Banzo de abraço: a reinvenção do toque em tempos de pandemia

coronavírus
09.05.2020, 06:00:00
Atualizado: 22.05.2020, 12:47:51
Fernando transformou travesseiro em seu ponto de afeto (Foto: Acervo Pessoal)

Banzo de abraço: a reinvenção do toque em tempos de pandemia

Dias das Mães sem a carícia é mais uma novidade da pandemia; saiba por que sentimos tanta falta e como se sentir abraçado

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Sem poder abraçar os pais, irmãos ou amigos, Fernando Leite Melo, 25 anos, vive grudado a um travesseiro velho, então escanteado na cama. “Ele se transformou no meu centro de afeto físico”, contou o advogado, que mora sozinho, no bairro da Federação, enquanto a família permanece também isolada em outro extremo da cidade, Itapuã. A pandemia de coronavírus impede abraços e mostrou, justamente por isso, não só a dependência fisiológica do toque, como a necessidade de reinventar a sensação de aconchego em outros formatos. 

Até aqui, psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde concluem o mesmo: o toque humano físico é insubstituível. Pesquisas já sinalizaram até que beijos e abraços na infância, por exemplo, podem até mesmo alterar o DNA. Uma área do cérebro chamada sistema límbico registra nossas emoções e experiências marcantes, e causa transformações celulares sempre que ativada - para o bem ou para o mal. 

Na pandemia, um dos pontos ativados pode ser a saudade do toque e o que ele representa. Mas, pode existir afeto sem toque, explicou a doutora em Psiquiatria Milena Pondé. 

“Se estabelecem necessariamente outras formas de carinho, nas redes sociais, por videochamada, por redes de solidariedade. Todas essas expressões de carinho e afeto transmitem sensação de apoio e compartilhamento”, disse.

O abraço está proibido, pois o contato físico é a principal forma de contágio pelo novo coronavírus. É a abstenção de um hábito que, na cultura baiana e brasileira, principalmente, era praticado mesmo entre completos desconhecidos. A cultura do toque é uma herança sobretudo africana, bastante sensitiva, explicou o antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Vilson Caetano. A dor da distância, portanto, torna-se dupla - pelo costume e pela necessidade física e emocional.

“Por exemplo, eu estive na Nigéria, na África, e vi isso, as pessoas comendo com as mãos. Tocar é algo muito sensitivo, e nesse sentido o abraço faz parte”

O uso do termo “banzo” para se referir à saudade dos abraços faz referência, inclusive, ao sentimento de privação de liberdade contra a população africana escravizada no Brasil. Os africanos trazidos à força para cá rememoravam, no presente, a sensação passada de independência e sentiam esse “banzo”, essa saudade da terra e do seu povo, complementou Vilson Caetano.

“O banzo é isso e tem uma conotação história e política muito forte. Eu gostaria de dizer que, neste caso, é mais uma referência ao termo saudade, uma palavra só nossa, e que adequa bem ao momento”, disse. 

Neste Dia das Mães, também não haverá abraços - ou pelo menos, deveriam ser trocados apenas entre quem vive o isolamento junto, com todos os cuidados possíveis. É a primeira data comemorativa que Fernando passa distante da mãe, Cida, 49. Quando aparece na antiga casa para passar os finais de semana, a mãe o acorda cedo, com abraços e beijos.

“Ela diz que precisamos ficar juntos, já que eu fico tanto tempo longe. Agora imagine como tem sido para ela, para mim”, contou ele. 

Fernando e a mãe, Cida, colados em uma festa familiar no ano passado (Foto: Fernando Melo/Acervo Pessoal) 

No mundo, essa carência é compartilhada. O grupo Quiosque lançou, no final do mês passado, uma campanha mundial chamada “Nós vamos nos abraçar de novo”. O coletivo não assina o vídeo, nem informa sua própria nacionalidade. Na gravação, surgem abraços de todos os tipos, em diferentes regiões do mundo, como o Brasil, África do Sul, Portugal e Estados Unidos. O abraçados são violões, almofadas e pelúcias. “Precisamos de mensagens otimistas que nos façam desejar o que aí vem”, consta na apresentação da gravação. 

Liberação de hormônios do prazer 
O toque tem um papel eminentemente de troca, entre quem toca e é tocado. A depender da intenção e intensidade, existem efeitos terapêuticos no simples ato de repousar, por exemplo, a mão sobre o ombro de alguém e olhar afetuosamente para essa pessoa. Um abraço pode liberar neurotransmissores relacionados a hormônios do prazer, como oxitocina. Daí a sensação de bem-estar e conforto sentidos ao abraçar uma pessoa querida. 

A pele, maior órgão do corpo humano, possui uma série de terminações relacionadas a estímulos nervosos. Quando assim somos embriões, inclusive, os outros órgãos e o sistema nervoso são todos originados de um mesmo tecido - o ectoderma, do qual também deriva a pele. 

“Mas, [a sensação causada] depende da intenção e intensidade. Um olhar afetuoso é muito mais acolhedor que o abraço formal”, diferenciou a psiquiatra Milena Pondé.

O que a médica pretende dizer com isso é que, sim, é possível reconhecer o valor de um abraço e buscar outras fontes de aconchego e carinho. Acontece que a solidão imposta na pandemia pode acentuar a necessidade de um toque físico. Avó de gêmeas, Osmália Ferreira, 71, tem dificuldade de falar das meninas sem se emocionar. “Ficar em casa não é o mais difícil para mim, o mais difícil é não ter esse contato”, relatou, por telefone. 

O Dia das Mães também era de toques, beijos e abraços em almoços de família. Osmália sente saudade de aconchegar as netas, beijá-las no rosto e contar historinhas. “Sabemos que é para um bem maior, então tento me apegar nisso”, complementou.

A saudade do toque que fazia parte da rotina diária conjunta de ambas, avó e netas, tem sido amenizada por tentativas de ligações - nem sempre as crianças param quietas -, visitas a fotografias e vídeos antigos e a compreensão de que é uma fase. “Isso vai se conectando com as coisas alegres que vivemos e dá a sensação de que a gente vai continuar vivendo aquilo num outro momento. Isso dá uma energizada.”

Encontrando seu ponto de afeto 
O corpo humano é composto por cinco sentidos - visão, olfato, paladar, audição e tato. Na opinião dos especialistas ouvidos pela reportagem, é hora de aguçar cada um deles. O histórico do toque e sua função terapêutica foi citada até por Jesus, como historicizou Nildo Ribeiro, doutor em Neurociência e fisioterapeuta e, ao tentar explicar em que medida ele foi convencionado ao longo do tempo e das culturas.

“Não no sentido religioso, mas é muito interessante quando Jesus fala: ‘E tocarão os enfermos e eles serão curados. Isso diz muito sobre o toque, a energia do toque”, explicou o professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Na rotina religiosa do Candomblé, a energia do toque é fundamental para a própria transmissão do axé - a força presente em cada um de nós e em cada uma das coisas, segundo a tradição religiosa. As mãos tocam outras mãos para repassar essa energia sagrada, seguram as comidas, tocam as cabeças de iniciados. Tão importante são as mãos e o toque que, como explicou o antropólogo Vilson Caetano, “a maior reverência na nossa cultura é beijar as mãos”. 

A experiência do toque tem funções energéticas e fisiológicas desde a nossa primeira morada - o útero. A ciência não consegue explicar se, de fato, ao ser estimulado externamente à parede uterina, o bebê apresenta algum nível de interação. Mas, é ali, naqueles estímulos percussores, que são fortalecidos os primeiros vínculos.

O toque e, só depois, o abraço são meios de transmissão de afeto, que acolhem e nos fazem seguir com a certeza de pontos de apoio e segurança. Ao se deparar com situações de tensão, estresse e ansiedade - como os vividos neste momento - o corpo reage com contrações musculares que se transformam em dores físicas, a partir da liberação de substâncias como noradrenalina e ceticolina.

“Agora perceba que quando você estar num lugar confortável, relaxa, abraça seus cachorros ou que quer que faça te sentir bem, o seus sistema nervoso entende que está tudo bem, é hora de relaxar, e fica tudo bem”, contrapôs o neurocientista.

A recomendação, então, é de que você possa encontrar seus próprios pontos de afeto. Dona Laecy Alves, 93, tem tentado enganar a saudade dos braços dos quatro filhos, três netos e uma bisneta com distrações ao longo do dia, como pintar a unha, se exercitar e acenar, da varanda, quando vê algum conhecido passar abaixo do seu andar. Ela mora com três filhas, que ainda mantém o mínimo de circulação nas ruas - como compras em supermercados e farmácias - e, por isso, não abraçam a mãe. "Eu sou vovozona, abraço muito todo mundo, gosto muito", disse. "Sinto tanta saudade, minha filha", completou, com a voz emocionada. 

Dona Laecy e uma das três filhas (Foto: Acervo Pessoal)

As distrações são possíveis e são maneiras de ativar boas sensações. É possível começar pelo autotoque, a meditação de dez minutos, uma ligação de vídeo com uma pessoa querida, um autoabraço, a busca por memória afetivas e passatempos que te dêem prazer. Também vale abraço um objeto ao qual você é apegado - seja qual for. 

“Essa conversa me inspirou e me ocorreu agora que eu posso ligar para minha mãe, me autobraçar e dizer: esse é o abraço que eu queria dar em você, mãe. Também é bastante emocionante você criar uma simbologia para isso”, sugeriu. 

A certeza é de que nós vamos nos abraçar de novo. Mas, até lá, pratiquemos em casa, de outras formas. 


Toque é terapia para bebês prematuros
Os bebês prematuros - aqueles que nascem antes da 37ª semana da gestação - dependem do toque para o amadurecimento neurossensorial e o relaxamento dos músculos tensificados por estímulos mais invasivos, como uso de aparelhos respiratórios. “Um toque de afeto vai relaxando esse bebê, que apresenta hipertonia [aumento da rigidez] por toques invasivos, como picadas de agulha para medir glicemia, enfim”, explicou Suely Ribeiro, médica de UTI neonatal.

Logo ao nascer, dependemos do toque para nos desenvolver e para relações futuras (Foto: Shutterstock)

A pandemia também forçou mudanças nesses espaços. A frequência e intensidade do toque precisaram ser readaptados, mas não podem deixar de existir. Nos últimos dois meses, as visitas foram reduzidas à metade. O toque de afeto de uma pessoa de fora do ambiente hospitalar fortalece o próprio sistema imunológico do bebê. As mãos das mães, pais e avós, por exemplo, são colonizadas por bactérias mais brandas, que são adquiridas aos poucos pelos nenéns. Só então eles ganham resistência para combater bactérias menos benignas. 

De tão poderoso, a aproximação entre dois corpos consegue estimular até a produção de leite, por meio da produção do hormônio da prolactina.

“O emocional afeta completamente o bioquímico. Mesmo que não haja produção de leite por outras questões, a mãe e o bebê estão desenvolve sua proximidade e o sistema neurológico dele está sendo impulsionado”, relatou.

Não só os momentos de aproximação são importantes pelo toque, mas também pela troca de olhares e afeto presente naqueles momentos. É o que reforçou a psiquiatra Milena Pondé, ao concluir que o afeto é fundamental, inclusive, para as futuras relações do bebê e como ele se comportará socialmente no futuro. É como se viéssemos do toque e para ele sempre retornássemos. 

Como estar sozinho e se sentir abraçado?*

1. Pratique o autoabraço e outras formar de autotoque, como simplesmente correr as mãos pela pele 
2. Abrace objetos queridos, que tenham um significado afetivo para você 
3. Recorra a ligações de vídeos e estabeleça outras trocas afetivas, como palavras e olhares carinhosos 
4. Tente meditar por dez minutos ao dia, como forma de relaxar e aprofundar seu autoconhecimento 
5. Compartilhe experiências com familiares e amigos, com a perspectiva de que todos estão juntos, mesmo separados. 


Qual é seu tipo de abraço?** 

Abraço de urso: É aquele abraço forte, que mostra carinho, afeto e proximidade de quem iniciou o abraço. Às vezes, quem abraça não consegue controlar e força e o abraço acaba se transformando em brincadeira. 

Abraço protetor: A pessoa que abraça envolve a outra em seus braços num sinal de proteção que reforça sentimentos como segurança, apoio e estabilidade. 

Abraço cara a cara: Durante o abraço, as pessoas se olham nos olhos. É um abraço mais íntimo, que denota forte intimidade. 

Abraço que escuta: Neste abraço, a fala é fundamental. Aquele que abraça e escuta o outro te dizer, no toque, que “tudo vai dar certo”

Abraço de descanso: Um abraço mais sereno e leve, que dá a sensação de relaxamento e preenchimento de energias para seguir. 
 

*Fonte: psicólogos, psiquiatra e fisioterapeuta ouvidos nesta reportagem
** Fonte: Nildo Ribeiro, fisioterapeuta

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