo, espiritismo e o candomblé que a relações públicas Shirlei Almeida, 40, encontra o equilíbrio para alimentar a sua fé. Neste final de ano, ela esteve no Bonfim e jogou uma flor para Iemanjá.

“No final do ano, a fé sempre é fortalecida porque é o momento do rito de passagem e as pessoas acabam se sentindo mais engajadas. Eu acho que o ano começa bem, todo recomeço é bom”, disse.

Shirlei acredita que a mistura das religiões é algo natural do soteropolitano e como boa baiana da capital, ela não fica de fora do sincretismo ao fazer as suas tradições de ano novo.

Sincretismo
Essa dos baianos buscarem por todos os santos, crenças e simpatias para abrir os caminhos no ano novo pode ser atribuída ao sincretismo que dizem haver nesta terra. Mas para o doutor em antropologia da religião, professor da Ufba e babalorixá Vilson Caetano, este comportamento reflete apenas a natureza humana e está presente em todo o mundo.

“O sincretismo, como comumente atribuem ao baiano, não é um fenômeno apenas das religiões africanas, mas universal. Essa mistura de culturas e crenças estava presente nos portugueses, galegos e árabes que vieram para cá, por exemplo. Já o comportamento de quem recorre a todas as religiões, mesmo as que não é praticante, na hora de pedir por proteção, paz e prosperidade no ano novo também é inerente ao ser humano, que tem a esperança de que amanhã será melhor que hoje”, explica.

Outra discussão sempre presente em todo o fim do ano são as pessoas que praticam intolerância religiosa contra as religiões de matriz africana, mas na hora da virada usam de tradições e simpatias destas crenças. Para Vilson, isso reflete um modismo presente nesta data.

“É igual aos candomblecistas que comemoram o Natal, uma data que nada diz respeito à nossa religião. Nós acabamos nos ‘contagiando’ por este espírito natalino por conta de toda a pressão cultural e midiática que recebemos. Já com quem pula ondinha, entrega flores para Iemanjá e toma banho de sal grosso é igual, mas quem é preconceituoso nunca irá admitir que está o fazendo por conta do significado que o ato possui, mas sim porque ‘todo mundo está fazendo’”, analisa.

O Pai Ducho D’Ogum compreende que pessoas de diferentes religiões recorrem ao candomblé para conseguir um novo ano mais próspero. “São pessoas de todas as religiões que vão consultar os búzios, tirando os evangélicos que não vão aos terreiros”, observa. 

Para ele, a pessoa não tem que frequentar sempre o terreiro para precisar da religião em alguns momentos. 

O padre Edson Menezes ressaltou que muitas pessoas na Bahia participam de várias igrejas e praticam múltiplas religiões. Ele pontuou que a prática é parte da cultura local.

“Aqui na Bahia torna-se uma realidade a questão da dupla pertença. É aceitável, mas não é correto; a pessoa precisa fazer uma opção. Entretanto, entendemos que faz parte da nossa cultura”, comenta.

O padre afirmou que a igreja do Bonfim tem uma vocação para unir o diferente e, por isso, pessoas de diversas religiões congregam na basílica.

Para todos que vão para as missas entre o final de ano de 2019 e o início de 2020, o padre Edson busca passar uma mensagem de esperança, paz e um despertar para que os fiéis possam realizar mais no novo ano.

“Deus fez a parte dele e nós precisamos fazer a nossa, com essas duas forças, a coisa vai dar certo”, indicou.

Missas do Bonfim
Quem quiser abençoar 2020 pode ir à Basílica do Senhor do Bonfim amarrar a sua fitinha e pedir suas bênçãos. Até a primeira sexta-feira do ano, no dia 3 de janeiro, serão celebradas 23 missas no local. Confira a programação dos atos litúrgicos até a primeira sexta do novo ano.

Quarta-feira (1º) - 7h, 8h, 9h, 10h30 e 17h
Quinta-feira (2) - 7h, 8h, 9h, 10h30 e 17h
Sexta-feira (3) - das 5h até as 18h30, com exceção das 16h

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

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