Barulhentos: denúncias de poluição sonora mais que dobraram durante isolamento 

minha bahia
23.07.2020, 06:30:00
Fazenda Grande do Retiro é o recordista em poluição sonora nos cinco meses de quarentena (Marina Silva/CORREIO)

Barulhentos: denúncias de poluição sonora mais que dobraram durante isolamento 

Fazenda Grande do Retiro, Paripe e Pernambués são os bairros que lideram ranking das denúncias

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A quarentena pode ser vista como um momento de sossego e calma que até incomoda muitos que enfrentam o desafio diário que é permanecer dentro de casa por tanto tempo. Para outros, que têm que lidar com poluição sonora de residências, de veículos e até paredões em área pública, o sossego e a tranquilidade são sensações distantes. Esse é o caso de quem vive em Fazenda Grande do Retiro, Paripe, Pernambués, Liberdade e Itapuã, bairros campeões em Salvador quando o assunto é barulho excessivo. 

Segundo levantamento realizado pela Coordenadoria de Fiscalização e Combate à Poluição Sonora da Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), desde o início do isolamento, foram registradas 33.889 mil denúncias. Enquanto durante o mesmo período em 2019, o órgão recebeu 13.985 mil denúncias. O aumento é de aproximadamente 142%.

O aumento substancial surpreendeu a Semop e apresenta um quantitativo muito superior aos anos anteriores. Márcia Cardim, subcoordenadora de fiscalização e combate à poluição sonora, afirma nunca ter visto algo parecido.

"Nunca presenciei uma quantidade absurda de denúncias em tão pouco tempo. Isso chocou a gente. No fim de semana do São João, foram cerca de 1800 denúncias, que é um número altíssimo", afirma Márcia, que trabalha no combate à poluição sonora há 20 anos.

Fazenda Grande do Retiro lidera o ranking do barulho com 1052 denúncias, Paripe vem logo atrás com 1005 chamados, Pernambués está em terceiro com 924 registros, o bairro da Liberdade ocupa a quarta posição com 904 casos e Itapuã está em quinto lugar com 876 denúncias. Juntos, os bairros que compõem o "top5 do barulho" somam 4.761 ocorrências por excesso de ruído em residências, carros e áreas públicas, cerca de 14% dos chamados feitos em toda Salvador. 

O barulho incomoda tanto em Fazenda Grande do Retiro que vira até motivo para mudança. "Minha mãe morava em Fazenda Grande e saiu de lá por conta da poluição sonora que incomodava muito e era insuportável", afirma Lene Nascimento, 39. Segundo a atriz, que também já morou por lá, o barulho tira a tranquilidade da vida das pessoas, que não conseguem nem assistir TV sem colocar o volume no máximo.

Veja o ranking dos bairros e das denúncias:

(Arte: Quintino Brito/CORREIO)
(Arte: Quintino Brito/CORREIO)

Maria José dos Santos, 62 anos, mora em Itapuã e afirma que a poluição sonora é algo comum. "O barulho acontece porque aqui todo mundo faz festa todo fim de semana. O povo não para de ir para os bares, para a casa de familiares. É só procurar que você encontra. E, nessas reuniões, o que mais tem é som mais alto do que deveria", conta.

Em Pernambués, a situação é parecida. Lucas Oliveira, estudante de Teatro da UFBA revela que os barulhos que geram incômodo são diversos. "Os sons altos aqui são frequentes tanto de dia, quanto a noite que rola aniversário e festas no geral. E a poluição sonora vai de vizinho ouvindo som alto, carro de som na rua até obra e festas dentro das casas", afirma.

Pernambuês teve 924 queixas de poluição sonora durante a pandemia (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Residências barulhentas
Com a maior permanência das pessoas em suas casas, cresceu também o número de chamados para averiguação de moradores que exageram no volume na hora de escutar música. Ainda segundo Lucas, os barulhos vêm muitas vezes de residências com som alto em comemorações.

"Começou ter muita festa em casa por conta da pandemia. As casas têm sido o principal lugar de onde sai um barulho que supera o aceitável", diz o estudante.

Taís da Silva Conceição, 27, estudante de contabilidade, mora em Paripe e revelou que os vizinhos às vezes passam do ponto. “De vez em quando, tem um vizinho ou outro que liga o som mais alto do que o comum, mas não dura muitas horas e por isso não incomoda tanto a nossa vida”, ressalta. 

A maior parte das chamadas reclamando de barulhos excessivos são relacionados às pessoas que ligam o som dentro das próprias residências e incomodam os vizinhos. Os ruídos residenciais são a fonte de 12.491 denúncias, seguidos por veículos particulares com 8.806 e áreas públicas com 4.155.

De acordo com Márcia, essa lideranças das residências nos registros é algo incomum. "A fonte de ruído mais denunciada hoje é a residência com boa folga. Algo incomum porque as casas não costumam liderar essa estatística", afirma.

Além das residências, veículos particulares, carros de som, área pública, igrejas e construções são os principais alvos das queixas de quem entra em contato com a Semop.

Medo de denunciar
Além de incomodados, os moradores se sentem acuados e isso gera uma subnotificação das denúncias relacionadas aos excessos sonoros. Muitos são os que pedem para não serem identificados ao comentar a situação.

"Não quero que coloque meu nome porque aqui é um bairro periférico e isso seria perigoso. Na minha rua, sempre tem esses paredões de som com música alta durante a madrugada e incomoda muito quem mora perto desses locais onde estas festas acontecem", revela uma moradora da Rua Vila Romana, em Itapuã.

Há quem tema pela própria vida ao ser perguntado sobre a situação e pede o anonimato imediatamente. "Não põe meu nome, por favor. Eu tenho medo de dizer meu nome. Algum traficante pode bater na minha porta por isso. Mas aqui rola paredão o tempo todo e a gente não tem sossego", informa uma moradora de Fazenda Grande do Retiro com quem o CORREIO falou durante a reportagem.

Em Paripe foram mais de mil chamados (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Aglomeração
De acordo com os dados da Semop, as denúncias relacionadas à poluição sonora ocupam o terceiro lugar na estatísticas de fontes de ruído. Para Márcia, os números são uma prova de que as pessoas não têm respeitado o isolamento social. "Com essa escalada da área pública nesse ranking, você pode ver que claramente as pessoas estão saindo de casa para fazer festa", explica. 

Felipe Queiroz, 26, é designer e reside no fim de linha de Pernambués. Ele diz que aglomeração é frequente na região. "O pessoal chega com o carro e coloca o som alto que incomoda muito e, ainda por cima, provoca aglomeração porque começa a juntar gente e não há respeito às normas de distanciamento social", conta Felipe, que afirma que o som alto e a aglomeração nas ruas de Pernambués começam durante o dia e só acabam na madrugada.

Segundo a moradora de Itapuã que não quis se identificar, os moradores do bairro pouco se importam com a pandemia e não respeitam as regras de distanciamento.

"As medidas restritivas de aproximação são descumpridas diariamente. O pessoal não está preocupado com isso. É aglomeração direto", reclama.

Medidas 
Para a fiscalização e combate aos excessos sonoros cometidos por tantos cidadãos em Salvador, a Semop realiza a Operação Silere (silêncio em latim), que conta com a participação da Guarda Civil Municipal (GCM), Transalvador, Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo  (Sedur) e a Polícia Militar da Bahia. A operação é feita nas sextas-feiras, sábados e domingos. Durante o período da pandemia, já foram realizadas 160 ações em conjunto.

A Prefeitura também tem realizado a Operação 'Fique em Casa' com intuito de evitar aglomerações e consequentemente as denúncias de poluição sonora, em especial aquelas relacionadas a veículos e área pública.

Poluição sonora é crime, está previsto no Artigo 54 da lei nº (9.605/1998), que prevê pena de um a quatro anos de reclusão e multa. Márcia faz questão de lembrar que a operação pode resultar em multas aos infratores que podem pesar no bolso."Podemos aplicar multas de até R$ 168 mil, de acordo com a quantidade de decibéis excedentes", declara.

Para denunciar excessos, você pode ligar para o 156, que é o disque focado em atendimento para situações de poluição sonora e pedir apoio à Semop.

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