Bandidos invadem terreiro, roubam celulares e batem em pai de santo

bahia
13.01.2019, 10:01:00
Atualizado: 13.01.2019, 16:21:46
(Foto: Reprodução)

Bandidos invadem terreiro, roubam celulares e batem em pai de santo

Ato ocorreu na Casa do Mensageiro (Terreiro Ilê Axé Ojisé Olodumare), em Barra do Pojuca

A noite era destinada ao pai de todos os orixás. O culto sagrado a Oxalá do Terreiro Ilê Axé Ojisé Olodumare, de Barra do Pojuca, na cidade de Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, foi invadido por seis homens armados na noite desse sábado (12). O pai de santo (babalorixá) da casa e um fotógrafo foram agredidos com uma coronhada na cabeça, cada. Integrantes do terreiro relatam que os bandidos chegaram a tentar roubar celulares de pessoas que estavam incorporadas.

A festa, aberta ao público, era a primeira do ano realizada no terreiro. Além dos próprios membros do Ilê Axé Ojisé Olodumare, os convidados também foram assaltados e um carro foi levado pelo grupo. Durante a abordagem, os seis homens proferiram palavras contrárias ao candomblé. 

“Eles falaram que aqui não deveria ter essa religião, que somos todos do demônio. Tentaram pegar até mesmo o celular das pessoas que estavam incorporadas com orixás. A gente fica com uma consternação de saber que mesmo estando no seu espaço sagrado, que você não tem segurança e nem encontra apoio da comunidade local”, disse Daisy Santos, iaô da casa.

O babalorixá Rychelmy Imbiriba e o fotógrafo que registrava a festa foram levados para a emergência e tiveram que levar pontos no rosto por conta das coronhadas. O nome do fotógrafo não foi divulgado. Testemunhas relataram ao CORREIO que pessoas idosas que estavam no local chegaram a passar mal durante a ação.

“Eles mandaram todo mundo deitar no chão. Os orixás não deitaram, eles ordenaram que eles ficassem sentados. Chegaram a levantar as roupas dessas pessoas para ver se tinha celular. A gente avisava que eles estavam incorporados, mas eles continuavam e diziam que a gente nem deveria estar ali”, relatou a iaô Muana Simões.

Durante ação, os invasores também roubaram ferramentas e instrumentos sagrados dos orixás da casa. O babalorixá foi agredido enquanto tentava falar com os bandidos que eles não precisariam de uma força tão ostensiva e que os presentes iriam entregar os pertences a eles, sem agressão.

O terreiro emitiu uma nota de pesar, na qual afirma que a situação foi um ato de intolerância religiosa e lembra da perseguição que a religião teve do Estado e da polícia. “Hoje (sábado), durante a cerimônia pública em louvor a Osalá, nossa casa foi invadida por bandidos armados que além de levar os pertences dos presentes (Egbé e convidados) profanaram a nossa fé, desrespeitaram nosso espaço sagrado, o nosso culto e agrediram o fisicamente o Babà Rychelmy Esutobi”, descreve a nota.

Veja vídeo divulgado pelo terreiro:

“Hoje somos alvo da violência que assola toda a nossa sociedade, acrescida da violência religiosa. Apesar de todo ocorrido estamos bem e continuaremos contritos em nossa fé conforme nossos antepassados nos ensinaram. Pedimos desculpas aos presentes na festa por terem vivido esse momento de aflição em nosso espaço que tanto remete a paz e segurança. Tomaremos as providências cabíveis para que fatos como esse não mais ocorram em nosso Ilê Axé”, acrescenta o terreiro na nota.

O caso está sendo acompanhado pela delegacia de Monte Gordo, em Camaçari. O CORREIO ligou para o local, que afirmou que o caso se trata de um assalto, e que os seis homens estavam armados e fugiram após a ação. A Polícia Militar afirmou, em nota, que não tem registros da ação.

"Quando passa fica mais desesperador. Na hora, eu fiquei mais tranquila porque tinha que dar suporte aos orixás e às pessoas que vieram visitar o centro. Depois que a gente vê a gravidade. Eu fiquei muito assustada", comentou Muana Simões.

Os membros do terreiro irão registrar o caso no Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela, da Secretaria estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), no Ministério Público da Bahia (MP-BA) e entrar em contato com a Prefeitura de Camaçari.

Apesar do culto a Oxalá ser o primeiro do ano, ele é o último do ciclo do candomblé. Agora, o terreiro irá parar suas atividades e só retornar em abril, quando a primeira festa de um novo ciclo é realizada. “Vamos aproveitar esse tempo para tomar as medidas cabíveis também. Isso não pode ficar assim e acaba que ficamos inseguros de continuar os festivos”, lamentou Daisy Santos.

O terreiro tem 15 anos de história, mas está no local há quatro anos. Neste tempo, a casa nunca sofreu atos de intolerância religiosa, mas os integrantes relatam que sempre sofrem preconceito ao andar pela localidade. “A gente acaba movimentando a economia daqui, então eles meio que aceitam, né? Mas como nós andamos com as roupas brancas, as guias e eles acabam não gostando, falando coisas”, detalhou Daysi.

"A casa tem aproximadamente 15 anos, ela é de raiz de Pai Procópio de Ogunjá, que foi feito no santo em Natal mas veio para cá e primeiro ficou no Ilê Axé Ofonjà, na Bonocô. O local foi escolhido porque tem uma reserva atrás, um local de contato com a natureza. A casa é de Oxum", afirmou Daysi.

Intolerância só cresce
Nos últimos seis anos, os crimes de intolerância religiosa cometidos na Bahia aumentaram 2.250%, de acordo com dados da Sepromi. Somente entre 2017 e 2018, o acréscimo foi de 124%.

De 2013, quando foi criado, até o dia 11 de janeiro, o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela registrou 152 casos de intolerância, 274 de racismo e 57 ocorrências relacionadas ao tema. Do total dos registros de intolerância religiosa, 16 correspondem a ataques a terreiros.

As violações a patrimônios e monumentos religiosos são consideradas casos de discriminação ou preconceito religioso, tipificados na lei 9.459, de 1997, que trata justamente dos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. 

Segundo a coordenadora do órgão, Nairobi Aguiar, o crescimento dos casos se deve ao aumento da intolerância na sociedade e à maior procura pelo órgão. No entanto, para ela, há indícios claros de que muitos casos não são registrados.

“Muita gente não registra as ocorrências porque não acredita nos órgãos da Justiça ou porque tem medo, e aqueles que procuram a delegacia, muitas vezes, registram o caso como invasão de patrimônio. Não entendem que foram vítimas de intolerância religiosa”, explica Nairobi.

Confira os registros de casos ano a ano, desde 2013.

  • 2013, total - 14 casos

Racismo - 08
Intolerância - 02
Correlatos - 04

  • 2014, total - 72 casos

Racismo - 31
Intolerância -22
Correlatos - 19

  • 2015, total - 92

Racismo - 44
Intolerância - 29
Correlatos - 19

  • 2016, total - 95

Racismo - 58
Intolerância - 32
Correlatos - 5

  • 2017, total- 66

Racismo - 45 
Intolerância - 21

  • 2018, total - 141 casos

Racismo - 84
Intolerância - 47
Fatos correlatos - 10

  • 2019, total - 03 casos

Racismo - 02
Intolerância - 01
Fatos correlatos - 00

Total - 483
Intolerância - 152
Racismo - 274
Casos correlatos - 57


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